Empresa ‘Vende’ Folha De Pagamento
Companhias realizam concorrências com vários bancos para definir qual irá gerenciar as contas de seus funcionáriosJornal Correio Popular - 27/08/2005 De São Paulo
A exemplo de estados e municípios, empresas de diversos setores estão “vendendo” a instituições financeiras o direito de explorar a folha de pagamento dos empregados. Realiza-se uma concorrência com a participação de vários bancos, vencendo o que oferecer o maior pacote de vantagens, que inclui geralmente um pagamento em dinheiro à corporação. O contrato é por tempo determinado, normalmente cinco anos, assim como o dos entes públicos. A Arcelor Brasil é uma das empresas que realizaram recentemente um processo desse tipo. Em julho, oito bancos participaram de uma concorrência na companhia com o objetivo de ganhar o direito de fazer o crédito de salário de 14,5 mil empregados do grupo. O vencedor foi o Santander Banespa, que assumirá a função em outubro próximo. O diretor de Relações com Investidores do Itaú, Alfredo Setubal, disse que a disputa desse nicho de mercado se acirrou, o que estimula os processos de concorrência. Sempre houve negociação entre empresas e bancos para a gestão da folha, mas envolvia geralmente apenas redução de tarifas nos serviços oferecidos aos empregados e à companhia. “Hoje, a negociação é mais ampla, inclusive com pagamento em dinheiro pela instituição financeira.” Para as empresas, a contratação de um banco nesses moldes é vantajosa por implicar a racionalização dos processos — no caso de grupos com várias companhias, em que cada uma trabalhava com uma instituição — e por significar um ganho financeiro. Para os bancos, a vantagem está no acesso a novos clientes, para os quais ofertarão uma série de produtos além das contas correntes, como crédito, seguro e fundos de investimento. No ano passado, os bancos passaram a disputar com avidez as contas dos funcionários públicos. A maior concorrência foi realizada pela Prefeitura de São Paulo, em outubro de 2005, quando o Itaú pagou R$ 510 milhões para ter o direito de explorar, por cinco anos, a folha de salários dos 210 mil servidores municipais e pagou mais R$ 1,5 milhão para administrar o caixa do município. Já o Bradesco arrematou o direito de pagar os fornecedores da cidade. Outra importante licitação foi feita em julho deste ano pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O vencedor Santander Banespa pagou R$ 336 milhões para assumir a folha de pagamento de 127 mil servidores. Até então, o pagamento do funcionalismo público da administração direta era realizado por meio de 12 instituições distintas, sendo que praticamente metade das operações era coordenada pelo Itaú. Participaram do leilão, além do Santander, os bancos Bradesco, ABN Amro Real e o próprio Itaú.
Filão importante O que levou os bancos a despertarem, de repente, para esse importante filão foi a necessidade de ampliar os negócios, especialmente o crédito, devido ao cenário de queda das taxas de juros, que reduz os ganhos com títulos públicos. Os funcionários públicos, que têm estabilidade e salários mais robustos, foram os primeiros a atrair os bancos. Agora, os empregados de empresas privadas também atraem, com vigor, o interesse do setor. Os valores envolvidos na área privada são menores, mas alcançam dezenas de milhões, segundo fontes. A Arcelor Brasil confirmou que houve um pagamento por parte do Santander Banespa para assumir a folha de salário dos empregados, mas não revelou o valor. De acordo com a companhia, a contratação de um único banco como parceiro nessa atividade faz parte do Projeto Sinergias, que visa a redução de custos com a integração das diversas empresas do grupo (CST, Belgo, Vega do Sul, além da Acesita, controlada diretamente pela Arcelor européia). Participaram da concorrência Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Unibanco, ABN Amro Real e Santander. Segundo fontes, os bancos mais agressivos nessas concorrências têm sido os estrangeiros ABN Amro Real, Santander Banespa e HSBC. Uma das explicações é o apetite geralmente mais limitado das instituições estrangeiras para novos investimentos no País. O executivo sênior de Postos de Atendimento Bancário do HSBC, Renato Tundisi, confirmou que o banco vem disputando com interesse a gestão das folhas de pagamento corporativas. “Esses contratos aumentam o relacionamento com a empresa e permitem a venda de produtos diversos aos funcionários por um período de alguns anos”, disse. Segundo ele, não existe um modelo único de negociação com as companhias. O HSBC está presente em 955 empresas de todos os portes, sendo 150 conquistadas apenas neste ano. Entre as que o banco ganhou em 2006 estão Sadia, Grupo Amil e Boticário. De acordo com o executivo, a instituição pretende utilizar essa base de clientes para vender, por exemplo, financiamento imobiliário e crédito consignado, dois produtos em expansão. O HSBC também busca ampliar o volume de recursos administrados, oferecendo fundo de renda fixa com características diferentes dos demais, como ausência de limite mínimo de aplicação e taxa de administração de 2,5%. (Da Agência Estado)
SAIBA MAIS - Transferência em estudo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, anteontem, que o trabalhador vai poder transferir dinheiro da conta de onde recebe seu salário para outra, em banco de sua escolha, sem pagar CPMF ou tarifas bancárias. “Estamos dando ao trabalhador o direito de escolher o banco com que quer trabalhar. Ele vai poder fazer isso sem pagar CPMF e sem pagar tarifas”, afirmou em entrevista exclusiva à Radiobrás. A decisão do governo faz parte de um conjunto de medidas que serão anunciadas nos próximos dias com o objetivo de promover a competitividade entre os bancos e, com isso, reduzir os juros. “Muitas vezes as empresas negociam a folha de pagamento com o banco e têm alguma vantagem em troca. E aí fica o compromisso de que essa conta não pode sair de lá. Cria-se uma dificuldade, principalmente com tarifa elevada”, comentou Mantega. “Queremos que os bancos corram atrás do cliente e não que o cliente fique pedindo favores aos bancos”, salientou o ministro.
Categoria: Administração, Cultura
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