A Aplicação de Estratégias Metacognitivas

Maria Alice Capocchi Ribeiro

 

Redefinindo a Geração X

A chamada Geração X compreende, teoricamente, os indivíduos nascidos entre 1960 e 1980, ou seja, aqueles que hoje têm entre 20 e 40 e poucos anos e que, marcadamente, cresceu em uma sociedade em contínua, rápida e radical mudança - ambos os pais trabalhando fora, fast food, controle remoto e máquinas maravilhosas que proporcionavam resposta imediata a todo o tipo de necessidades.

No entanto, é justamente a rapidez das mudanças e suas conseqüências que torna inadequada a classificação de quem tem 20 anos e de quem tem 40 anos dentro de um mesmo grupo. Faz-se necessária uma nova classificação.

A chamada Geração X, na verdade compreende dois subgrupos: a geração do “Arquivo X” - não o seriado americano, mas simplesmente aqueles entre 20 e 30 e poucos anos, para quem tudo (conhecimento, procedimentos, emoções) pode ser classificado “como em um arquivo”; e a geração quomduda.

Você não sabe o que é quomduda? Para saber, por favor, complete a frase abaixo escolhendo uma das alternativas:
Um quomduda é um ____________

* pós-balzaquiano: substantivo “neocomum de dois”, designando igualitariamente homens e mulheres que já saíram da casa dos 30;
* pós-yuppie: neologismo “comum de todos”, os que batalharam por sucesso no mundo corporativo quando ainda estavam na casa dos 30, mas não necessariamente que tenham alcançado seus objetivos;
* pós-”B”: “B” de Beatles, de Bee Gees, de Bond (leia-se Sean e Roger, para os íntimos), de Bacharel (os MBAs só viraram moda bem depois que saíram da faculdade), ou até de “baby-boomer”;
* QUOMDUDA: Qualquer Uma Ou Mais De Uma Das Anteriores.

Ser um profissional que já saiu da casa dos 30 é muito complicado neste século XXI, o qual foi qualificado pelo antropólogo Roberto DaMatta como sendo marcado pela imprevisibilidade e pela arrogância das “novas versões de velhas ideologias”. A maioria dos quomduda vê perspectivas profissionais e financeiras bastante limitadas à sua frente, pois muitos passaram pela reengenharia e cortes nas empresas onde trabalhavam (note o pretérito nada “perfeito”) e têm perspectivas sombrias no que se refere ao nosso sistema de Seguridade Social, tanto nos serviços dos quais precisam agora quanto em relação à aposentadoria.

Apesar dessa experiência ser comum a toda a Geração X, essas perspectivas são um reflexo do presente estado em que se encontra a sociedade e têm profundas implicações no tocante ao desafio da (re)construção contínua de nossa aprendizagem e, conseqüentemente, na (re)construção de nosso repertório de estratégias cognitivas e metacognitivas mencionadas no artigo que precede este (publicado no RH.com.br, em 05/05/03 - clique para ler).

Importantes implicações apresentam-se também para o coach de um processo de aprendizagem, cujos participantes podem ser da Geração Arquivo X, quomduda’s ou um grupo misto com participantes dos dois subgrupos.

O desafio da (re)construção contínua de nossa aprendizagem

As experiências que vivenciamos desde que nascemos moldam a maneira como aprendemos. As características atribuídas à Geração X, logo no primeiro parágrafo, devem ser analisadas com mais profundidade para entendermos como orientar Arquivos X e quomduda ’s no desenvolvimento de suas estratégias cognitivas e metacognitivas.

Tendo crescido com ambos os pais trabalhando fora, nossos “sujeitos” aprenderam a desenvolver sua autonomia, a fazer as coisas eles mesmos. Sendo assim, estão acostumados e gostam de resolver problemas, de planejar e organizar as coisas. Valorizam pessoas que conseguem desempenhar múltiplos papéis e conduzir diversas questões ao mesmo tempo. Aprenderam que cada segundo do seu tempo é precioso e precisa ser muito proveitoso. Se por um lado querem ser motivados e apreciam e sentem necessidade de feedback honesto e construtivo, detestam ser controlados. Você, coach, o que abstrai disso?

Outra característica para um coach considerar: não é só a comida que tem que ser rápida, mas o também próprio desempenho dos “sujeitos” e os serviços que solicitam a diferentes tipos de fornecedores (tanto na esfera pessoal quanto profissional). A isso associamos uma boa dose de descrença na qualidade e nos ganhos que obtém dos sistemas sociais vigentes e temos indivíduos altamente, por vezes exageradamente, exigentes consigo mesmos e com os outros. Em relação à aprendizagem, esses “sujeitos” esperam um processo rápido, eficiente, que traga os resultados que esperam, com a qualidade que esperam.

Você já reparou que estou usando o termo “sujeito”?. Toda a Geração X, independente do número de seu RG, quer agir, quer ter seu nome antes do verbo na sentença de sua vida. Quer ser um autor (no máximo co-autor) de tudo o que lhe diz respeito.

Isso nos leva a duas considerações:

Aquelas maravilhosas máquinas e equipamentos que proporcionam resposta imediata a todo o tipo de necessidades são ferramentas altamente valorizadas pelas razões explicadas acima mas, no fundo, constituem motivos de orgulho global. Podemos até dizer que esse orgulho faz parte do inconsciente coletivo de toda a humanidade, porque foram criadas e são gerenciadas por estes “sujeitos”. Ouso dizer até que os “sujeitos” não temem tanto as máquinas, como se alardeia por aí (ou como querem nos fazer acreditar), pois sabem que são eles que apertam os botões, inclusive e principalmente o vermelho (ou de qualquer outra cor), para pará-las, desligá-las.

Os “sujeitos” sabem que, para se manter no mercado, têm que investir em uma aprendizagem por toda sua vida. Eles não esperam envelhecer dentro de uma mesma empresa, na mesma função. Sendo assim, vêem a empresa como um ambiente que lhes proporciona crescimento e cujos frutos poderão ser aplicados no futuro tanto nessa mesma empresa quanto em outra - na que lhes apresentar melhores oportunidades de (re)construção de seus conhecimentos, de crescimento e de reconhecimento. Ou até na abertura de sua própria empresa. De todo modo, esta questão pode ser lida como “sucesso”, o que está intimamente ligado à primeira característica aqui abordada.

Vemos, assim que o desafio da (re)construção contínua de nossa aprendizagem não se limita aos “sujeitos” Arquivo X e quomduda, mas se estende também aos instrutores e ao RH, como um todo.

Sujeito composto

O desafio dos instrutores e do RH é o de realmente tornarem-se coaches. O que isso quer dizer?

O sujeito do processo de aprendizagem é um “sujeito composto”, ou seja, os aprendizes têm que ter uma parcela de controle e de poder de decisão sobre sua aprendizagem balanceada com a parcela dos coaches. Além disso, os dois “sujeitos” têm que vivenciar essa aprendizagem: os coaches têm que vivenciar o papel de aprendizes de determinado curso antes de conduzi-lo para realmente compreender o processo de aprendizagem do conteúdo trabalhado.

Empregar novas técnicas de aprendizagem: isso significa não somente a evidente necessidade de constante atualização, mas principalmente a utilização da realidade dos “sujeitos” (que está em rápida e contínua mudança) nas atividades propostas pelo curso. Deve-se levar em consideração suas experiências de vida, valores e necessidades, pois, segundo diversos estudos, a aprendizagem autêntica é um processo onde se processa, interpreta e negocia o significado das novas informações.

Focar os resultados e não as técnicas propriamente ditas: uma técnica só poderá ser considerada de boa qualidade para determinado curso e público, se permitir a ambos os “sujeitos” atingirem os objetivos esperados, dentro dos parâmetros de qualidade definidos para esse sucesso.

Tudo isso vale tanto para a Geração Arquivo X quanto para os quomduda’s?

Lógico! Claro! Mas então, por que a diferenciação entre os dois subgrupos? É que as experiências que marcaram e continuam marcando, arquetipicamente, cada subgrupo diferem principalmente em relação ao processo de negociação das novas informações. Isso vai determinar as diferentes técnicas a serem utilizadas e os diferentes resultados almejados e alcançados.

O que fazer então? - Conclusão

Minha sugestão envolve um pouco mais de trabalho para os coaches, mas significa muito mais em retorno. Sempre que possível, organizar cursos com um público misto, ou seja, com Arquivos X e quomduda ’s, pois devemos tirar vantagem da enorme riqueza da interação entre diferentes realidades, perspectivas, valores e necessidades que um grupo misto apresenta.

Todo o trabalho de preparação que os coaches terão, incluindo vivenciar o curso antes de aplicá-lo, deve ser consistente com esta proposta, ou seja, deverá também contemplar um grupo misto de coaches. Esta será uma experiência de aprendizagem incrivelmente enriquecedora.

Deste modo, os coaches estarão promovendo três experiências de desenvolvimento de estratégias de cognição e metacognição: a primeira, sua própria experiência do processo de aprendizagem durante a fase de preparação e planejamento; a segunda, a experiência desse processo pelos colaboradores da empresa; e a terceira, quando os coaches conduzirem e avaliarem o trabalho e o comportamento dos colaboradores ao vivenciarem esse processo de aprendizagem.

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