Humildade
Governar é uma função pública; prepara-se a gente para ela desembaraçando-se do egoísmo estreito, das preocupações interesseiras em demasia e da arrogância que as acompanha muitas vezes.
Evitemos sobretudo falar frequentemente de nós próprios e de dar-nos como exemplo. Impressiona desagradavelmente ver que um homem se cita a si próprio a respeito de tudo e de nada. O exemplo, com efeito, não tem eficácia se não se impõe naturalmente à intenção e ao respeito dos subordinados; seria grave erro psicológico pensar que se pode aumentar o efeito útil com afirmações gratuitas ou distribuindo cumprimentos; porque o espírito de contradição despertaria em vossos colaboradores e viria secretamente destruir o resultado que julgais ter produzido (Courau).
Um chefe deve ser grande por nascimento ou fazer-se; mas não se é grande senão na medida em que se trabalha desinteressadamente. Como afirma Lacordaire, “tudo o que se fez grande no mundo foi feito sob o signo do dever: tudo o que se fez de miserável foi feito em nome do interesse”.
A missão do chefe é-lhe confiada essencialmente para o bem comum; nem o capricho, nem o interesse, nem o orgulho devem ditar ao chefe as suas decisões.
O homem carece de apoiar-se em alguma coisa que o supere. Procura um ser superior que o guie e com o qual possa contar, porque poucos homens sofrem a ideia de viver isolados. Portanto, o súbdito terá facilmente a tendência de atribuir ao seu chefe qualidades sobre-humanas. Tanto mais facilmente será levado a isso quanto é certo este último ser tentado a favorecer tal tendência que agrada ao seu amor-próprio, porque gosta de “desempenhar um papel”, de marcar a sua “superioridade”. Mas é um jogo perigoso este, porque, cercando-se de aduladores, que não vêem senão seus interesses, priva-se do auxílio que fornece a crítica sã de pessoas que podem ver as coisas sob outro aspecto; perde assim o contacto com o meio em que vive. Daqui em diante deixa de dirigir com conhecimento de causa.
Sejam quais forem as qualidades, o chefe não é um super-homem e cedo ou tarde o subordinado se dá conta de que tinha demasiada estima por seu superior; se este é modesto, o inferior não se lastimará senão consigo próprio do seu erro de óptica e em nada modificará a intensidade da sua dedicação. Se, pelo contrário, presume ter sido enganado por promessas que não foram mantidas, verifica-se nele uma reacção violenta que pode ir até ao desprezo pelo chefe.
Um chefe não ilude por muito tempo aqueles que dirige. Após algumas tentativas, descobrem-no. Com ser humilde consigo mesmo, o chefe torna-se mais forte perante os outros; verdadeiro consigo próprio, pode exigir dos outros que sejam verdadeiros diante dele. Há uma maneira de dizer a um homem, olhando-o, sem dureza, nos olhos: “não me conte isso a mim”, que perde toda a importância. Um chefe não ilude por muito tempo aqueles que dirige. Após algumas tentativas, descobrem-no. Com ser humilde consigo mesmo, o chefe torna-se mais forte perante os outros; verdadeiro consigo próprio, pode exigir dos outros que sejam verdadeiros diante dele. Há uma maneira de dizer a um homem, olhando-o, sem dureza, nos olhos: “não me conte isso a mim”, que perde toda a importância. Depressa se reconhecem os chefes que não se deixam “levar pelo canto da sereia”. A esses ousam confessar suas fraquezas não para as evitar, não para as glorificar, mas para perguntar, como ao médico: “como poderia eu curá-las?”. (Jean-Jacques Chevalier)
O verdadeiro chefe nunca fala de si; nunca diz “eu”. Inclui-se na colectividade e imagina “nós”. Enquanto o “eu” fica na sua preocupação central, constitui-se a si próprio em objectivo final da sua acção e explora mais ou menos conscienciosamente os outros em seu proveito. Não compreende a sua missão senão a partir do momento em que se desprendeu de si próprio para se dar sem reservas ao interesse geral.
Não brinqueis nunca ao profeta vitorioso ou desconhecido: “Eu bem dizia… já o tinha previsto… uma vez mais tive razão… o que se passou tinha-o eu anunciado…”, porque, se efectivamente havíeis previsto o que aconteceu, de duas uma: ou tomáveis as medidas que o assunto exigia e, nesse caso, não há razão para cantar vitória, ou não foram tomadas as medidas necessárias e, então, há todo o interesse em guardar silêncio, porque, jogando ao profeta desconhecido, tornais-vos ridículo ou odioso para todos os colaboradores.
O sinal mais seguro da fecundidade dum chefe é ver que trabalha com os olhos no seu sucessor, conhecido ou desconhecido, porque é a prova de que coloca a duração da obra para além de si próprio.
Um homem não é senão um homem, e deve lembrar-se disso a cada momento. Aquele que não entra em si mesmo, e não se remete constantemente ao seu lugar em face de Deus, cairá fatalmente no orgulho; seus esforços ficarão estéreis porque nem. tudo pode abarcar com a sua inteligência sempre limitada e porque o orgulhoso perdeu a preciosa faculdade de escutar.
A virtude principal dum chefe, e talvez a mais rara, é a humildade. Se os nossos chefes não estão disso profundamente convencidos, se não sabem captar as lições autênticas que lhes vêm dos homens e das coisas, se persistem nas suas opiniões a ponto de não querer escutar ninguém, depressa ficarão vazios e ultrapassados. (De La Porte du Theil)
O homem que reconhece lealmente que se enganou, ou mais simplesmente que não sabe tudo, prestigia-se de modo singular. E por acréscimo, conquista, conquistando-se assim a si próprio, uma magnífica independência. Só nisso está a verdadeira liberdade: Ser escravo dum homem é duro, mas ser escravo de si próprio é pior ainda. (De La Porte du Theil)
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Categoria: Liderança
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