Alex de Brito Bonifácio
www.rh.com.br
Nossa sociedade costuma procurar por heróis. Valorizamos sobremaneira as pessoas que realizam grandes feitos, vencem desafios aparentemente insuperáveis, destacam-se em suas atividades, sejam elas quais forem.
A bibliografia disponível é cada vez mais vasta e, na maior parte dos casos, são apresentados exemplos de como alcançar o sucesso. Considerável parcela desses livros relata detalhadamente como pessoas bem sucedidas construíram seus impérios, criaram coisas magníficas ou superaram seus limites. É como se nos dissessem: “façam como eles e o resultado certamente será o mesmo”. Isso se traduz, na prática, em frustração.
Por que há pessoas que conseguem realizar coisas tão grandiosas e outras não? Existe alguma fórmula secreta submersa em algumas poucas mentes ensolaradas? Essas pessoas são diferentes das demais? Em quais aspectos? Talvez por sorte, quem sabe persistência? Todos os demais não teriam o mesmo direito?
É inadmissível crer que apenas alguns poucos “iluminados” conseguem alcançar seus sonhos e desfrutar de todos os deleites que o sucesso – cuja definição varia de indivíduo para indivíduo – pode proporcionar. É igualmente inaceitável assistir silenciosamente todos aqueles que são tomados por sentimentos de desapontamento e impotência que levam ao abandono de seus grandes sonhos e projetos, quer dentro da empresa, quer fora dela. Nesses casos, a rotina e o turbilhão de novas prioridades funcionam como analgésico que os alivia da difícil tarefa de lidar com a frustração gerada pela triste opção de abandonar seus verdadeiros sonhos.
Muito contribui para isso o fato de que, muitas vezes, abandonamos nossos sonhos e metas diante do primeiro sinal de fracasso. Temos medo. Medo de não dar certo, de nossa idéia não ser aceita, medo de perder o emprego, medo de errar. Passamos então a agir sob sua influência.
Enquanto uma criança cai imediatamente e se levanta, mesmo aos prantos, nós adultos à primeira queda preferimos não mais tentar. Optamos por abrir mão do sucesso. Flávia Pacheco estudou cinqüenta personalidades brasileiras bem sucedidas e apontou um aspecto comum a todas elas: desistir nunca foi uma opção. “Todos os entrevistados, em vários momentos da vida, fracassaram. Enfrentaram problemas que pareciam intransponíveis naquele momento. Estes ocorreram em diversas fases das suas vidas e se manifestaram das maneiras mais variadas. Eles atingiram a excelência profissional porque se negaram a desistir. Continuaram lutando, apesar de todas as dificuldades. O que os diferenciou da multidão foi o fato de não terem fugido assustados.”
Quantas boas idéias queremos implantar nas organizações nas quais atuamos e deixamos de dar seqüência em função do medo do fracasso, da possibilidade de ridicularização no ambiente de trabalho ou da punição que eventualmente sofreríamos em caso de insucesso?
A cultura do medo persiste também em função da atitude de algumas empresas em punir a primeira falha cometida pelo empregado. No entanto, se desejamos construir algo novo, atuar criativamente, realizar grandes feitos e alcançar nossos sonhos, invariavelmente, iremos fracassar, pois o estudo do processo criativo, por exemplo, revela que não há sucesso sem o fracasso que o antecede.
A empresa Skyline é um estúdio de design de brinquedos da Califórnia e produz anualmente cerca de mil idéias, das quais aproximadamente doze são vendidas. Brendan Boyle, seu fundador, avisa: “Você não pode ter idéias novas sem ter muitas idéias burras, ruins e malucas. Ninguém em meu setor é bom em adivinhar quais são perda de tempo e quais são o próximo grande sucesso”.
Jack Welch, o executivo do século, ex-presidente da GE, aos 28 anos de idade explodiu uma fábrica trabalhando no desenvolvimento de um novo processo químico. “Eu estava certo de que tinha explicações sobre os motivos da explosão. E também já desenvolvera algumas idéias para solucionar o problema. Mas, naquele momento, eu não passava de um náufrago nervoso. Minha autoconfiança estava quase tão abalada quanto o prédio destruído”. Muito provavelmente se Jack tivesse sido afastado ou demitido – opção mais sensata para alguns diante dessas circunstâncias – a GE não teria concluído o Noryl, produto vitorioso que rende mais de US$ 1 bilhão à companhia.
A Disney Animation, mesma empresa que produziu sucessos como Branca de Neve e os Sete Anões, Os 101 Dálmatas, Cinderela e tantos outros desenvolveu o Caldeirão Negro, considerado pelo diretor de animação de longa-metragem da empresa, Peter Schneider, como “o pior filme já feito”. “A única vantagem que eu tinha é que não poderia fazer pior do que O Caldeirão Negro“, disse.
Jim Cameron continuou produzindo o filme Titanic, mesmo após o estúdio suspender sua remuneração e ordená-lo abandonar o projeto. O filme rendeu US$ 1,4 bilhão somente de bilheteria.
Geoffrey Ballard, da Ballard Power Systems, levou vinte e cinco anos desenvolvendo a célula de combustível, cujo resíduo é água pura. Enquanto suas tentativas eram frustradas foi simplesmente ridicularizado nos meios científicos. Após concretizar seu projeto, a empresa teve uma capitalização de mercado de bilhões de dólares e atualmente já existem protótipos utilizando o sistema que alimentará veículos produzidos em massa provavelmente no próximo ano.
Muitas vezes somos equivocadamente levados a crer que as grandes empresas não convivem com grandes fracassos e dificuldades. Todas se deparam com situações semelhantes.
A Revista Exame no artigo Do que são feitas as grandes empresas, nos mostra que a 3M, por exemplo, tropeçou por onze anos seguidos. Os negócios com mineração faliram após a venda de uma tonelada de material.
A Ford experimentou um enorme fracasso antes de lançar o modelo A e o modelo T.
Antes de contratar Thomas J. Watson, a IBM falhou nos primeiros anos, tendo sido cogitada a sua liquidação. Ele próprio repetia a seus colaboradores: “Se você quer ser bem sucedido, duplique sua taxa de fracassos”.
Desistir não pode ser uma opção quando acreditamos, de fato, em nossas idéias. Se é verdade que a realidade é co-criada pelos nossos processos de observação, então não há casos de sucesso ou fracasso. Há simplesmente os que desistem e os que persistem.
Flávia Pacheco, a qual já fizemos referência, ilustra isso com muita propriedade. “Tenho um amigo, um tenista curitibano que costumava viajar para participar de campeonatos por todo o país. Ele tinha um adversário específico que já conhecia de outras partidas, e ficava feliz quando tinha de jogar contra ele, porque das 15 partidas que jogaram em diversos campeonatos, o meu amigo ganhou 14. Depois de alguns anos, ele desistiu da carreira de tenista, mas seu adversário, que costumava perder para ele, não. Seu nome é Gustavo Kuerten, que alcançou a posição de melhor jogador de tênis do mundo depois de vencer por três vezes o torneio de Roland Garros”.
O campeão olímpico em provas de natação Gustavo Borges afirma: “quando comecei, às vezes perdia das meninas, e não é difícil imaginar quanto isso incomoda um garoto de 9 anos de idade!”.
Cabe, portanto, aos gestores organizacionais incentivar também aqueles colaboradores que fracassam na séria tentativa de criar novas soluções para a empresa e acabar de uma vez por todas com todo e qualquer tipo de censura e piada que provoque nessas pessoas o sentimento de impotência e desistência.
Afinal, o premiado jogador de hóquei Wayne Gretzky está certo ao dizer que “você erra 100% dos chutes que não dá”.
