Entrevista com Maria Rita Gramigna
O suíço Jean Piaget acreditava que nenhum homem nasce inteligente, mas que o aprendizado acontece a partir da interação entre o indivíduo e as respostas aos estímulos externos. A tese, batizada de construtivismo, é um aguilhão à criatividade e ao uso de métodos de expressão mais lúdicos, como, por exemplo, os chamados jogos de trabalho. A professora Maria Rita Gramigna, uma das referências no Brasil sobre o assunto, escreveu em 1993 o livro Jogos de Empresa, quando compilou os jogos mais conhecidos em uma só publicação. A obra se tornou referência para profissionais da área e, em 2007, chegou à sua segunda edição pela Editora Pearson, como título líder de vendas.
Segundo Maria Rita, os jogos empresariais podem ser aplicados em diversas situações dentro de uma companhia (e, em alguns casos, fora dela). Ela explica que, da seleção ao treinamento, é possível usar a técnica para colher dados a respeito de candidatos a vagas, verificar competências, diagnosticar clima e desenvolver características valorizadas pela empresa entre os colaboradores. Na nova edição do livro, Rita traz mais orientações a respeito da aplicação do método, desvenda mitos a respeito do assunto e também inclui novos jogos, com uma síntese de resultados alcançados depois da aplicação de cada um deles.
A autora é conhecida na América Latina e na Europa, onde leciona o módulo "Jogos de Empresa", no Mestrado em Criatividade Total Aplicada da Universidade Fernando Pessoa, em Porto, Portugal. Em entrevista ao CanalRh, ela fala um pouco mais sobre o histórico e o aproveitamento dos Jogos de Empresa no Brasil.
CanalRh: A senhora é pioneira, no País, no desenvolvimento e aplicação de jogos de empresa. Como surgiu a idéia de reunir essas técnicas em um livro?
Maria Rita Gramigna: Por ser pedagoga, quando comecei a atuar na área de Recursos Humanos, na década de 1980, tive a oportunidade de colocar as idéias construtivistas de Piaget em prática nas organizações. A princípio, utilizava somente as dinâmicas de grupo. Entretanto, em 1984 fiz um curso de Jogos de Empresa ministrado por um consultor português e fiquei fascinada pela técnica. Pesquisei bastante nos anos seguintes e organizei uma metodologia de aplicação de jogos corporativos, alvo de meu primeiro livro editado pela Pearson em 1993. O livro Jogos de Empresa se tornou um best seller e o primeiro do tipo a ser publicado por um autor nacional.
CanalRh: Qual a importância do jogo empresarial para uma companhia e o que pode ser descoberto sobre os colaboradores a partir da aplicação da atividade lúdica?
Rita: O jogo de empresa é uma ferramenta efetiva quando se trata do desenvolvimento e da identificação de competências. Eles permitem que os jogadores tenham uma série de insights, percepções sobre suas dificuldades e potencialidades, reflexões sobre melhorias para alcançar a excelência, sempre em um ambiente participativo.
CanalRh: A técnica vem sendo bem utilizada pelas organizações?
Rita: Nos anos 80, início da difusão dos jogos no Brasil, eram poucas as empresas que adotavam tal prática. A princípio, os jogos costumavam ser mais utilizados em Treinamento e Desenvolvimento com foco no redirecionamento do comportamento e atitudes grupais. Hoje em dia, o jogo de empresa faz parte de praticamente todos os programas internos: treinamento e desenvolvimento, processos de seleção, formação de bancos de informações sobre o potencial dos colaboradores, identificação de lacunas de competências, diagnósticos de clima em áreas específicas e como elemento dinamizador de convenções.
CanalRh: Além dos processos organizacionais, em que outras situações o uso de jogos empresariais é indicado?
Rita: Nos últimos cinco anos, fui procurada para criar jogos específicos para grandes convenções, com objetivos que variam desde a integração dos participantes até a sensibilização do grupo para um redirecionamento estratégico. Outro espaço que se abriu para os profissionais que atuam com jogos foram as instituições de ensino superior, os cursos de MBA e os de pós-graduação. Nestes casos, o jogo é inserido para dinamizar as aulas e para internalizar indicadores de competências.
CanalRh: Como é feita a análise das características dos colaboradores a partir do jogo?
Rita: Durante a aplicação de um jogo, é possível observar o profissional em ação, permitindo aos consultores internos verificar o nível de proficiência do colaborador a partir dos indicadores de competências que compõem o perfil do cargo analisado. Geralmente, esta avaliação é acompanhada de outras informações obtidas nas entrevistas individuais ou coletivas, na aplicação de inventários e nas informações sobre desempenho dos participantes do processo. Quando reunidos, os dados permitem ao avaliador desenhar o perfil de competências em potencial dos candidatos, com um nível maior de assertividade.
CanalRh: Existe diferença entre as dinâmicas de grupo e os jogos empresariais?
Rita: Jogo de Empresa e Dinâmica de Grupo são duas metodologias diferentes, sendo que para atuar com o jogo é recomendável, também, conhecimento das técnicas de dinâmica dos grupos. O jogo tem como alvo os processos empresariais, como o planejamento; e as dinâmicas, os processos grupais, que interferem diretamente nos resultados da empresa. Logo, um é auxiliar do outro. As dinâmicas são muito importantes para o desenvolvimento integral do ser humano e dos negócios.
CanalRh: As empresas estão fazendo, cada vez mais, uso do computador e de jogos eletrônicos para treinamento e seleção de pessoas. A senhora acha que esse tipo de jogo tem mais eficácia que os tradicionais?
Rita: Independentemente do recurso utilizado, o que define ou não a eficácia de um jogo de empresa é um conjunto de indicadores na hora de sua escolha. As perguntas que devem ser feitas para a escolha do método são: Qual é a clientela final? Qual objetivo desejo alcançar? Qual o tempo e os recursos que tenho à mão? Que competências desejo desenvolver ou avaliar? Qual o nível de conhecimento e experiência do aplicador? A escolha do tipo de jogo está condicionada a estas respostas.
CanalRh: A senhora fala que há alguns mitos que ainda prevalecem a respeito dos jogos empresariais. Que mitos seriam esses?
Rita: Um dos mitos que felizmente vem sendo minimizado nos últimos tempos é aquele ancorado na crença da impossibilidade de ser feliz no trabalho. Tal crença reflete, diretamente, na metodologia de jogos de empresa. Por tratar-se de atividade lúdica, por meio da qual as pessoas jogam em um ambiente espontâneo e participativo, a prática de jogos ainda suscita críticas daqueles que não têm as informações sobre seus benefícios e vantagens. Em 1992, uma revista de circulação nacional dedicou cinco páginas em matéria sobre o tema, contendo críticas pesadas às empresas que utilizavam metodologias lúdicas e criativas para treinamento de executivos. Eu ainda lembro do título: "Picaretagem ou Técnica de Infantilização de Adultos?". Quinze anos depois, ainda existem profissionais que acreditam no mito de que não é possível aprender e se divertir.
CanalRh: Durante os anos de trabalho, a senhora pôde notar se algumas competências ‘prevalecem’ em determinadas áreas de atuação?
Rita: Há várias dependendo do tipo de negócio (ver quadro completo abaixo). Nas indústrias, por exemplo, são valorizados a capacidade empreendedora, o trabalho sob pressão e a comunicação. Na área de telefonia, há uma demanda por pessoas criativas e flexíveis.
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