Teoria boa e teoria útil - Uma reflexão dos conceitos da ReAdministração

Paulo Sergio Jordani

 

Comparar as mudanças contemporâneas a um Mar de Turbulências talvez seja a melhor relação feita até hoje para ilustrar esse fenômeno. A onda do mar sugere medo, agitação, força, mas também é poesia e diversão. Vê-la de uma forma ou de outra, depende unicamente da nossa posição e do nosso ponto-de-vista.

O mar de turbulência pressupõe mudanças no campo social, político, organizacional, tecnológico, nas áreas do conhecimento e ecologia. A proposta de surfar nas ondas desse mar é hoje o grande diferencial competitivo das organizações. Para Caravantes (1996), o conhecimento passou a ser a chave de ouro para abrir as portas do desenvolvimento. Não há dúvida sobre essa afirmação, sobretudo se considerarmos a visível preocupação das atuais empresas em gerir pessoas como se fossem verdadeiros talentos humanos.

A ReAdministração dá um novo sentido aos atuais sistemas gerenciais que preconizam os processos produtivos. Ela valoriza a eficiência, a eficácia e a efetividade organizacional. Por outro lado, atribui ao ser humano o papel fundamental no processo de mudança. A ética e a responsabilidade social são valores incorporados pelas organizações e esses, por sua vez, são conseqüências de uma gestão preocupada com as próximas gerações. Vemos nesse cenário que o ser humano é definitivamente o centro de tudo e, como tal, é o agente ativo desse processo.

A proposta de paradigma na ReAdministração

Um dos grandes esforços para a sistematização dos processos nas empresas foi a Qualidade Total (Rabelo, 2001). Os pressupostos básicos mostram que a gestão pela qualidade varre os processos produtivos, eliminando etapas desnecessárias e em seguida padroniza os mesmos e amplia seus controles. Hoje, uma visão mais apoiada nas práticas surgidas com essa abordagem, podemos afirmar que a qualidade total nada mais é do que a visão Taylorista com a inserção e a relativa valorização do ser humano nos processos. Já a Reengenharia surgiu como uma nova tentativa de sustentar a era dos processos produtivos otimizados e eficientes mas, novamente, sem valorizar o fator humano como parte dele.

Desenterrar o glamur do processo produtivo com o jargão “Esqueça tudo o que você aprendeu até hoje” (Hammler, 1990) soou de maneira pejorativa e destrutiva, causando mau-estar aos pesquisadores do comportamento humano. Como é possível esquecermos tudo o que aprendemos ao longo de nossa vida profissional por conta de uma nova teoria? O que precisamos fazer é rever os nossos conceitos com mais freqüência e não romper um ciclo por conta de outro totalmente novo e, muitas vezes, utópico. A Reengenharia sucumbiu por morder sua própria língua. Não é esse o nosso ponto principal de discussão, mas é importante tomarmos como base esse momento vivido pela Reengenharia, para compreendermos a ReAdministração.

Segundo o autor dessa nova abordagem, a Reengenharia não contempla uma nova visão ou uma visão revolucionária no conceito administrativo, porque não faz uma análise baseada em pressupostos teóricos já consolidados, com o que ela chama de novo.

A verdade nisso tudo é que as organizações sentiam a necessidade de valorizar o seu maior patrimônio, as pessoas. Essa abordagem não é nova, Henry Ford dizia no início do século passado que as duas coisas mais importantes não apareciam no balanço da empresa: sua reputação e seus homens.

É baseado nessa visão que os pressupostos básicos da ReAdministração se apóiam. Um dos vetores que norteiam a teoria da ReAdmnistração é a ética, tida aqui como a alma de todo o negócio. A era da organização ética é a essência do processo evolutivo que se inicia, pois são as próprias organizações sociais a criação mais fantástica da mente humana. Nascemos, crescemos, vivemos e morremos fazendo parte de uma organização. Se isso é a nossa razão de ser e existir, então sejamos felizes nela. Caravantes (1996) afirma que a função da razão é a promoção da arte da vida e conclui apostando no viver, viver bem, viver melhor, como a chave da felicidade humana.

O fator humano na ReAdministração

É no fator humano que a Reengenharia e a ReAdministração mais contrastam. Caravantes relata em seu livro “ReAdministração em Ação” a pesquisa realizada por James Collins e Jerry Porras, da Escola de Administração de Stanford e publicada no livro “Feitas para Durar”. Entre os relatos está a derrubada de alguns mitos. Entre eles, o mito de que “as organizações mais bem sucedidas existem, primeiramente e antes de tudo, para maximizar lucros”. A realidade constatada pela pesquisa de Porras e Collins (1990), é de que a maximização dos lucros não é o principal propósito das organizações chamadas de visionárias.

Os seus objetivos são orientados por uma ideologia central, por valores básicos e por um senso de propósitos que transcende os fatores monetários. Percebe-se em toda a pesquisa que as empresas visionárias estão voltadas ao cliente externo e interno. A valorização das pessoas é uma garantia de sobrevivência da empresa, pois são delas que derivam os conceitos éticos e outros valores fundamentais a toda e qualquer organização.

Se a ReAdministração quer que o indivíduo seja feliz e que a felicidade o transforme em um ser com conhecimento capaz de converter seu conhecimento individual em conhecimento grupal e, por fim, em conhecimento organizacional, então a Reengenharia, que prega fundamentalmente o downsizing como estratégia de sobrevivência organizacional, contrapõe esses princípios e se afasta, cada vez mais, dessa nova visão.

Não estou querendo dizer que a dispensa de empregados ou o enxugamento de níveis hierárquicos é proibitiva neste novo contexto. Apenas quero contribuir reafirmando que, na proposta da ReAdministração, a empresa, ao dispensar seus funcionários, deve se sentir responsável por eles e trabalhar na sua reabilitação e recolocação no mercado de trabalho. Em nenhum momento essa nova abordagem proíbe a demissão de empregados. Ela até propõe como estratégia de implementação a redução de níveis hierárquicos. A diferença é que o enfoque dado nesse caso é o de que os cargos percam seus status naturalmente, valorizando a estrutura enxuta como aliada para enfrentar um mar de turbulências.

O bom e o útil da ReAdministração

Definir o que é bom e útil dessa teoria é um exercício de raciocínio que inclui necessariamente o ser humano como centro de todo o processo. Sua espiritualidade, seus anseios, seus conhecimentos e suas expectativas norteiam a proposta de forma determinante. De um lado, temos os processos extremamente ajustados pelas teorias adjacentes e anteriormente desenvolvidas. De outro, temos o ser humano dotado de sentimentos e emoções que busca dia após dia firmar-se como centro das atenções nas organizações.

Desta forma, e não poderia ser diferente, a contribuição humana para o processo de desenvolvimento de uma cultura organizacional, capaz de assimilar uma nova abordagem nesse nível de complexidade, é de extrema importância no contexto.

Lembramos um pressuposto básico no trato com as organizações citados por Peter Drucker: “uma organização é uma ficção legal”. Com isso, segundo Caravantes (1996), uma organização por si só não existe, o que existem são pessoas que se relacionam e tentam atingir seus objetivos mutuamente acordados.

 

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