Esporte: espelho do brasileiro
(Alexandre Pelegi)
Diariamente os jornais trazem o drama de torcidas diante de crises em seus clubes do coração. A lista de culpados é extensa. Jogadores sem amor à camisa, técnicos incapazes, e por aí vai. A maior parte do tempo, soberanos, os cartolas aparecem como gerentes da crise, jamais como culpados pelos descaminhos do time.
Tirando os olhos de Brasília, e mirando a malandragem que se estabeleceu no mundo esportivo, fica claro que só um otimista exagerado conseguiria enxergar aí algum sinal de democracia. Quem escolhe o dirigente? Claro que não é o torcedor… Sua função é torcer, dar razão ao espetáculo e ao negócio. E geralmente acaba enganado, e sem o saber ajuda a camuflar inúmeras falcatruas…
Você escolhe quem irá administrar sua cidade, quem irá dirigir seu país, mas a absoluta maioria não participa da forma como é gerido seu time do coração. Fossem os clubes constituídos como empresas, nada a reclamar. Assim como os italianos torcem pela Ferrari, nós torceríamos pelo Corinthians, Flamengo, Santos (claro!) ou outro time qualquer, sabendo de saída que estaríamos sublimando uma paixão em troca de lucro para um empresário investidor. Mais que torcedores, seríamos clientes – pagaríamos pelo espetáculo, com direito a vaias e apupos. As malandragens, quando houvesse, seriam problema da justiça.
No entanto, a maioria dos nossos times de futebol está longe de funcionar como empresa, quer na forma de gestão, quer na responsabilidade fiscal. Em ano de Copa, a situação irá se repetir: de olho em Dunga e seus convocados, com os olhos limitados às quatro linhas do gramado, pouco saberemos do que fez e faz a gigante CBF.
Mas justiça seja feita: o que vale para o futebol, se repete em muitos esportes. Matéria publicada há um mês no site Uol revelava a existência de um quinteto de cartolas eternos que comandam, há mais de 20 anos, suas confederações. Ricardo Teixeira, da CBF, está entre os mais longevos: 21 anos no cargo, só perdendo para Roberto Gesta, do atletismo (23 anos) e Coaracy Nunes, dos esportes aquáticos (22 anos)…
Um povo que não enxerga problema em situações assim dificilmente entenderá o mecanismo da malandragem e da corrupção na política. O esporte – e ao seu lado o futebol – acaba sendo, desta forma, o melhor espelho do povo brasileiro: revela sua alma e ao mesmo tempo explica porque somos tão enganados…
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