Atravessar O Rubicão


“Temos a eternidade toda para sermos cautelosos, mas então estaremos mortos”.

Lois Platford

Em 11 de janeiro de 49 A.C., o general e estadista romano Caio Júlio César tomou uma decisão crucial: atravessar o rio Rubicão com seu exército, transgredindo a lei do Senado que determinava o licenciamento das tropas toda vez que o general de Roma entrasse na Itália pelo norte. Este ato foi uma declaração de guerra civil contra Pompéia, que detinha poder sobre Roma. Com as palavras alea jacta est (a sorte está lançada), César resolveu voltar com suas legiões à cidade. Uma vez atravessado o Rubicão e já em terras romanas, ele sabia que não tinha volta. Ou ele e seus soldados tomavam a cidade, ou Pompéia os destruiria.

Navegar é preciso, sim, no mar da vida. Mas, como a vida também é feita na terra, muitas vezes a caminhada se depara com um Rubicão. Lançar-se impulsivamente pode representar um suicídio, iniciando uma viagem sem retorno, deixando para trás dados recuperáveis de uma situação ainda não definitiva. Ficar à margem, sem arriscar a travessia, em nome de vãs e irrealizáveis ilusões significa perder-se irremediavelmente no passado e renunciar ao futuro. Nesse momento, a hora da verdade transforma-se em hora de decisão.

Chegando-se ao Rubicão, é preciso parar para pensar, refletir, pesar e sopesar, revisar e rever. Na verdade e pela verdade. Avaliado o quadro, chega a hora da decisão. É ficar ou avançar. Transformando o passado no presente da travessia para o futuro da vida. Romper com o passado irrecuperável para construir um presente novo em função do futuro. E, aí, atravessar o Rubicão. Numa travessia definitiva. Que não tem volta, construindo um novo tempo.

Essa é a situação da gestão pública e particular brasileira hoje. Passou por experiências de crescimento, depois estagnou no deserto das incertezas e imaturidades, acabou se prostituindo com a adoção de modelos impróprios para as nossas necessidades enquanto País. Entrou em crise. Enfrenta sua hora da verdade. Faz seu balanço. E agora, convencida da impossibilidade de continuar no esquema do passado e de ressuscitar sonhos tornados impossíveis pelos erros, toma a decisão de atravessar seu Rubicão. Não há remédio, senão separar-se do modelo antigo, definitivamente desgastado e destruído pelo ácido corrosivo dos enganos, das mentiras e das ilusões, deixando para trás qualquer esperança de reconstrução dos antigos moldes de um passado definitivamente sepultado por novas realidades impostas pelos tempos presentes.

A travessia do Rubicão é um ato profundamente solitário: significa desligar-se dos modelos que tanto mal fizeram à administração brasileira e partir para a busca de novos caminhos. Há horas em que mesmo esforços tardiamente sinceros de resgatar a verdade são insuficientes. E aí não têm jeito. Do lado de lá do Rubicão, novas teorias brasileiras de gestão esperam a sua vez, agora já libertadas de seu angustiante passado. O anseio de modernidade e de construção de uma verdadeira sociedade cidadã significam exatamente a imposição da desvinculação do modelo de administração patrimonialista aos interesses de minorias oligárquicas e tecnocráticas, retirando assim da burocracia a sua função de instrumento de manutenção do autoritarismo ainda reinante em nosso País.

A transformação democrática da burocracia da administração implica, em última análise, mudança no sistema de poder, mudança na correlação de forças no corpo social. Que fique, no entanto, bem claro: não se pode deixar nas mãos do burocrata a tarefa de imprimir à gestão o caráter da modernidade e da cidadania. Afinal, o burocrata tende a ter uma visão burocrática até mesmo da desburocratização e da desregulamentação. É por isso que as nossas sucessivas experiências de mudança da máquina pública têm sistematicamente fracassado: insiste-se em colocar o “lobo tomando conta do galinheiro”, pretende-se ingenuamente que o burocrata desburocratize e democratize as relações entre o poder público e a sociedade, entre a empresa e o cidadão, quando da própria burocracia provem os seus alimentos. O burocrata é o vampiro da máquina administrativa; para viver precisa se revigorar permanentemente nas exigências desnecessárias, nos cartórios, na papelada alienante e nos processos absurdos tão bem descrito por Franz Kafka.

Um especial abraço a todos.

Wagner Siqueira

Visite o site www.wagnersiqueira.com.br

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