Patrícia Bispo
A competitividade é um reflexo que ganha cada vez mais força no mundo globalizado. Essa tem sido a principal razão das empresas buscarem profissionais que se comprometam com o negócio e, conseqüentemente, dêem o melhor de suas competências. No entanto, transformar esse desejo em realidade não é fácil. Se assim o fosse, a motivação não seria um tema tão relevante e, ao mesmo tempo, preocupante para o meio corporativo. Afinal, por que isso ocorre apesar de tantos programas e ações motivacionais serem considerados prioridade por quem comanda as companhias? O problema dessa questão pode não estar apenas relacionado em quanto se gasta na motivação dos profissionais, mas sim de que forma essas ações são elaboradas, colocadas em prática e em quais indicadores ou fatores corporativos elas atuam.
Segundo Raquel Kussama, consultora, especialista em desenvolvimento organizacional e formação de equipe, a resposta pode estar ligada diretamente à atenção que foi ou não dada à alma da empresa. Trocando em miúdos, quando se esquece de cuidar dos valores pertinentes às pessoas, a organização deixa de ter um ambiente harmônico e saudável.
“Acredito que as organizações vão se estruturar e depois os profissionais que estiverem sem essa competência estarão automaticamente eliminados do mercado de trabalho, da mesma forma que vemos hoje a exclusão para competência técnica, comportamental e emocional”, afirma Raquel Kussama. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ela fala sobre os fatores que formam a alma da empresa e como as emoções dos profissionais interferem no futuro da organização. A entrevista, logo abaixo, é uma oportunidade de reflexão tanto para os gestores de pessoas quanto para quem acredita que pode trabalhar em um ambiente corporativo saudável. Boa leitura!
RH.com.br – Em seus trabalhos, a Sra. destaca que além do desenvolvimento das competências técnicas, comportamentais e emocionais, as organizações devem se preocupar com a espiritualidade dos colaboradores. O que a leva a defender essa linha de trabalho?
Raquel Kussama – Temos vivido em diferentes organizações e detectamos que além das competências técnicas, comportamentais e emocionais, o ambiente de trabalho é influenciado pelo clima de harmonia ou desintegração. Os valores da empresa são determinados pelas pessoas. É isto que nos leva a defender a tese de que a competência espiritual está presente no ambiente de trabalho e que facilita a obtenção dos melhores resultados, com menor nível de estresse e melhor qualidade de vida, com menor nível de conflitos entre as pessoas.
RH – O que podemos considerar como competência espiritual?
Raquel Kussama – É a capacidade das pessoas em facilitar e colaborar com os colegas de trabalho. São os valores pertinentes às pessoas que criam o padrão do que sempre se chamou de clima ou cultura organizacional. Pessoas equilibradas e harmonizadas produzem melhores resultados. É a visão da empresa e do homem que nela trabalha em prol da criação do ambiente profissional baseado em nobres sentimentos, com respeito ao ser humano e ao ambiente global.
RH – As pessoas ainda confundem espiritualidade corporativa com religiosidade?
Raquel Kussama – Sim, ainda há o estigma que espiritualidade é religiosidade. O importante a salientar é que espiritualidade é valor pessoal, é a forma de agir da natureza humana e religiosidade são crenças baseadas em uma doutrina. No conceito espiritualidade, nada importa a religião. Nas organizações temos espíritas, católicos, evangélicos, dentre outros religiosos. O ambiente pode permanecer integrado, com uma equipe que age com serenidade e determinação, trazendo bons resultados ou, então, permanecer pesado, com conflitos não resolvidos, erros constantes e pessoas receosas.
RH – A competência espiritual está relacionada aos valores da organização?
Raquel Kussama – Exatamente. Quando falamos de espiritualidade, estamos dizendo, por exemplo, que em um processo de demissão é importante que a pessoa saia tranqüila, pois poderemos evidenciar os pontos de distorção em relação à organização, mas preservando a existência dela enquanto ser humano. No “papel profissional” a organização pode quebrar vínculos, mas no “papel pessoa” fica o aprendizado. Posso citar um exemplo. Assessoro uma empresa multinacional que estamos preparando um gerente e sua equipe para o desligamento em fevereiro de 2008. Desde janeiro de 2007 temos tido ações junto à equipe de gerentes e aos funcionários para que o processo aconteça sem traumas e este gerente tem colaborado. A empresa definiu todas as etapas e a rescisão de contrato em conjunto com o próprio gerente. Sempre numa relação de transparência e coerência nas ações, com responsabilidade e profissionalismo das partes envolvidas.
RH – Se a espiritualidade tornou-se uma realidade corporativa, podemos arriscar-nos em afirmar que a empresa também possui uma alma?
Raquel Kussama – Com toda certeza. A alma da organização é a essência do seu negócio. Existe um ditado que diz “a alma do negócio” e nós questionamos nos profissionais: “o negócio da alma”. É importante que os profissionais identifiquem-se com o negócio, o produto, o processo administrativo e produtivo, a cadeia produtiva, os melhores resultados numa relação ganha-ganha. Portanto, a alma é capaz de interferir no ambiente de trabalho e influenciá-lo positivamente ou negativamente. A empresa também tem alma. E tratar da alma do negócio significa cuidar dos processos de produção e administração da mesma maneira que cuidamos das pessoas que fazem parte desse todo.
RH – Quais as características de uma empresa com a “alma doentia”?
Raquel Kussama – Diria que a alma da empresa é doentia quando estão presentes as relações de trabalho baseadas em processos trabalhistas, em relacionamentos interpessoais com mentiras, subornos. Em objetivos e interesses pessoais em desacordo com princípios éticos e fora do foco do negócio.
RH – A sintonia dos pensamentos dos profissionais influenciam a alma da empresa?
Raquel Kussama – Sim. Por este motivo temos percebido que quando administramos, treinamos e respeitamos pessoas, temos o crescimento da organização através da superação das dificuldades com menos nível de estresse. Vemos barreiras serem transformadas
RH – Existem tratamentos para cuidar da alma das organizações?
Raquel Kussama – Tratamento, diria treinamento. É preciso diferenciar os papéis sociais de pessoa e profissional. O limite para “puxar” alguém é manter a pessoa feliz, com respeito à sua individualidade e à auto-estima. A condução do treinamento é de todos os gestores de pessoas, todos os líderes. Os profissionais com formação na área de humanas têm maior competência técnica e comportamental para treinar os gestores de pessoas na aplicação do desenvolvimento humano e organizacional. São diversos os conhecimentos obrigatórios sobre comportamento humano e empresarial que estão envolvidos neste processo. Ainda reforço que é um processo e deve ser respeitada a maturidade das pessoas e da empresa.
RH – Como esse tratamento seria ministrado na prática?
Raquel Kussama – Posso falar da minha própria experiência. Tenho atuado através da melhoria do comportamento humano – uma ação individual que visa à mudança tendo em vista o padrão exigido pelo mercado. Além disso, realizamos o programa de desenvolvimento de liderança, sempre com o grupo de gerentes para que saibam como fazer a diferença individual e na aplicação do conceito na gestão do seu pessoal. Trabalhamos, ainda, no desenvolvimento da equipe para que a integração e a harmonização sejam entendidas como crescimento de todos, respeitando os limites. É claro, tudo começa pela principal liderança – o dono do negócio ou presidente – que acredita e incentiva as pessoas a enfrentarem seus medos, suas incapacidades temporárias, visando à melhoria contínua no alcance da excelência da performance.
RH – O equilíbrio entre razão versus emoção influencia a harmonia entre colaboradores e empresa?
Raquel Kussama – Muito. As reações emocionais, sejam positivas ou negativas, são desgastantes no ambiente de trabalho. Vivemos em uma era de competitividade e ficar evidenciado sentimentos pode parecer sem sentido. Ficar tentando conciliar sentimento individual só gera incoerência. Por isso, a ação pelo lado racional toma uma dimensão importante. Ser racional é ter objetividade e assertividade na execução de projetos e programas. É ter começo, meio e fim nas reuniões e discussões entre profissionais. É deixar interesses profissionais acima dos pessoais.
RH – Como o profissional de RH pode contribuir com a alma organizacional?
Raquel Kussama – O profissional de Recursos Humanos como formador de opinião – e digo que é o fortalecimento das relações sociais de uma organização – é quem deve assumir o comando da implantação e manutenção da competência espiritual através da mediação e comparativos de maturidade organizacional, da mediação do clima e, principalmente, da colaboração na criação da cultura organizacional baseada em respeito e valorização da pessoa. Existe o discurso, mas na prática vemos programas de remuneração e de ascensão inadequados. Vemos horários de trabalho sem respeito à qualidade de vida pessoal. Vemos relações do trabalho sendo baseados em brigas jurídicas sem ética. Quando as relações do trabalho forem entendidas como um cumprimento do papel social do trabalhador, do profissional, teremos avançado muito na competência espiritual.
