O MBA, o Procon e a criação de gado
Sérgio Compagnoli
Tenho uma percepção que pode ser entendida por muitos como anacrônica ou então, que eu “remo contra a maré”. Se bem que, essa última postura desperta minha simpatia e apreço, por razões que não vêm ao caso, agora.
Seja como for, entendo que o MBA é uma espécie de “desdobramento de produto”; algo como vender mais do mesmo; pior, vender algo que deveria ter sido entregue antes.
Numa comparação pobre, mas que ilustra um pouco a coisa, pode-se comparar isso à estratégia de algumas editoras para publicar uma revista nova. Primeiro, elas incluem a temática em seu veículo principal (espécie de âncora ou plataforma de lançamento). Posteriormente, vão acrescendo o suplemento de forma que ele seja bem lido. Depois de um tempo, avisam que ele adquiriu tanta importância que reclama vida própria. O passo seguinte é lançá-lo; não sem antes recheá-lo de material inócuo e muitos anúncios. Se você pegar uma dessas publicações e remover o supérfluo, sobrará exatamente o que ela era: um suplemento. Mas o fato é que é vendido como produto uno. Algo parecido com o MBA, digamos assim.
Dito de forma mais clara, as propostas dos MBA abrangem conteúdos que deveriam ter sido tratados na graduação. Assim, o MBA pretende suplementar um processo de formação que foi e é deficiente. Depois, com o correr do tempo e com a agregação de um “discreto charme” ao produto, pode-se vendê-lo pelos “olhos da cara” aos menos avisados e incautos de plantão. Prova disso, é que qualquer faculdadezinha tem seu MBA no menu de produtos.
Ocorre que educação vista como um produto, requer que se ganhe dinheiro com ela; o que é absolutamente lícito. Logo, nada errado em que se ganhe dinheiro; afinal pensamos ser capitalistas. O único senão a ser ponderado é o da propaganda enganosa; coisa que caberia ao Procon coibir com energia.
Nada tenho contra o MBA, só que devia estar claro (para quem faz) que ele suplementa uma formação deficitária e não é, em absoluto, um aprendizado metafísico exclusivo de iniciados. Há muita gente bem formada (de verdade) e sem MBA, que ressonaria espetacularmente num curso desses; são profissionais que entenderam que formação se obtém pelo comprometimento pessoal com o que se faz.
Um muito competente consultor, disse-me certa ocasião o seguinte: “Após alguns anos de formado, pouco importa o que você cursou. O que valerá mesmo será sua ação profissional, seu interesse multidisciplinar, o que você pesquisou, como realizou, como se dedicou àquilo que se determinou fazer”.
Dito de outra forma, de pouco adianta você cursar duas ou três universidades se isso não for fruto de seu processo de evolução pessoal e não agregar valor aos seus conceitos. Somar títulos e registros em órgãos cartoriais (os Conselhos Regionais da Vida), não garante sua efetividade profissional e pode tornar-se mais uma propaganda enganosa.
Mais importante que discutir isso tudo é tratar da questão do conteúdo da formação na graduação. Mais ainda, tratar do currículo do nível médio, que é o momento em que se deveria centrar a formação no processo de preparação para a vida e, de resto, para o curso superior.
Na verdade, ao discutir o MBA, temos uma oportunidade única de exercer crítica sobre o sistema educacional como um todo. No passado, não tão distante, tínhamos (e ainda temos), a Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado. Nas melhores instituições, suficientes para especializar profissionais. Aliás, MBA é Mestre em Administração e Negócios; em terras tupiniquins adquiriu a mística de uma panacéia esotérica capaz de transmutar ouro em chumbo, para desespero dos alquimistas. Esse negócio de adotar siglas e standards ingleses não só presta um desserviço à língua pátria como contribui para embotar mentes juvenis.
Mas é o mercado. Eu sei que remar contra a maré comporta um preço que nem todos querem pagar e a maioria sequer pensa nisso. A única coisa que recomendo é que se analise isso tudo de forma crítica e não pelo vistoso rótulo com que o produto é apresentado.
Grandes soluções empresariais são encontradas por gente anônima, pálidas representações nos organogramas oficiais. Gente que no informalismo institucional produz “Muito Bons Achados”. Este talvez, o MBA a ser estudado e fomentado.
Engana-se quem imaginar que defendo uma cruzada contra MBAs; ao contrário, estimulo e apóio toda e qualquer forma de educação continuada. Só que atribuir a isso o papel de única solução para nossas necessidades organizacionais parece-me um pouco demais.
Grandes corporações mundiais, e mesmo algumas nações, são levadas à bancarrota por pessoas com alguns MBAs na bagagem. Verdade também, que se obtém sucesso nos mesmos conjuntos sócio-econômicos sem que haja doutores no comando, seus motores são a dedicação e o trato simples dos fatores econômicos.
Há alguns anos, 25 mais ou menos, a revista Exame trouxe matéria sobre Tião Maia. Para quem não conhece, esse empresário pecuarista, imigrou para a Austrália e se tornou o maior pecuarista daquele país. Foi tão empreendedor nisso que o governo australiano proibiu que ele comprasse mais terras. A alegação: estava desmontando a reforma agrária que tinha sido efetuada a duras penas no país. Foi ele quem introduziu o helicóptero como condutor de rebanhos. Tião não falava inglês (tinha um interprete de sua confiança), não tinha MBA mas sabia tudo de criação de gado. Deixou o Brasil porque não via o país como capitalista o suficiente para seus sonhos.
Um belo dia alguém sugeriu a ele que contratasse um economista para orientar seus negócios. Sua resposta foi emblemática: “Não preciso de economista! Se eu gasto menos do que ganho, não tenho problemas com dinheiro e então não preciso de economista; se gasto mais dinheiro do que ganho, não haverá economista que dê jeito”. Apesar da simplicidade folclórica da afirmação, pode-se ver que a equação é resolvida assim mesmo, com um simples e “Muito Bom Achado”.
Categoria: Administração
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