Quem é socialmente responsável?
Admin On março - 21 - 2008

Patrícia Bispo

Embora muitas organizações, em todo o mundo, considerem-se socialmente responsáveis há várias décadas, a verdade é que o assunto responsabilidade social só ganhou maior destaque a partir dos anos 90, período em que ocorreu uma maior pressão da sociedade, dos meios de comunicação e de ONG’s sobre o mundo organizacional. A partir disso, as empresas sentiram a necessidade de passar uma imagem corporativa positiva e o resultado foi uma corrida para recuperar o tempo perdido.
Apesar do tema ser amplamente debatido, há ainda que confunda filantropia com responsabilidade social. De acordo com o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social – entidade não-governamental, a diferença ocorre porque a primeira é basicamente uma ação social externa da empresa, que tem como beneficiária principal a comunidade em suas diversas formas e organizações. Enquanto isso, a responsabilidade social é focada na cadeia de negócios da empresa e engloba preocupações com um público maior. Por ser considerado um parceiro estratégico, o profissional de Recursos Humanos também é convido para colaborar com essa realidade vivida pelas organizações. Mas, o que podemos considerar uma empresa socialmente responsável? E onde entra o RH nesse contexto? Para responder a essas e outras questões, o RH.com.br entrevistou Tanya Linda Rothgiesser, consultora especializada em terceiro setor, responsabilidade social e voluntariado. Confira!

RH.COM.BR – A responsabilidade social tem sido alvo de várias análises no mundo corporativo. Por que isso vem ocorrendo com cada vez mais freqüência?
Tanya Linda Rothgiesser – A responsabilidade social para além da expressão de compromisso com causas sociais incorporou-se, no mundo corporativo, como modelo de gestão. Modelo adotado, principalmente, pelas grandes empresas sintonizadas com um mundo globalizado cada vez mais exigente em relação à dinâmica de seus negócios e à sustentabilidade empresarial.

RH – Qual o conceito de responsabilidade social dentro do universo corporativo?
Tanya Linda Rothgiesser – Os conceitos têm sido flexíveis, de acordo com a capacidade de compreensão dos profissionais, por sua vez, diretamente vinculada à cultura institucional prevalente na empresa. Creio ser mais interessante nos reportamos à conceituação técnica apresentada pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, em sua quinta e última versão: “Responsabilidade social empresarial é uma forma de conduzir os negócios que torna a empresa parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social. A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes – acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente – e conseguir incorporá-los ao planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos, não apenas dos acionistas ou proprietários”.
Chamamos também a atenção para a recente mudança ocorrida nesta abordagem conceitual e o fato de que a conceituação anteriormente adotada, pelo Instituto Ethos, incorporava elementos mais diretamente compromissados com a realização de uma agenda social pela empresa, ou seja, “Responsabilidade social é a intervenção social empresarial alicerçada em um código de ética definidor de parâmetros de conduta da empresa com os seus parceiros de negócios – colaboradores, fornecedores, clientes e consumidores, Estado, comunidades, meio ambiente, acionistas e até os concorrentes -, voltada a uma agenda social de cunho ético e de interesse da sociedade”.

RH – Quais as características de uma empresa socialmente responsável?
Tanya Linda Rothgiesser – A empresa socialmente responsável adota processos que incorporam escuta e negociação com seus parceiros de negócios, internos e externos, fortalecendo uma cultura institucional voltada à democratização das relações de trabalho. E também estabelece relações de comprometimento, através dessas parcerias, com uma agenda social voltada à sustentabilidade, através de projetos de interesse público que apontam para a crucial questão da desigualdade de renda no Brasil.

RH – Dentro do conceito de responsabilidade social, como uma empresa deve se comportar diante do público interno e externo?
Tanya Linda Rothgiesser – Desenvolvendo-se, culturalmente, em direção a uma postura menos “Ptolomáica” e mais “Copérnica”. Ou seja, adaptando seus processos de trabalho ao fato de que nenhuma empresa pode se ver como o centro do universo e sim como objeto em movimento, em um sistema que incorpora outros objetos, de outras grandezas e processos, em um sistema harmônico. Assim é a empresa moderna: “Copérnica”.

RH – Sabemos que muitas empresas desenvolvem trabalhos de responsabilidade social respeitáveis, no entanto há ainda organizações que estão dando os primeiros passos nessa área. Que conselhos a Sra. daria para essas que estão começando a realizar trabalhos nesse sentido?
Tanya Linda Rothgiesser – A essas empresas aconselharia incorporarem seus projetos de responsabilidade social em um planejamento estratégico, delegando-os a uma equipe multidisciplinar que assuma não só o monitoramento destes projetos mas, antes de tudo, a necessária mudança cultural que as habilite como empresas-cidadãs, estabelecendo relações democráticas com seus parceiros e tornando-se co-responsáveis pelo desenvolvimento social brasileiro.

RH – Investir em responsabilidade social exige obrigatoriamente investimentos altos?
Tanya Linda Rothgiesser – Não. Exige atitude, desejo de mudança, consciência de cidadania, compromisso com a modernidade, compromisso com seus parceiros de negócios em uma estratégia que incorpore o interesse articulado de todos, em direção à sustentabilidade: fortalecimento dos negócios, eqüidade social e qualidade ambiental. Por quê? Porque sem esses fatores não há mais marca ou negócio que se mantenha perene e lucrativo.

RH – Que avaliação a Sra. faria das empresas brasileiras quando a questão em pauta é responsabilidade social?
Tanya Linda Rothgiesser – Não dá para generalizar. Existem empresas em estágios variados, perseguindo um caminho voltado à gestão da responsabilidade social, em sintonia com sua cultura institucional. O importante é verificar que este assunto já não é mais encarado como modismo. Já existe um amplo conhecimento, mesmo que ainda não concretizado em processos de trabalho sistematizados, que dispomos, atualmente, de modelos e de ferramentas voltados à integração de novas formas de enriquecimento compartilhado entre o mundo corporativo e a nação, aí entendidos Estado e a sociedade civil.

RH – Quais os benefícios que a responsabilidade social pode trazer para as empresas?
Tanya Linda Rothgiesser – Pode torná-las ainda mais ricas e perenes sem o ônus do preconceito da sociedade em relação ao “visado lucro”, na medida que este enriquecimento extrapola sua divisão entre acionistas e incorpora outros setores envolvidos no processo: público interno, clientes, consumidores, fornecedores, governos, comunidades, entre outros. Pode torná-las construtoras conscientes de uma nova realidade nacional, voltada a tornar o Brasil cada vez menos dependente de interferências externas para o seu desenvolvimento sustentável, tornando dessa forma, seus lucros maiores e sua marca mais forte – aqui e no exterior.

RH – Qual o papel do profissional de RH dentro dos programas de responsabilidade social?
Tanya Linda Rothgiesser – O de parceiro fundamental. Colaborando não exatamente através da coordenação de um setor ou núcleo responsável pelas ações de responsabilidade social empresarial, mas como parceiro constante nos processos que garantem a manutenção das propostas, no dia-a-dia organizacional.

RH – A Sra. acredita que o profissional de RH brasileiro já despertou para a importância da responsabilidade social ou ainda existe um longo caminho a ser percorrido?
Tanya Linda Rothgiesser – Sendo a responsabilidade social um modelo de gestão, este caminho já começou para o profissional de RH como estrategista, nas várias esferas em que os negócios da empresa se fazem sentir. Considerando-se que a empresa socialmente responsável reafirma seu compromisso com seus colaboradores incentivando-os a assumirem, cada vez mais, ações de liderança e empreendedorismo, o RH pontua como área estratégica não só buscando formar essas equipes sintonizadas em responsabilidade social empresarial, mas trazendo às mesas de decisão suas reflexões de escuta ao público interno, dando-lhes suporte através de capacitação técnica adequada, promovendo políticas de reconhecimento individual e coletivo, inserindo-as em uma cultura institucional criativa e participativa.

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