Genoma e desemprego
Lázaro Augusto Brandão
A virada do milênio foi marcada por avanços tecnológicos nunca antes vistos nas áreas biológicas. Desde a clonagem da ovelha Dolly, em geral, a comunidade médica e o mundo observaram apreensivos os passos da engenharia genética e biomolecular quando, em julho de 2000, o presidente Bill Clinton anunciou o fim da etapa de mapeamento do DNA humano.
Apesar da etapa de seqüenciamento do genoma (uma espécie de tradução do idioma “genética”) estar apenas em seu início, tendo menos de 10% do total realizado, o mapeamento já foi um marco. Com ele, toda a medicina atual seria revolucionada: a prevenção, o tratamento e a identificação antecipada de doenças hereditárias que poderiam ocorrer em 1 ou 40 anos. No entanto, é aí que está o problema.
A virada do milênio foi marcada também pela situação delicada na qual se encontra o trabalhador contemporâneo. O desemprego é uma mazela social comum em todo o mundo capitalista, sendo crescente e ,cada vez mais cruel, para com os “dependentes do capital”. Uma corrida desenfreada em busca de requisitos que os insiram no mercado de trabalho remunerado inicia-se e a qualificação toma papel central nesse cenário. Graduações, cursos, palestras, contatos… tudo é válido na busca por um diferencial frente ao “exército de reserva” referido por Marx, instilando na sociedade - uma verdadeira guerra pela garantia do sustento.
E isso só tende a aumentar. Como que saído de uma seqüência da memorável obra de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo”, as ciências que estudam a essência biológica do homem mostram indícios de que intervirão na relação desse com a sua coletividade: além de ter que vencer os seus competidores sociais, terá que superar também a sua própria biologia.
A comunidade médica almeja a chegada do momento que identificar doenças congênitas com certa facilidade, torne-se algo rotineiro em seu meio. Seria algo como um exame de sangue, já que a partir de qualquer tecido pode-se obter o DNA do paciente, presente no núcleo de cada célula. Cada pessoa seria rapidamente diagnosticada e procuraria o tratamento específico para seu mal.
No entanto, do ponto de vista empresarial, político e social, o ponto crítico do Projeto Genoma como fator social coincide com o momento crítico dos desempregados: os processos seletivos para emprego. Seleções envolvem preocupações de ambos os lados, tanto do empregador que estará apostando em determinado indivíduo para que esse, ao contrário dos eliminados, atenda de maneira mais eficiente e eficaz aos anseios da empresa, quanto do empregado que busca uma oportunidade. No novo contexto propiciado pela Engenharia Genética, as empresas poderiam reduzir os riscos de uma futura “dor de cabeça” com o recém-contratado simplesmente requisitando dos candidatos à vaga um “atestado de sanidade genética”, atestando que motivos biológicos não atrapalhariam a dedicação desse ao novo cargo. Seria contratado, então, aquele que estivesse em melhores condições biológicas.
O que seria, também, do funcionário já contratado e com possibilidades de sucesso na empresa que, após realizar o exame, recebesse o diagnóstico de uma doença terminal com certa probabilidade de se manifestar? A empresa, em seu papel de “mãe”, iria continuar a contratar os serviços desse empregado ou simplesmente assinar sua demissão e procurar um novo “talento”? Parece um filme de terror, uma vez que não está sob o controle dos homens ser ou não portador de uma doença congênita. No entanto, existe a possibilidade dela ocorrer. Além de que, o tratamento vem sempre depois e é mais oneroso do que simplesmente diagnosticar o mal.
O que fazer então? Pedir aos deuses uma saúde perfeita não é a única solução. Investir em qualificação é primordial. No entanto, para não se prender a redundâncias, cabe ao mesmo departamento de Recursos Humanos, responsável pela seleção, ser mais criterioso e avaliar o indivíduo pelo que ele é realmente e como ele aplica sua qualificação. Cabe perceber qual o impacto real do “novo empregado” e levar isso em consideração, antes de eliminá-lo por probabilidades que podem não se confirmar.
Uma vez que a iniciativa privada fornece incentivo às pesquisas, ela possui direito de colher os frutos de seu investimento. Utilizar o resultado delas à sua maneira é permitido. No entanto, à medida que o desemprego é um mal que afeta toda a estrutura social de um país, cabe às autoridades governamentais, através de modificações nas leis trabalhistas e uma ação mais concisa da CLT, limitar até que ponto os resultados destas pesquisas podem ser utilizados e que rumo devem seguir. Esse cruzamento entre genética e empregabilidade levanta questões múltiplas que envolvem desde questões políticas, econômicas e sociais até aquelas de natureza ética e de responsabilidade social. Visto por esse ângulo, o slogan do Projeto Genoma, “Conhece-te a ti mesmo”, inspirado em Sócrates, poderia muito bem ser lido como “Conhece-te a ti mesmo… e ao outro também”.
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Categoria: Administração, Cultura, Recursos Humanos
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