As Organizações “Lost” e a Era Conceitual
Por vezes noto que meu foco de atenção se desloca de uma direção para outra, sem, contudo, fazer um elo que aproxime e integre essas pontas.
Dia desses, recebi a revista HSM (mai/jun-2008) e tive a feliz informação de que essa conexão existe. Daniel Pink, no artigo “As aventuras do hemisfério direito” (p.116) aborda as questões da criatividade, da estratégia, do auto-conhecimento, da valorização do conteúdo em parceria com o conhecimento, enfim, aborda um conceito integrado de diferentes aspectos que se complementam e se relacionam de modo sistêmico.
Nesse artigo, Pink faz a interessante ligação entre três forças econômicas da atualidade (abundância, Ásia e automação). Segundo ele, hoje, para “acontecer”, temos de fazer algo que seja difícil de terceirizar, difícil de automatizar e que atenda à demanda crescente por coisas não-materiais, com características estéticas, espirituais ou emocionais.
Cita o exemplo da General Eletric que, nessa direção, tem feito um amplo trabalho interno de motivar a sensibilidade das pessoas. A idéia é estabelecer efetivas motivações intrínsecas, de modo a que as pessoas trabalhem em determinada organização porque querem estar lá e não apenas por motivações extrínsecas, como salário e benefícios. Quando existe a motivação de dentro para fora, as pessoas produzem mais inovação e são bem mais criativas. Isto revela algo importante: as organizações hoje precisam mais das pessoas talentosas que possui do que estas precisam da organização.
Em termos de talento, está se falando daquela constelação de capacidades que não podem ser facilmente exportadas, replicadas ou automatizadas. O exemplo que o artigo trata é do profissional de Design.
Este trabalha uma combinação de utilidade com significado, funcionalidade e estética que não pode ser feita por máquinas ou pessoas sem essa competência. Isso nos remete à importância de cada um conhecer sua própria fonte de motivação intrínseca, descobrir o que lhe motiva e ir atrás disso, de preferência, com uma combinação de resultados como a do Design. As pessoas que fazem – e bem - o que querem, porque gostam do que fazem, têm uma vida mais significativa, porque sabem que isso pode fazer diferença no mundo. Pink fecha o artigo dizendo que o segredo é o seguinte: quem consegue mais sucesso no mundo material é quem é intensa e intrinsecamente motivado.
Este era um dos elos perdidos em minhas elucubrações. Sempre busquei fazer o que gosto, reforçando minhas competências e realizando coisas que me dão satisfação, sem, no entanto, fazer disso uma atividade egoísta, irresponsável ou hedonista.
Realmente é muito bom dedicar naquilo que nos dá prazer, que desafia nossas capacidades, que retém nossa atenção de modo continuado, um verdadeiro fluxo de produção altamente satisfatória. O problema é que o mundo das organizações parece não gostar disso e está sempre dando um jeito de cativar as pessoas para que elas façam coisas que nem sempre estão motivadas a fazer e daí as capturam pelo dinheiro, oferecendo a “cenoura financeira” para que elas se submetam a atividades que não são aquelas nas quais se realizam.
Não sei se isso ocorre por incompetência técnica das áreas de Recursos Humanos ou outra causa que desconheço. Porém, em parte, explica o volume de crises emocionais, frustrações e baixa produtividade que vemos nos colaboradores de muitas empresas.
Os grupos de funcionários neste estado começam a parecer com os personagens do seriado Lost. Estão em lugar indesejado, fazendo apenas o que se torna necessário e não vêem meios de sair dessa situação, pois a ilha – no caso deles, a necessidade financeira - lhes impede a saída. Organizações “Lost” acabam aprisionando pessoas, mas não são capazes de usar o potencial de talento que elas dispõem.
As pessoas se fixam no lado esquerdo – racional – do cérebro, fazendo as coisas de modo básico e lógico, afastando-as do fluxo, da criatividade e da inovação.
Se realmente caminhamos para uma Era Conceitual, onde a essência criativa e inovadora trabalha junto com o lado racional e ao mesmo tempo, emocional e espiritual, precisamos agir para extinguir as Organizações “Lost”. Elas são predadoras dos talentos e satisfações humanas. Porém, isto parte não somente de uma nova forma de gestão, mas também de uma nova forma de perceber o trabalho e suas relações com o indivíduo.
Quando o potencial humano passar a contribuir mais do que atrapalhar, veremos um crescimento significativo da inovação, da produtividade e, ao mesmo tempo, uma redução de doenças psico-sociais que assolam os diferentes ambientes organizacionais. Só que esta é uma mudança paradigmática, significativa, complexa e de espectro amplo. Não ocorrerá do dia para a noite, mas a Era Conceitual virá independente disso.
Portanto, aos que estiverem de olhos abertos e agindo para que seus potenciais sejam respeitados e bem utilizados, assistiremos uma disputa para conquistá-los aos quadros das organizações que também tiverem saído do conceito “Lost” de gestão de talentos e potencialidades humanas.
Henrique José Castelo Branco – hcastelo@onda.com.br – HTTP://web.onda.com.br/hcastelo
Atenciosamente,
Carlos Fonseca - cfonseca@click21.com.br
Categoria: Administração
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