A atividade de captação de recursos dentro de uma organização não-governamental (ONG) muitas vezes é tratada como “patinho feio” dentre as outras atividades que a organização desempenha. Muitas organizações tratam a captação de recursos como algo à parte, às vezes executada por uma pessoa exclusiva para isso. Um grupo pensa o que deve ser feito, levanta os custos e uma outra pessoa é quem deve conseguir o dinheiro para que o projeto aconteça. Muitas organizações se vêem perdidas dentro do planejamento de suas ações quando o assunto captação de recursos é colocado, limitando-se a vislumbrar possíveis apoiadores e a preparar propostas para serem enviadas para que a doação aconteça. Tenho de confessar que esta prática também foi minha quando iniciei minhas ações de captação de recursos dentro da Academia de Desenvolvimento Social, mas acabei descobrindo que a captação de recursos é muito mais que conseguir dinheiro – na verdade, é construir alianças.
A idéia de construir alianças é bem mais ampla do que ir atrás de um doador para o projeto. Construção de alianças nos leva a pensar em união de esforços de pessoas e organizações com interesses comuns. É neste sentido que enfatizo a importância do planejamento da organização sem fins lucrativos a longo prazo. As organizações não-governamentais são diferentes das organizações empresariais, pois orientam suas ações visando a uma transformação social, mudanças sociais concretas, seja um comportamento, uma crença ou um valor. Muitas vezes pensamos que as ONGs trabalham com algo muito subjetivo, pouco concreto, por isso de difícil planejamento. Penso diferente. Na verdade essas organizações trabalham com algo extremamente concreto. Como poderia dizer que uma pessoa vítima de violência ou uma criança com fome não é algo concreto? Não só é concreto como é real e causa sofrimento. As pessoas que conduzem essas organizações devem vislumbrar a sua visão de futuro e imaginar concretamente as mudanças sociais realizadas no futuro. E essas mudanças devem ser concretas, reais e causar um alívio a esse sofrimento sentido pela sociedade. Quando conseguimos fazer isso, o caminho e os passos a serem dados se apresentam a nós para que possamos chegar a esta transformação social.
Mas qual seria a utilidade do planejamento da organização a longo prazo para a captação de recursos, ou mesmo a construção de alianças? Reside basicamente na capacidade de antecipar as necessidades da organização para o alcance da sua missão. Se eu sei aonde quero chegar e o caminho que irei seguir, já consigo antecipar as minhas necessidades para que isso aconteça. Por exemplo: poderei saber a necessidade de ampliação do espaço físico, para que se possa aumentar o número de salas para os trabalhos pedagógicos; como também poderei saber antecipadamente que os educadores terão que dominar o ensino da informática, pois se pretende realizar esta tarefa com os jovens da comunidade. Temos que entender que as organizações não precisam do dinheiro em si, ele é meramente útil para algumas necessidades. A organização, na verdade, precisa é de pessoal treinado, energia elétrica, computadores, pessoal habilitado para o trabalho, material didático, entre outros. A utilidade do dinheiro está em providenciar isso.
Sabendo das necessidades da organização, como posso construir estas alianças? Na verdade, é necessário encontrar outras organizações que estão construindo algo que tenha a ver com a caminhada que estamos trilhando. Não acredito que estas alianças nasçam porque as organizações desejam alcançar a mesma transformação social, mas sim porque em algum momento do caminho eles coincidem. Ou seja, as concretas e reais transformações sociais podem ser diferentes, mas os caminhos algumas vezes costumam se cruzar. A grande questão da construção destas alianças está em saber qual é o caminho da outra organização e ela saber que caminho estamos trilhando.
A maioria da ONGs procura divulgar a sua missão, ou seja, que transformação social estão buscando, mas não costumam dizer como pretendem fazer isso dentro de um horizonte razoável de tempo. Perdem a chance de falar realmente de si e encontrar outros que podem contribuir com o seu trabalho. Acredito que a primeira coisa que deve ser feita para construirmos alianças é apresentar a todos que transformação social pretendemos fazer e que caminho estamos seguindo para alcançar isso. E não só apresentar, temos também que conhecer as outras organizações: qual a sua missão e que caminho pretende seguir. É desta forma que encontramos outras organizações que cruzam o nosso caminho.
Esta interação de pessoas e organizações buscando se conhecer nada mais é do que relacionamento. A construção de alianças começa com a construção e expansão de relacionamentos. Isto não significa que se duas organizações se conhecem há bastante tempo haverá a construção de uma aliança. É preciso que as suas ações se cruzem e, principalmente, é necessário que haja algo muito humano nesta relação: confiança.
Observem que neste texto ainda não abordei questões muito comuns nos planos de captação de recursos, como preparação do material da ONG para a visita ou mesmo a elaboração da proposta ao doador. Não quero aqui dizer que não sejam importantes, mas é que o ensino deste tipo de atividade muitas vezes é orientado basicamente para três fatores: pesquisa por fontes de recursos, elaboração da proposta e visita ao doador. Não penso que seja tão simples. Na verdade, essas etapas existem e são importantes, mas a captação de recursos, dentro da perspectiva da construção de alianças, nos faz entender que não são apenas ações isoladas ou atitudes, mas sim um longo processo do qual essas etapas citadas fazem parte. A construção de alianças é um processo, pois é uma busca interminável por relacionamentos e conquista de confiança.
Romel Pinheiro – é administrador pela Universidade de Pernambuco (UPE), mestrando em Administração Pública pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), fundador da Academia de Desenvolvimento Social, especialista em Sistematização de Projetos Sociais e professor da Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Artigo extraído do sítio da Academia de Desenvolvimento Social (www.academiasocial.org.br).
