O Novo Segredo Do Trabalhador Feliz: Dinheiro No Bolso
em de janeiro de 2009
Dias atrás, enviei um e-mail a um amigo que acaba de perder o emprego. "Sinto muito", escrevi. "Seus chefes são uns idiotas por estarem demitindo um gênio como você. Eu posso imaginar a fila que logo vai se formar na frente de sua casa, de empregadores com um pouco mais de cérebro, para disputa-lo. Espero que esteja bem."
O e-mail foi sincero, exceto por uma palavra, "logo". Mesmo os gênios não estão sendo reaproveitados rapidamente- a menos que eles sejam guardas de segurança, trabalhadores sociais, contadores ou professores.
Num instante, recebi uma mensagem de volta. Ele disse que por um momento ficou em pânico por causa da prestação da casa e das mensalidades escolares dos filhos, mas fora isso, estava na verdade bem animado. De fato, ele estava muito bem humorado, a ponto de me mandar uma piada bem engraçada.
Não pude evitar comparar o tom de sua mensagem com outra que recebi na mesma tarde de uma amiga que trabalha para uma companhia que também está comemorando o Natal com demissões selvagens. Nunca, disse ela, seu moral esteve tão baixo. O trabalho está muito pesado, pois agora ela está fazendo as tarefas que antes eram feitas por três pessoas. Havia comentários na empresa de redução dos salários. O escritório estava num silêncio assustador, uma vez que muitos colegas foram demitidos e nem mesmo havia alguém por perto para ela se queixar da situação. E o pior de tudo era o medo de que ela seria a próxima a ir para a rua.
É tentador concluir, com essas duas mensagens, que se existe uma coisa pior para pessoas que até agora vinham sendo bem sucedidas e eram bem pagas, do que perder o emprego, é não perder o emprego. Aqueles que foram demitidos não precisam levar isso para o lado pessoal, e não trabalhar nos dias que antecedem o Natal pode ser uma coisa boa. Mas para aqueles que não foram demitidos, o fim de ano nada festivo será uma orgia de medo e trabalho penoso.
Pode haver alguma verdade nisso agora, mas não vai durar muito. O sorriso amargo dos desempregados vai piorar, uma vez que não haverá filas na porta de suas casas de empresas querendo contratá-los, enquanto o sorriso amargo daqueles que ainda estão empregados, começará a melhorar com o tempo. Não porque a economia vai melhorar- e sim porque o medo trará uma postura mais sólida e realista em relação ao trabalho.
Ao longo da última década, as classes profissionais ricas desenvolveram uma atitude cada vez menos saudável em relação aos seus empregos. Nós acreditávamos que nossos empregos e salários gordos estavam garantidos e ficávamos ressentidos quando nossas bonificações não eram ainda maiores do que as do ano anterior. Exigíamos que o trabalho fosse interessante e, de uma maneira ainda mais perigosa e absurda, que ele deveria ter um significado.
O resultado de todas essas exigências foi, é claro, a insatisfação. Chegamos ao topo da hierarquia de necessidades de Maslow e descobrimos que, no topo da pirâmide, o ar era muito rarefeito. Como colunista, constatei que de longe os problemas que mais afligiam os leitores vinham de profissionais experientes e ricos, que tinham mais que preenchido todas as suas necessidades, o que deixou suas almas atormentadas. Me ajude, estou entediado, choramingavam eles. Ou pior: o que o meu trabalho significa?
Nos últimos meses, esse tipo de angústia desapareceu. Quando o emprego de alguém está ameaçado e suas economias são uma sobra do que já foram, a busca pelo significado do trabalho perde o sentido. O propósito de um emprego se torna bem mais básico: alimentar a família, pagar as prestações da casa e a escola dos filhos. Se podemos fazer isso, então tudo o que conseguirmos além disso é um bônus. Assim que as expectativas foram ajustadas a essa nova realidade e estivermos vendo o ato de ganhar dinheiro como o principal motivo do trabalho, uma maior satisfação vai surgir disso.
Há muita coisa ruim a se dizer sobre as expectativas baixas. Pesquisas freqüentemente mostram que as mulheres tendem a ter maior satisfação no trabalho que os homens, apesar de ganharem menos e ainda terem a carga dupla de trabalho, com os serviços domésticos. A razão é simples: as expectativas das mulheres com a vida no trabalho são menores. De modo parecido, a Dinamarca é o país mais feliz do mundo, apesar do frio, do clima sombrio e dos impostos elevadíssimos. Os estóicos dinamarqueses não esperam muita coisa da vida e, esperando menos, eles descobrem que o pouco que têm é muito bom.
A descida da pirâmide da Maslow é dolorosa e o progresso é lento. Entretanto, há algo que os administradores podem fazer para tornar a descida um pouco menos amarga. A maneira mais fácil e barata de animar trabalhadores desmoralizados é dizer a eles que eles estão fazendo um grande trabalho. É um dos grandes mistérios da vida no ambiente de trabalho a resistência da maioria dos administradores a fazerem isso, quando trata-se de uma coisa que não lhes custa um centavo. Eis o que eles precisam fazer: chegar nas pessoas uma a uma (fazer isso em grupos é uma atitude preguiçosa e elimina o impacto) e agradecer a elas pelo empenho e dizer que elas estão se saindo muito bem.
Para aqueles que estão precisando de um pouco de ânimo, eis a piada que recebi do amigo que foi demitido, que por sua vez a ouviu de alguém que trabalha na escola em que a filha de Paul McCartney com Heathes Mills freqüenta. Em uma festa recente organizada para os pais, alguém da escola disse a Heather Mills que sua filha era muito boa na flauta doce. Mills aparentemente respondeu: "Ela herdou isso de mim."
Lucy kellaway - Valor Econômico - 26/12/2008
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