Trabalho no Brasil
Aníbal Peça
A palavra trabalho vem do latim “tripalium”. Trata-se de um instrumento de tortura utilizado para domar animais. Uma vez “encaixados” dentro desse instrumento, os animais não se mexiam para não sofrer dor e, através da imobilização, era possível que um ser humano manipulasse outros instrumentos para intervir na vida do bicho. Mais tarde, a civilização admitiu o conceito de proteção aos animais e os tais instrumentos foram abandonados, mas a palavra foi adaptada ao exercício de funções humanas.
Em nosso país, o conceito de trabalho foi imposto pelo homem branco. Os europeus aqui chegaram e encontraram uma cultura em harmonia com a natureza. Não havia moeda e nem emprego. O trabalho era um fazer mínimo para sobrevivência. Logo, os indígenas receberam as qualificações de preguiçosos, estranhos ou gentios. Mas, precisávamos construir uma nação mesmo que sob o domínio do império europeu. Essa era a regra da época e a mão-de-obra do momento era aquela exercida pelos escravos. Assim, o nosso país comprou o conceito de que trabalho é coisa de escravo, que trabalha para um senhorio. Quem oferece emprego é quase um deus e quem precisa dele é um pobre diabo.
Esse paradigma precisa ser destruído. É urgente a necessidade de um novo conceito sobre trabalho e realização dentro da nossa cultura. Nosso povo é tremendamente trabalhador, mas não tem prazer em realizar um bom trabalho. Eis duas provas disso: diante de um novo calendário a maioria das pessoas verifica a emenda de feriados para fazer planos e, aos domingos à noite, a “musiquinha” do Fantástico deprime a maioria dos mortais assalariados.
Ora, deveríamos estar satisfeitos pelo fato de estarmos na ativa e que as emendas de feriados fossem de comemoração, civismo e fraternidade, mas isso não ocorre. As justificativas podem ser variadas como o baixo poder de compra dos salários, a exploração de mão-de-obra barata ou um salário mínimo de valor ínfimo. Todos esses argumentos povoam a mente de nosso povo e fazem parte de um círculo vicioso do “ganho mal - faço menos”.
Historicamente, o Brasil passou a ter empresas, mesmo que familiares, após a proclamação da República, que ocorreu no ano seguinte ao da abolição da escravatura. Isso, nos leva a refletir que além de dispensarmos a população africana das linhas de trabalho, tornando-a à margem da sociedade por força de lei, ainda liberamos a entrada de imigrantes que já tinham superado a idéia de dependência das ações de governo para criar trabalho com alguma forma de pagamento, mas os escravos…
Em nosso país, dependemos demais da figura do Estado para trabalhar. Tanto em tributos como em normatizações o conceito de trabalho ainda é algo amarrado aos trâmites governamentais. Precisamos, com urgência, despertar o prazer em trabalhar, realizar tarefas, construir uma sociedade ativa e performante, pois nosso povo é demasiadamente trabalhador, mas tem vergonha disso. Reunindo esses fatos históricos e culturais encontramos também algumas deficiências dentro das organizações. Não se trata de uma intenção maligna em explorar nosso povo, mas de um dado ignorado. Somos tremendamente emotivos, vibramos demasiadamente por algo que acreditamos e não pedimos nada em troca.
Veja o caso do futebol onde não há estacionamento, cobertura contra o sol e a chuva, faltam cadeiras adequadas e o povo está lá. Não abandona seu time de coração. As empresas ignoram essa tipologia de dados a serem trabalhados. Elas devem realizar pesquisas qualitativas em diagnosticar o perfil do nosso povo brasileiro e através de campanhas motivacionais, de transparências na contratação e desligamento de colaboradores. Também encontramos uso excessivo da rádio peão como forma de prospectar a opinião do público interno. Esse não é o melhor caminho, pois o que precisamos é criar times com pessoas que trabalhem em equipe, com prazer de fazer bem feito e com a satisfação de ter participado da produção do produto final. Desde a criação do mundo corporativo até nossos dias, o trabalhador brasileiro não amadureceu, está na fase da adolescência. Os seres humanos, quando estão na fase de adolescência são inseguros e ansiosos. Querem chamar atenção, mas não gostam de serem advertidos. Vivem em conflito e procuram ídolos fora do padrão para se espelharem. Assim, parece-me o comportamento de certos profissionais que se apresentam para trabalhar num emprego novo. Alguns deixam escapar a preocupação sobre a lei que regulamenta essa ou aquela função.
As organizações devem estar preparadas para fazerem diagnósticos exatos sobre estes profissionais e sua particular insegurança dando-lhes formação adequada para entender que a intervenção do Estado não gera salário nem riqueza, apenas normatiza o meio social. Não é a lei ou a empresa que zela por uma carreira profissional mas um conjunto de interesses, oportunidades e mercado. Um caminho interessante é a implantação de programas de capacitação para o uso do cérebro. Cabe aos líderes definir que o ambiente de trabalho é de conflito entre opiniões, mas não pode existir confronto. Precisamos atender nosso cliente, independentemente da simpatia ou não de nosso colega de tarefa.
Assim, juntos empresa e trabalhador, teremos a sinergia necessária para quebrar o paradigma eliminando o “tripalium” que nos condena aos lamentos da segunda-feira e o desespero pela chegada da sexta-feira.
Bom trabalho a todos!
Categoria: Administração
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