A superação através do novo
Sérgio Compagnoli
No deserto informativo que é a televisão, vez ou outra algo nos surpreende. Há algum tempo, no canal GNT, foi apresentado um episódio de uma série chamada “Faking it!”, algo como falsificando. Eles convidam uma pessoa que nada conhece sobre determinado assunto (preferencialmente algo que oferece brilho e notoriedade a quem faz) e a desafiam a tentar passar-se por um especialista no assunto. Um episódio demonstrou algo muito interessante sobre como as pessoas podem transformar suas perspectivas pessoais e o papel que os mentores têm nesse processo. Vou relatar o caso porque ele diz muito sobre liderança e preparação de líderes.
Lucy, uma inglesa de vinte e cinco anos, trabalhava limpando banheiros num ferry-boat. Ficou assustada com o convite que lhe fizeram: passar-se por comandante de um veleiro em uma competição oficial. Em seu depoimento inicial, ela dizia ser incapaz de fazer qualquer coisa que exigisse assumir responsabilidades e a ter que dar ordens aos outros. Sentia-se insegura e não tinha confiança em si mesma. Concluiu que limpar banheiros era o que podia fazer, ainda que não gostasse disso.
Apesar de não acreditar que pudesse passar-se por comandante de veleiro, aceitou o desafio. Durante quatro semanas, viveria em meio aos profissionais do esporte e seria treinada por eles. Seus mentores eram pessoas consagradas e premiadas em várias competições ao redor do mundo.
No primeiro dia foi apresentada às pessoas que seriam seus mentores nessa “aventura” e moraria durante o treinamento com um deles, uma jovem campeã de vela. Foi-lhe avisado que seria um trabalho duro e que ela teria que se esforçar muito para conseguir dominar conceitos e desenvolver habilidades para navegar. Os mentores foram entrevistados após conhecerem Lucy e todos eles afirmaram não acreditar que ela fosse capaz de realizar a tarefa. Acharam-na sem a segurança necessária para a empreitada, mas que fariam todo o necessário para ajudá-la.
No dia seguinte, começou o treinamento. Lucy teve que ler alguns textos com informações gerais e fez seu primeiro passeio num pequeno veleiro acompanhada por sua instrutora. Ela não conseguia manter-se à tona, emborcava a embarcação a todo o momento. Sentiu-se arrasada. Afirmou que não conseguiria. Sua auto-estima estava reduzida a zero. Nos dias que se seguiram, ela sofreu muito, mas conseguiu dominar a pequena embarcação. O passo seguinte era o grande veleiro. Ali ela teria que comandar umas doze pessoas. Iniciou-se outro drama para Lucy.
Havia muito com o que se preocupar: posição do vento, manobras na hora exata, levantar e baixar velas com precisão, enfim, um número de técnicas que somente a experiência e o tempo trazem. Para aprendê-las, Lucy tinha o mentor ao seu lado dando-lhe informações e dicas de como “sentir” as coisas, principalmente o rumo que o vento tomava. Ao fim do primeiro exercício, em que ela tentou comandar as pessoas, o mentor fez uma avaliação de seu desempenho e notou que ela não sabia usar a voz para comandar. Suas ordens soavam como sugestões inseguras e isso se refletia na equipe que não cumpria com determinação o que ela pedia.
Chamaram então, um professor de teatro para ensiná-la a usar a voz. Após alguns dias de treinos no mar e com o professor de teatro, havia melhorado muito sua postura de comando. Programaram um grande teste: ela comandaria a embarcação numa travessia do Canal da Mancha. Ela ficou apavorada, agora seria para valer, estaria em mar aberto com uma tripulação inteira sob sua responsabilidade. Para auxiliá-la neste teste, seus mentores estariam a seu lado corrigindo seus erros e indicando as melhores soluções.
Ela fez a travessia, mas não teria conseguido sem os mentores. Cometeu muitos erros e comandou mal a equipe. Faltaram-lhe segurança, energia e determinação no exercício do comando. Todos estavam pessimistas quanto às possibilidades de Lucy, inclusive ela mesma. Restavam ainda uma semana e meia e havia muito que ser trabalhado. Ela agora sentia que não havia como voltar, que só lhe restava redobrar esforços, estudando mais e se aplicando nos testes em mar.
Seus mentores estiveram próximos dela todo o tempo, dando-lhe apoio em momentos difíceis e estimulando-a a persistir. A essa altura, ela era uma pessoa bem diferente de quando chegara três semanas antes. Sentia que, embora fosse difícil, ela poderia conseguir atingir o objetivo proposto e, se não conseguisse, isso apenas significava que necessitava de mais tempo e dedicação. Lucy havia domado seu temor e resgatado boa parte de sua auto-estima.
Chegou o dia da competição. Agora ela comandaria o veleiro e uma equipe de doze pessoas sozinha. Seus mentores não estariam com ela. Na embarcação, sem que ela soubesse, havia um comandante experimentado para o caso dela não resistir à pressão e evitar conseqüências que afetassem a segurança de todos. Se ele tivesse que intervir, a equipe seria desclassificada da competição e Lucy não atingiria o objetivo a que se propusera.
No momento exato, as cinco embarcações da competição deram a partida. A prova deveria durar algo como duas horas. Mas, segundo os especialistas, após dez minutos é de se antever quem será bem-sucedido. Com dez minutos de prova, Lucy comandava bem, mas estava em último lugar. Tudo levava crer que ela chegaria ao final, mas em último. Se chegasse, uma parte o objetivo teria sido cumprida.
Porém, num determinado momento, Lucy tomou uma decisão inusitada. Ordenou firmemente para que mudassem o curso e a posição das velas. Seus mentores, que assistiam pela TV, avaliaram que ela tomara uma decisão precipitada que nada mudaria as coisas. Mas mal terminada a manobra, o vento mudou e arrastou o veleiro de Lucy em direção à rota da linha de chegada. Demorou alguns segundos para que os demais barcos percebessem a manobra de Lucy e sua posição no mar. Agora ela arrancava em direção à chegada e estava em primeiro lugar.
Os outros seguiram sua manobra e tentaram alcançá-la. Um deles quase conseguiu, mas Lucy chegou em primeiro lugar. Vencera sua primeira regata. Mas seus desafios não haviam terminado. Agora ela seria entrevistada pelos três juízes da prova. Seu mentor havia “montado” uma história que ela decorara, para convencer os juízes de que era uma profissional de vela experiente. Porém, no decorrer da entrevista, surgiram algumas perguntas que ela teve que simular respostas e não foi tão bem nisso, não estava preparada para elas.
Terminadas as entrevistas com os comandantes de todas as embarcações, os juízes foram informados que havia entre eles um que era limpador de banheiros de ferry-boat que até um mês antes jamais estivera dentro de um veleiro. Quem seria? Apenas um apontou Lucy, e não pelo seu desempenho, mas pela inexatidão de algumas respostas mais técnicas durante a entrevista final.
Lucy venceu a prova e o desafio, mas isso não é o mais importante. O mais importante foi ela perceber que poderia obter aquilo que quisesse. Para isso, precisaria de mentores que lhe indicassem como e determinação pessoal em chegar lá. Na entrevista final Lucy conclui que se ela foi capaz de comandar um veleiro com doze pessoas sob sua responsabilidade, certamente poderia almejar algo mais do que limpar banheiros. Sua a vida depois daquela experiência, não seria mais a mesma.
Essa é uma história de superação. Superação é característica dos humanos, assim como trabalhar com determinação para chegar a um objetivo previamente planejado. Em Gestão de Pessoas falamos muito em mentores e em coaching, meu temor é que nos prendamos mais às técnicas do que aos gestos. O caso de Lucy demonstra que é possível desenvolver potencialidades onde ninguém as vê. Nada contra limpar banheiros, isso é uma atividade meritória como velejar, mas as pessoas podem ir além, nem sempre poderão fazer isso sozinhas, não raro precisarão de suporte profissional para isso. E não só suporte técnico, mas suporte humano, onde compreensão e afeto são fundamentais.
Há muitas Lucys em nossas organizações. A pergunta é: estamos dispostos e comprometidos a convidá-las a superar seus limites? Se a resposta for sim, os ganhos serão imensos e compartilhados, tanto para as pessoas como para as organizações.
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