A integração gerencial e a paz corporativa
Floriano Serra
É relativamente comum encontrarmos no universo corporativo dois extremos comportamentais quanto à execução de tarefas: aquele dos praticantes da “Teoria do Noé” (isso “noé” comigo…) e os seus opostos, os chamados “Invasores”.
Os primeiros, fogem de tarefas e das responsabilidades, transferindo-as para outros colegas, outras áreas e outros departamentos. Com muita freqüência, para que eles assumam uma ação como sendo de sua alçada, é preciso que o superior hierárquico determine: faça!
Já os segundos, pecam pela disposição de abraçar o mundo corporativo com as mãos - ou com o cargo.
Nem um nem outro necessariamente são mal intencionados: os “noelistas” podem não tomar iniciativas por apatia ou por medo. Ou até por um rígido apego à descrição do cargo: “onde está escrito que isso compete a mim?”. E assim perdem a flexibilidade e a polivalencia [polivalência] de ação, perdem a chance de aprender e fazer coisas novas.
Do lado oposto, os “invasores” podem ser levados por um distorcido entendimento daquela máxima administrativa de que, onde houver um espaço organizacional, você deve preenchê-lo, independente de quem seja seu “dono”. Sempre achei isso mais para Maquiavel do que para as boas maneiras em Administração de Empresas. Além de caracterizar uma postura ambiciosa, peca pelo desrespeito ao colega dono do terreno. Ou pode simplesmente ser fruto de uma característica comportamental aprendida - e aqui o problema será pessoal, ou mesmo de uma insuficiente definição de atribuições e responsabilidades - e aqui o problema será organizacional.
Como essas diferentes e antagônicas posturas afetam a integração corporativa, sobretudo entre os gestores?
Os seguidores da “Teoria de Noé” incomodam por sobrecarregar os demais colegas. Já que eles não fazem, alguém precisa fazer. A bem da verdade, nem todos se sentem incomodados com isso: alguns gestores mais afoitos e ousados até tiram proveito daquela apatia e vão “invadindo”, aumentando sua área de atuação - e, para muitos, ganhando mais “poder”.
Já os “invasores” incomodam mais, porque têm o efeito de despertar e alimentar disputas de poder: “Ei, o que você tem a ver com esse assunto? Isso é problema da minha área!”. E aí vêm as acusações, as defesas e as justificativas.
Neste artigo, não vou me deter nos seguidores da “Teoria de Noé”, até porque, salvo exceções, a médio prazo eles tendem a desaparecer do mapa corporativo, se tiverem o azar de aterrissar numa empresa que aprecia a iniciativa, a proatividade, o dinamismo. Eles serão naturalmente expurgados por aqueles que têm pressa. Por aqueles que sabem que empresa vencedora não é necessariamente aquela que faz mais, mas sim aquela que faz primeiro.
O problema é que os “invasores”, mesmo que não intencionalmente, podem gerar guerra de territórios - o que pode transformar-se em guerra de poder, se não houver diálogo de esclarecimento entre as partes. Então, o que fazer?
Nem sempre é possível a uma empresa estabelecer uma clara e rigorosa delimitação de áreas, sobretudo nos dias de hoje em que, em função das estruturas cada vez mais “enxutas” e otimizadas, espera-se dos profissionais uma polivalência de habilidades e competências.
E, convenhamos, às vezes, nem é recomendável essa delimitação de ação tão rígida assim. Isso pode “engessar” a atuação de bons e versáteis profissionais e, o que é pior, pode ser justamente a responsável pela disseminação e estimulação dos seguidores da “Teoria de Noé”, tipo “Eu até saberia o que fazer, mas isso não é problema meu. Não quero me meter pra não arrumar confusão”. Cabe perguntar: isso seria “noelismo” ou pacifismo?
Como em tudo na vida, acredito que a recomendação para administrar eventuais indefinições de limites de ação, está no uso do famoso bom senso para avaliação de cada situação:
* Em que RH tem a ver com Vendas?
* Em que Marketing tem a ver com Finanças?
* Em que Produção tem a ver com Propaganda?
* Em que Comunicação tem a ver com Segurança?
e assim por diante.
Aliás, acaba de me ocorrer que isto aqui pode ser um ótimo exercício para encontros de integração entre gestores: façamos 2 colunas e em cada uma delas escrevamos na vertical o nome de cada diretoria ou gerência da empresa. Depois, numa pacífica e animada discussão em grupo, tentemos estabelecer as possibilidades de ações conjuntas e, posteriormente, definir aquelas ações que são específicas ou exclusivas de determinadas áreas.
Acredito que um exercício desses não só poderá ajudar a definir as delimitações de terreno (por exemplo: folha de pagamento compete ao RH) como, por outro lado, poderá identificar oportunidades de ações conjuntas (por exemplo: criação de uma política de cargos e salários = RH + Finanças), aumentando, assim, a integração gerencial e interdepartamental.
Concluindo: numa empresa, todos estão no mesmo barco - e sei muito bem que esta frase nada tem de original. Mas é útil para ilustrar o recado de que cada um é responsável por um remo. Se alguém abandonar o seu, afetará a velocidade e o rumo da nau. Se perceber que o companheiro ao lado está remando errado, pode e até deve dar-lhe instruções verbais, mas não poderá abandonar seu posto para fazer o que compete ao outro.
O melhor mesmo é que, a exemplo de uma cena de um filme antigo - creio que “Ulisses” ou “Helena de Tróia” - todos remem no mesmo ritmo, com a mesma força, com o mesmo entusiasmo e, o que seria ideal, cantando bem humoradamente!
Categoria: Liderança, Recursos Humanos
Enviar por email
Imprimir este Post
