Qualidade no chão de fábrica

19 de novembro de 2007 às 11:12

Cristine Pires - Agência Sebrae de Notícias

A oportunidade de deslanchar na carreira e disputar melhores cargos dentro da empresa deixou de ser privilégio dos executivos. As empresas estão de olho no potencial dos colaboradores da base, o chamado chão de fábrica.

Agora, cursos de especialização como os de pós-graduação, mestrado, doutorado e MBA dividem os recursos com bolsas de estudos para os ensinos fundamental, médio e técnico. Quem investe garante: o retorno compensa, e muito. Os funcionários passam a ter mais motivação pela perspectiva de promoções e, em conseqüência, melhoram o rendimento. Não é só isso. As atividades são cumpridas de forma mais eficaz, uma vez que os estudos geram o aumento de conhecimento e de capacitação.

Iniciativas como essas têm ajudado a reduzir uma triste realidade do Brasil. De acordo com o Censo Escolar da Educação Básica 2005, 30% dos alunos matriculados no ensino fundamental têm idade diferente da considerada ideal para estar cursando as turmas de 1ª a 8 ª séries, que é de sete a 14 anos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação, destaca que as maiores taxas de distorção estão da 5ª a 8ª séries, com a faixa etária superior à média do ensino fundamental. No ensino médio a estatística é ainda mais grave e supera em 16,3% os números apurados nas séries iniciais. Segundo o Censo, 46,3% dos estudantes estão fora da faixa etária considerada adequada para o ensino médio, que é de 15 a 17 anos.

Mais do que vergonha de voltar à sala de aula com idade acima da média das turmas regulares, o que compromete o retorno à escola é a falta de recursos para bancar os estudos. “Aí está o grande empecilho para que as pessoas se formem”, afirma o professor Cássio Bessa, diretor do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS). A participação da iniciativa privada tem sido fundamental neste processo, diz ele, e ajuda a formar não somente profissionais mais qualificados, mas a formar cidadãos com consciência crítica.

Não é preciso que os investimentos em educação sejam determinados por acordos coletivos de trabalho. “É interessante para as empresas destinar recursos para o desenvolvimento pessoal e profissional dos trabalhadores de forma espontânea pelos benefícios que isto traz”, defende Bessa. Para ele, capacitar os funcionários é condição decisiva no competitivo mundo dos negócios, além de garantir vantagens como redução na rotatividade de pessoal e aumento da produtividade.

O Escritório de Engenharia Joal Teitelbaum comprovou esta teoria. Tudo começou com uma iniciativa que tinha por objetivo mudar os hábitos dos trabalhadores nos horários de intervalo nos canteiros de obra. “Levamos para as construções áreas de lazer com mesas, cadeiras e jogos de damas. Então surgiu a idéia de um centro de leitura, com jornais, livros e revistas”, recorda o presidente da empresa, Joal Teitelbaum. Foi então que veio a descoberta: muitos não freqüentavam o local por não saberem ler.

Daí surgiu a decisão de procurar a parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e de contratar professores na própria empresa. Alunos das mais diversas faixas etárias participaram das aulas e, com a formatura, os centros de leituras passaram a ser muito mais visitados. O projeto, que foi inaugurado no final na década de 1990, segue em vigor até hoje.

RGE comemora resultado do programa Volta às Aulas

Tão logo entrou no mercado, a partir da privatização da CEEE, a RGE notou que teria um problema a resolver. Faltavam profissionais capacitados para desenvolver as atividades na área de energia elétrica no Estado. Dos que permaneceram da estatal, muitos ainda não tinham concluído o ensino fundamental. A saída foi investir em qualificação em todos os níveis, principalmente os básicos. “Não adianta oferecer pós e mestrado se outros funcionários sequer se formaram nas séries iniciais”, acredita o gerente do Departamento de Recursos Humanos da RGE, Gustavo Balbino Dias da Costa.

Em 1998, teve início então o programa Volta às Aulas, uma forma de estimular os empregados a retomar os estudos. A resposta foi imediata. Em pouco tempo, todos estavam formados e, a partir daí, a empresa passou a admitir apenas pessoas com o ensino fundamental completo. Muitos dos que passaram pelo curso foram além, e terminaram o ensino médio ou o ensino técnico. Formaram-se profissionais dentro do que a companhia precisa, como eletricistas e instaladores, por exemplo.

A iniciativa financiava 100% das despesas do estudo. E não parou por aí. Também houve adaptação das instalações para facilitar a vida dos trabalhadores, que ganharam vestiários para poder tomar banho e trocar de roupa antes de ir para a escola. O auxílio também incluía verbas para lanches, material escolar e transporte. “Tudo para que as pessoas realmente tivessem chance de se formar”, resume Costa.

Finalizado o programa, foi a vez de fazer o mesmo em relação ao ensino médio, projeto que também já foi concluído. Atualmente, o que está em vigor é o auxílio para cursos técnicos. São 70 bolsas que repassam 12 parcelas de R$ 155,00 por estudante. Até agora, mais de 400 colaboradores já foram contemplados. O valor é de R$ 259,00 mensais para graduação (com 30 bolsas/ano) e pós-graduação (12 bolsas/ano). Quem já participou do Volta às Aulas sai com três pontos no critério de avaliação de distribuição dos benefícios.

De acordo com Costa, o que acontece é uma troca. A empresa estimula o trabalhador a ter um nível cultural melhor e, em contrapartida, usufrui de todo este conhecimento. Prova de que está dando certo são os processos seletivos internos, que acabam promovendo quem está em busca de especialização. “Para nós é mais vantajoso contar com alguém que já conhece o processo do que buscar alguém de fora”, afirma o gerente.

Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade reconhece esforço dos empreendimentos

O disputado Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade (PGQP), que confere distinções a empresas que apresentam excelência em todos os processos de gestão, valoriza as organizações que investem em educação. “Por ser uma tendência natural dentro dos princípios de sustentabilidade, este é um quesito cada vez mais importante”, destaca Joal Teitelbaum, que também preside o Conselho Diretor do PGQP. Para ele, é obrigação de todos tratar a educação com seriedade no Brasil.

Tanto que defendeu, junto ao PGQP e aos órgãos públicos, a tese de que, até o ensino elementar, a questão é social. “Depois disso, é questão de desenvolvimento”, argumenta. Atualmente, toda organização tem que ter planejamento estrutural e plano de carreira para os colaboradores, com o incentivo de cursos de aperfeiçoamento. O ganho não é só do trabalhador, alega Teitelbaum. As empresas também são beneficiadas de forma direta. “O conhecimento é fator fundamental para ter sucesso, e isso diz respeito a todos os níveis da organização.”

Estudos revelam que um grande número de pessoas alfabetizadas tem dificuldades de entender frases com mais de seis palavras. Ao pôr fim a este empecilho, o processo de gestão flui melhor e tem mais rendimento. “Um operador de máquina que não sabe interpretar as instruções de uso não conseguirá tirar do equipamento o seu melhor desempenho. Poderá até mesmo danificar o maquinário por falta de conhecimento”, exemplifica Teitelbaum.

Então por que muitas empresas investem apenas na especialização de quem já tem faculdade? A resposta é imediata: quem faz isso comete um equívoco danoso, sentencia o empresário. Segundo ele, ao dar condições de treinamento para todos, a companhia estará universalizando lideranças. “As empresas que têm o pensamento de que podem perder um funcionário se o qualificarem precisam lembrar que terão muito mais prejuízo mantendo-o no quadro sem qualificação, pois ele poderá causar muitos estragos”, assegura. É pagar para ver.

Determinação e empenho para chegar à universidade

Quando começou a trabalhar na RGE, Paulo Renato Pastoriz não tinha terminado os estudos. O entregador de contas estava há mais de 17 anos fora da sala de aula e não tinha intenção de voltar aos cadernos. “Depois de um dia todo no trabalho, é preciso ter muita determinação para continuar”, admite. Foi o empurrão do coordenador Luís Carlos Pereira - cujo nome faz questão de citar em reconhecimento à força que recebeu - que o levou a retomar a vida estudantil.

Pastoriz, que é pai de cinco filhos, percebeu então que poderia mudar de vida. No primeiro sorteio, não foi contemplado com as bolsas. “Sempre fui muito azarado”, brinca. Mas no ano seguinte, foi a sua vez. As aulas começavam no final da tarde e iam até a noite, dentro da própria empresa. A conclusão do ensino fundamental permitiu que ele deixasse o cargo de entregador, que ocupou por anos, para passar a leiturista. O salário dobrou. “O primeiro contra-cheque recebido foi uma festa”, diverte-se.

Veio então o desafio de começar o ensino médio. Mais uma vez, encorajado pelos colegas, seguiu em frente. Outro diploma. E mais uma oportunidade: cursar o técnico em segurança do trabalho, área que tanto gosta. Agora, espera a promoção para exercer a nova profissão dentro da empresa. E o salário? “Vai triplicar”, diz, orgulhoso.

Parar, agora, nem pensar. Depois de um ano de folga a que se permitiu, começa a estudar para enfrentar o vestibular. Aos 44 anos, Pastoriz quer ir além. Quer o diploma de Engenheiro Elétrico. Uma trajetória e tanto para quem está há oito anos na empresa e ainda quer conquistar
mais espaço.

Randon aposta no Ensino Fundamental e em especializações

Em uma década de investimento, a Randon conseguiu ajudar todos os seus funcionários a concluir o ensino fundamental. Apenas os que estavam próximos do período de se aposentar, e não quiseram ingressar, ficaram de fora do programa. “Esses funcionários foram respeitados e mantidos no quadro”, relata Maria Tereza Casagrande, gerente-administrativa e corporativa da empresa. Para viabilizar as aulas, a empresa firmou parcerias com escolas próximas do parque industrial, além de contratar profissionais da área de ensino.

Assim surgiu o Programa Crescer, que ajudou a preencher os cargos que exigiam mais qualificação. Para auxiliar no processo, foi traçado um perfil de cada posição dentro da companhia e as características necessárias para alcançá-las. “Isso estimulou as pessoas a se capacitarem, pois elas sabiam o que era preciso para concorrer às vagas.”

Foi um período de virada, tanto para a empresa quanto para os funcionários. “Hoje temos certificações no chão de fábrica, o que é motivo de orgulho para todos.” Dos 7,9 mil funcionários da empresa, todos que tinham necessidade passaram pelo Crescer. De 1994 a 1999, enquanto durou o projeto, mais de 500 pessoas conquistaram o diploma.
Agora, é a vez de estimular níveis mais avançados. A Randon financia 50% da gradução, pós-graduação e mestrado, além de 40% do curso de inglês para quem quiser ir além.

Sebrae comemora o nível educacional nas MPEs

Estudo encomendado pelo Sebrae revela: houve sensível melhora no grau de escolarização dos empregados que atuam nas micro e pequenas empresas. A comparação feita entre 2001 e 2005 revela crescimento de trabalhadores com maior grau de instrução, com ensino médio completo e graduação. “Isso reflete a situação de aumento de investimentos e interesse das empresas para que os funcionários concluam os estudos”, ressalta o gerente da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae, Pio Cortizo. O cenário, afirma, está relacionado com a própria modernização das organizações. “Se não houver um grau de aprendizado, não se consegue operar neste mercado cada vez mais competitivo”, acredita.

Não é por menos que, a cada ano, as micro e pequenas empresas têm contado com mão-de-obra mais qualificada. De acordo com o Anuário do Trabalho na Micro e Pequena Empresa 2007 feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para o Sebrae, sob o aspecto do grau de escolaridade, o destaque fica com o setor de Comércio. Em 2001, as microempresas dessa atividade contavam com 14.479 empregados analfabetos, número que caiu para menos da metade em 2005, totalizando 5.569 pessoas. Segundo o estudo, predomina o ensino médio, com 42% dos empregados formados neste nível e 15% com o curso incompleto. No caso das pequenas empresas do comércio, eram 13.023 pessoas analfabetas em 2001 e 5.187 em 2005.

Segundo o estudo, 35% dos trabalhadores têm o ensino médio concluído e 10% cursando este nível no segmento de Serviço, além de 8% com o ensino superior concluído e 4,5% cursando o superior. No caso da Indústria, 41% dos trabalhadores estavam no ensino fundamental e 27% já haviam concluído o ensino médio. Na Construção, predominava o ensino fundamental, situação em que se encontravam 45% dos trabalhadores.
No caso das pequenas empresas, o indicador é de 41% dos trabalhadores do setor de Serviços com ensino médio e 25% com o superior. No Comércio, predomina a presença de trabalhadores com o ensino médio - 43% com este nível completo e 13% incompletos. Com relação à Indústria, 39% dos trabalhadores estavam no ensino fundamental. Na Construção, 41% dos trabalhadores cursavam o ensino fundamental durante o levantamento.

Os dados do estudo

Para formular o Anuário foram realizados cruzamentos de dados de diferentes fontes, como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Relação Anual de Informações Sociais (Rais), Pesquisa da Economia Informal Urbana (Ecinf), Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílio (Pnad), Ministério do Trabalho e Pesquisa do Emprego e Desemprego (PED).

Este é o primeiro estudo voltado para o universo das micro e pequenas empresas, com foco em três vertentes do mercado de trabalho: empregado (mão-de-obra), massa salarial e estabelecimento (número de empresas). Foram cruzados dados de 5.916.369 milhões de empregados de microempresas e 6.699.291 de empregados de pequenas empresas.

 

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