Patrícia Bispo
No final dos anos 80 e início dos 90, o mundo corporativo deparou-se com um fenômeno que quebrou barreiras, disseminou conhecimentos e, cada vez mais, exige que as organizações assumam uma postura que vai além da lucratividade. Esse acontecimento transformador, chamado Globalização, trouxe à tona assuntos que até então eram considerados unicamente responsabilidade das esferas governamentais. Hoje, a preocupação das corporações ultrapassou os seus portões físicos e também se voltou para o social.
Mas, o que se pode chamar de uma empresa socialmente responsável? A literatura científica, por exemplo, destaca que existem cinco princípios conceituais que revelam se uma organização é socialmente responsável ou não. São eles: intencionalidade, envolvimento dos gestores, liderança, comprometimento com a sustentabilidade e conhecimento de causa. Em relação à intencionalidade, especificamente, a empresa precisa desenvolver ações somente como forma paliativa ou apenas visando retorno de imagem, seja diante dos colaboradores ou dos clientes externos. É preciso criar atividades com o foco voltado à melhoria da qualidade de vida da população e redução das injustiças sociais.
Ter responsabilidade social não uma tarefa tão fácil. É fundamental estruturar e colocar em prática uma ação que vá além do discurso. Para realizar trabalhos consistentes, há empresas que recorrem a parcerias com entidades e os resultados mostram que esse pode ser um ótimo caminho para quem deseja dar o ‘pontapé inicial’ na área de responsabilidade social. Um caso que chama a atenção pelos resultados gerados, acontece na MWM International Motores, uma organização que há quase 20 anos implantou o Formare – um programa de cunho social que nasceu dentro das empresas Iochpe-Maxion S.A. e que oferece formação profissional a jovens de baixa renda.
A MWM International Motores, subsidiária da norte-americana Navistar International – um dos principais fabricantes de motores diesel do mundo – é líder em tecnologia e desenvolvimento de motores diesel da América Latina. Com Centro de Tecnologia e de Negócios
Segundo Pedro Funcke, gerente de Programas Sociais e Motivacionais da MWM International Motores, durante a década de 80, na Região Metropolitana de Porto Alegre/RS, houve um aumento significativo de casos de jovens envolvidos em assaltos, tráfico de drogas, entre outros crimes. Diante dessa realidade, o empresariado começou a se mobilizar na busca de programas de capacitação profissional de jovens de alto risco social. Foi nessa época, que a MWM abraçou o Formare.
“Com a capacitação dos jovens sendo efetuada dentro das organizações, por profissionais técnicos e com um ambiente apropriado dentro da fábrica, os alunos teriam a oportunidade de aprender conteúdos que poderiam ser aplicados tanto em nossa empresa quanto em organizações da região. Após a capacitação, a grande maioria dos jovens permanecia em nossa empresa e assim iniciavam sua carreira profissional”, relembra Funcke, ao acrescentar que atualmente, a organização está com a 21ª turma em Canoas/RS, a 1ª turma de alunos
“Nossa proposta é capacitar os jovens para o mercado de trabalho, visto que muitos desenvolvem perfis diferentes das nossas atividades de fábrica. Porém, se os alunos obtiverem um bom desempenho e comportamento durante o período que permanecem conosco e houver a oportunidade, eles participaram do processo de seleção com grandes chances de efetivação. Isto é, se tiverem um desempenho satisfatório e no momento tivermos a oportunidade interna a contratação é certa”, afirma Funcke.
O processo de implantação do Formare foi relativamente simples. O primeiro passo da MWM International Motores foi definir os pré-requisitos, junto ao MEC e à Fundação Iochpe, do curso que seria ministrado. Em seguida, a proposta foi apresentada aos líderes da empresa, seguindo-se do convite feitos aos colaboradores que possuíssem conhecimento dos conteúdos para a realização dos cursos e que poderiam participar como Educadores Voluntários. Nesta etapa, a empresa iniciou o processo de divulgação da Escola Formare como um todo, nas diversas formas de comunicação interna e chegou a atingir 100% dos colaboradores.
Para sensibilizar os funcionários para a importância desse trabalho de responsabilidade social, a organização adotou um modelo de aproximação com os colaboradores, onde eles puderam indicar jovens de sua comunidade a participarem do processo de seleção. Pedro Funcke explica que todas as disciplinas do curso profissionalizante são ministradas por colaboradores. No conteúdo do curso, encontram-se disciplinas como: reforços em matemática, português, inglês que auxiliam os participantes do Formare a obterem um melhor aproveitamento nas escolas públicas.
Já os conteúdos específicos como, por exemplo, técnicas de atendimento e apoio administrativo, qualidade de vida no trabalho, organização industrial, comunicação e relacionamento, empreendedorismo, logística de distribuição, informática, materiais e processos, entre outras, chegam a uma carga total 715 horas/aulas teóricas, sendo que 110 horas são de aulas práticas (estágios) onde os jovens permanecem em departamentos alternados da organização. Para viabilizar o programa, a organização não precisou fazer adaptações significativas à sua estrutura, pois é necessária apenas uma sala de aula para as aulas teóricas, enquanto que as práticas ocorrem no próprio ambiente fabril.
Vale salientar que mensalmente a organização promove encontros para que os colaboradores possam debater questões relacionadas à saúde da empresas, bem como ligadas a programas motivacionais e sociais. É neste momento que a MWM International Motores solicita o engajamento dos funcionários, visto que cada um pode ser um orientador no desenvolvimento dos alunos nas questões como comportamento desde o momento em que os jovens ingressam no ônibus da empresa, passam pelo refeitório e até mesmo pelos vestiários. “Contudo, o momento mais importante ocorre quando o colaborador ensina aos jovens o que é a sua atividade, como foi a sua carreira, dando o seu depoimento de vida ao aluno. Isso ajuda solidifica o programa e motiva os alunos”, menciona o gerente de Programas Sociais e Motivacionais.
Quando questionado sobre os benefícios que a adoção do Formare trouxe à MWM International Motores, Pedro Funcke é categórico ao afirmar que entre todos os colaboradores houve o fortalecimento de um sentimento de valor humano muito grande. “Seja junto aos Educadores Voluntários, aqueles que ensinam suas atividades nos estágios ou aqueles que apenas dão conselhos, no dia-a-dia, fica a sensação de missão cumprida. A organização se contagia com uma energia positiva e de que as pessoas não só estão aqui para trabalhar, mas sim para ajudar ao próximo durante o próprio expediente de trabalho”, conclui.
O Formare – O Programa Formare foi criado em 1988 dentro das empresas Iochpe-Maxion S.A. em Canoas/RS, e São Bernardo do Campo/SP, como uma oportunidade de formação profissional para jovens de baixa renda. O objetivo do programa é desenvolver as potencialidades de jovens de famílias carentes, moradores das redondezas das empresas, a fim de integrá-los à sociedade como profissionais e cidadãos. Contudo, o projeto não se limita ao curso, pois quando formados os ex-alunos recebem apoio na obtenção do primeiro emprego. Dos mais de 4.500 jovens que passaram pelo Formare 85% estão empregados.
Os cursos promovidos através da iniciativa têm duração de, no mínimo 800 horas/aula, e são desenvolvidos pela equipe pedagógica do Formare de acordo com as características de cada empresa e a realidade do mercado de trabalho local. A orientação pedagógica baseia-se nas diretrizes do Ministério da Educação, que prevê o desenvolvimento de competências e habilidades obtidas através da associação de teoria e prática. Os cursos são certificados por instituição federal de ensino vinculada ao MEC – a UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).
Para ser aluno jovem deve ter entre 15 e 17 anos, cursar, no mínimo, o último ano do ensino fundamental, ter renda per capita familiar inferior a meio salário mínimo e não ter tido acesso a cursos profissionalizantes. Já a organização que desejar participar da iniciativa deve oferecer instalações com cerca de 60m² para a sala de aula, definir a equipe de coordenação e passar a contribuir mensalmente para o Fundo de Desenvolvimento da Metodologia Formare. A organização precisa também assumir o compromisso de oferecer os seguintes benefícios aos alunos: bolsa auxílio, alimentação, transporte, seguro de vida em grupo, assistência médica e odontológica, uniforme, material escolar, bem como assistência social e psicológica.
