A tomada de decisões em empresas familiares
Admin On março - 1 - 2008



Marlos Henrique da Silva

 

A sobrevivência das organizações na Era do Conhecimento exige uma gestão com enfoque diferente daquela que determinou o sucesso das empresas na Sociedade Industrial. A forma pela qual as organizações são conduzidas será determinante em seus resultados. E os responsáveis pela condução deste processo, representados genericamente na figura dos ocupantes de cargos com responsabilidades gerenciais, assumem relevada importância. O trabalho desenvolvido por eles, dificilmente, pode ser dissociado do processo decisório. Inerentes a este, estão as influências sofridas pelo gestor durante o mesmo, uma vez que são diversos os fatores que influenciam a tomada de decisões.

A primeira preocupação, ao focalizar o processo decisório, é conceituá-lo e caracterizá-lo no contexto organizacional, pois a realidade atual nos conduz a situações em que, na preocupação de levar sua empresa a alcançar os objetivos almejados, as decisões tomadas passam a ter relevante peso na vida de cada administrador, podendo trazer conseqüências diretas e imediatas para a empresa.

O conflito de interesses pode existir entre os administradores da empresa – que buscam resultados que justifiquem suas posições, bem como enalteçam seu trabalho e valorizem-nos como profissionais; e os acionistas da empresa – esses buscando o retorno dos seus investimentos, os cash flows.

Quando os acionistas são constituídos por um grupo familiar, caracterizando uma empresa homônima, são observadas diversas peculiaridades e as barreiras se multiplicam. Os problemas são os mais diversos e o nível de complexidade varia de acordo com o porte da empresa e as características da estrutura familiar. A busca da lucratividade remete o empresário à tomada de decisão sobre as diferentes formas de obtê-la, com efeito direto na gestão da empresa. Muitas vezes, ressente-se da própria falta de profissionalização da gerência. Noutras, essa existe na figura de profissionais competentes, mas as interferências provenientes dos proprietários prejudicam e atrasam as tomadas de decisão e o desempenho organizacional.

O poder para tomar decisões com rapidez vai de encontro ao gerenciamento de conflitos, que toma conta de grande parte do tempo desses executivos de empresas familiares. Nessas, nem sempre o critério da competência tem sido a justificativa para esclarecer promoções e acesso a cargos de chefia e direção. As dificuldades para assumir posições imparciais são inúmeras, o que leva, muitas vezes, a soluções de contemporização e condescendência.

O processo decisório envolve procedimentos necessários à definição de problemas, avaliação de alternativas e escolha de uma diretriz de ações e soluções. Consiste em escolher um curso de ação entre várias alternativas para se defrontar com um determinado problema. A maioria dos estudos sobre processo decisório indica que os principais elementos do processo decisório são o estado da natureza, isto é, as condições de incerteza, risco ou certeza que existem no ambiente que o tomador de decisões deve enfrentar. O desfecho é a opção entre as várias alternativas, podendo esta ser influenciada pelas envolventes interna e externa à organização. Em empresas familiares, o processo poderá presenciar o choque entre dois subsistemas completamente opostos: a Família e a Empresa.

Os valores que levam uma família a ser bem sucedida, não são necessariamente os mesmos que levam uma empresa ao sucesso. Por exemplo, as recompensas explícitas em família nem sempre são justas, podendo tornar-se danosas aos demais membros. Numa empresa, considerando o contexto econômico atual, da valorização do conhecimento – e por conseguinte das pessoas, que o detêm – como o recurso mais importante das organizações, tal ocorrência poderia ter resultados desastrosos à coletividade.

Um outro exemplo é a sucessão. Grande parte dos empresários tem o sonho de ver seus filhos identificados com o negócio ao qual se dedicaram por toda a vida. Este desejo de perpetuação é o que leva, muitas vezes, o próprio empresário a boicotar a profissionalização, interferindo diretamente no trabalho dos executivos contratados. Os herdeiros, muitas vezes, são treinados para serem sucessores mas, na sua maioria, o treinamento é direcionado, desconsiderando a escolha destes, transformando-se num fardo que todo herdeiro carrega ao ter que renunciar o direito ao trono sem, com isto, perder o carinho e o respeito dos pais. Este processo de sucessão direcionada também tolhe com freqüência o surgimento de outros pretendentes, desperdiçando muitas vezes talentos e competências consideráveis.

Algumas das variáveis importantes que interferem no processo de tomada de decisão, como os objetivos organizacionais,os critérios de racionalidade e de eficácia, os valores, ascrenças, entre outras, podem apresentar-se deturpadas na esfera de uma Empresa Familiar. Estas variáveis, somadas a outras, servem de apoio ao gestor no processo decisório. Sua ação poderá então ser comprometida no sentido de formar valores positivos (recursos) e de eliminar crenças ou mitos, direcionando assim o administrador para um caminho já tão conhecido, discutido e avaliado na literatura no tocante à Gestão de Empresas Familiares: decisões precipitadas e ações, equivocadas.

  • Colaborou com esse artigo Joaquim Felicio Junior – Professor de Administração de RH, Coordenador de uma Faculdade de Administração em Caratinga, Minas Gerais.
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