Política, o segredo para quem quer “subir na vida”
Não basta a competência. Para ter sucesso como principal executivo de uma empresa é preciso saber fazer política. Ou, em bom Português, ter habilidade para conduzir as relações de poder ou, ainda, saber lidar com as pessoas. O poder é essencial para a colocação em prática de qualquer projeto. Logo, ser político significa entendê-lo e dominá-lo. “Todos querem autonomia e liberdade. Mas consegue isso apenas quem tem poder”, declarou à revista “Exame” o professor Carlos Melo, do Ibmec São Paulo. Em síntese: para se chegar ao topo das empresas é preciso fazer política, mas com pê maiúsculo e não conchavos e compra de votos como está se vendo no cenário partidário atual.E não há nada de errado nisso. Afinal, a habilidade política confere ao seu portador a capacidade de se relacionar, de negociar, de se expressar bem em situações diversas, de articular grupos em torno de idéias, de mediar conflitos e de liderar equipes. Qual a empresa que em tempos de mudanças constantes no ambiente de negócios - cada vez mais dinâmico e competitivo - pode dar-se ao luxo de impedir que os profissionais interajam entre si para a tomada de decisões? Certamente, nenhuma. Essa realidade faz com que as empresas adotem modelos de gestão mais abertos, fragilizando as barreiras entre os departamentos e os níveis hierárquicos. Veja o caso de Beatriz Galloni, vice-presidente de Marketing da Mastercard, operadora de cartões de crédito, citado pela revista. Para levar adiante um projeto, ela precisa negociar com a área de finanças, com a de produtos, com um chefe na Venezuela e outro em Nova Iorque, além do presidente da empresa no Brasil. De acordo com Adriano Lima, vice-presidente de Recursos Humanos da empresa, a escolha de Beatriz para o cargo não foi apenas por ser uma especialista em Marketing, mas por ter a habilidade de lidar com outras áreas. “Ser bom tecnicamente só põe alguém no jogo. É a política que faz ganhar”, declarou.Ter talento político não é fundamental somente para o currículo do executivo, como também para a sobrevivência da empresa. Ao assumir o comando da Ford brasileira, em 1999, o paranaense Antônio Maciel Neto, encontrou uma empresa que acumulava cinco anos de prejuízos - cerca de US$ 2 bilhões. A imagem da companhia era péssima, a ponto de ser vista pela matriz norte-americana como uma “maçã podre”. Para reverter a imagem, Maciel foi garoto propaganda da marca na televisão, parou para ouvir as reclamações de revendedores e de funcionários e lutou para que novos modelos fossem lançados. Resultado: no ano passado, a empresa conseguiu sair de um período de dez anos operando “no vermelho”. A participação no mercado que era de 9,7%, quando Maciel assumiu, passou para 13,4% em agosto deste ano. Essas conquistas, de acordo com um executivo que participou do início da gestão de Maciel, deve-se ao fato de que ele ao falar claramente sobre os problemas, conseguiu trazer as pessoas para o seu lado, sem ter de brigar muito.
Conservadores e arrojados
Como em partidos políticos, nas empresas há grupos de todas as naturezas. Os que querem ganhar espaço, os que pretendem crescer, os que defendem a empresa e os que querem ver o “circo pegar fogo”. Todos querem fazer valer suas idéias e muitas disputas chegam a ser “clássicas”. Nas companhias aéreas, por exemplo, os pilotos, que querem voar menos, disputam com a equipe de vendas, que querem fazê-los voar mais; Numa montadora, os engenheiros, que querem carros melhores, confrontam-se com o departamento de finanças, que quer carros mais rentáveis. Isso, conforme declarou Antônio Britto, presidente da Azaléia, maior fabricante de calçados do País, revela que “nas empresas, assim como na política, você se transforma em um projeto”. Daí ser importante saber de que lado está cada grupo na hora de vender ou de propor um projeto.
Mapear o poder nas organizações é uma tarefa difícil. Mas nada se compara quando ocorre uma fusão ou aquisição. Tanto os executivos da empresa compradora como os da vendida precisam saber quem é que manda, quem são os grupos mais fortes e a quem se aliar. De acordo com Betania Tanure, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, o executivo precisa saber quem vai se sentir incomodado e quais os interesses serão feridos. Para ela, a elaboração do mapa do poder antes da apresentação da proposta de fusão ou aquisição pode representar a diferença entre o sucesso e o fracasso da operação.
Uma arte que exige reflexão e flexibilidade
A diferença entre competência técnica e habilidade política é que a primeira é ensinada nas escolas. Costuma-se rotular a habilidade política como um dom inato, mas especialistas afirmam ser possível aprender a ser político. Trata-se de um exercício que exige reflexão e flexibilidade. Ter a capacidade de ouvir os outros, de entender suas motivações e de perceber a importância da política é fundamental.Ainda de acordo com especialistas, o desempenho técnico ainda é o requisito mais importante para vencer os primeiros níveis gerenciais. No entanto, à medida que o profissional assume cargos executivos mais altos, o eixo da carreira deixa de ser somente técnico e passa a ser a relação com as pessoas, a tal chamada política. Isso explica o porquê quem lidera equipes passa boa parte do tempo administrando egos, ambições, brigando por mais espaço e negociando projetos. Explica, também, porque os profissionais hábeis politicamente são mais promovidos do que os mais técnicos ou do que os que conseguem resultados a qualquer custo.Na opinião do ex-colunista da revista “Exame”, Max Gehringer, essa preferência não é injusta. Para ele, quem é competente tecnicamente, se promovido, permanecerá na nova função por muito tempo e bloqueará a ascensão de novos talentos. “Alguém promovido por sua competência política continuará ascendendo, liberando espaço para que outros subam”, afirmou.
Cresça e apareça
Para quem pretende agir politicamente, sem no entanto ser considerado um “rato corporativo” (ladrão de idéias e projetos, puxa-saco, e puxador de tapete profissional, faz da intriga o seu meio de sobrevivência), recomenda-se descobrir qual é a imagem percebida pelos diversos personagens da empresa. Quanto mais justa, mais fácil o início dessa jornada.Outra recomendação é deixar a introspecção de lado. Sob o risco de parecer ridículo, os feitos devem ser divulgados. Outro risco é o de não parecer ético. “Um bom político sabe aparecer e, também, sabe a hora de sair de campo”, afirmou o consultor Dárcio Crespi.
Por fim, não se deve atribuir à política poderes que ela não tem. Embora a experiência tem mostrado que sempre o melhor político vence, a história revela que executivos hábeis costumam falhar por não dispor de competência técnica.
Como ser político
Aprender a ser político é a chance de crescer na empresa.
Veja o que é preciso saber para “chegar lá”:
Faça Política e não politicagem. Fazer política não torna ninguém um mau-caráter; politicagem é o lado sórdido da política
Descubra quais são os grupos de poder e como interagir com eles
Combata os “ratos” (veja definição no texto acima) por meio da construção de uma rede de relacionamentos
Divulgue seus sucessos e exalte sempre sua equipe
Fale com os “ratos” por e-mail (correio eletrônico), de preferência enviando cópia para alguém
Procure uma transferência se o “rato” for o chefe
Categoria: Administração
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