A gripe de Frank Sinatra

Um dos jornalistas que mais influenciaram a minha geração no Brasil foi o ítalo-americano Gay Talese. Ele foi um dos introdutores de uma nova forma de escrever reportagens, passando a dar a seus temas e personagens um tratamento, digamos, literário. Atenção: quando eu falo literário não estou querendo dizer ficcional. Não, nada disso. Talese descobriu que além de informar ao leitor, o jornalista podia fazer com que a leitura de sua reportagem se transformasse também num prazer estético.
Ele queria que seus leitores lessem seus trabalhos como quem lê um romance. Era como se o bom jornalismo consistisse em escrever a verdade com tamanha preocupação formal que ela parecesse ficção. Um livro de reportagens de Gay Talese chamado “Aos olhos da multidão”, converteu-se num clássico do tal new-journalism, numa espécie de bíblia dos repórteres.
Nesse livro existe uma reportagem interessante. O autor tinha sido encarregado pelo jornal New York Times de fazer um perfil do cantor Frank Sinatra, que iria fazer um espetáculo num hotel de Nova York. Talese acertou tudo com a assessoria de Sinatra, mas no dia marcado, quando ele chegou ao hotel, os guarda-costas do cantor lhe deram a má notícia: “Sinatra está gripado, está irritadíssimo e não quer falar. Se você quiser, pode ficar a alguns metros de distância dele, mas não pode chegar perto nem se dirigir a ele”.
Para qualquer jornalista, isso seria a morte da reportagem. Pois Talese escreveu uma obra-prima do jornalismo intitulada “Frank Sinatra está gripado”. Isso mesmo: mostrou, com enorme talento, o que pareceria uma coisa óbvia: que uma gripe é um negócio infernal até mesmo para um dos homens mais importantes do mundo.
Agora, sabe por que eu me lembrei da reportagem de Gay Talese? Porque amanheci hoje com uma gripe de derrubar cavalo. E mesmo não sabendo cantar nem o “Atirei o pau no gato”, entendi melhor a reportagem de Gay Talese. Hoje, se eu fosse Frank Sinatra, mandaria fuzilar o primeiro jornalista que me aparecesse fazendo perguntas.
(Fernando Morais é jornalista e escritor, autor dos livros “Olga”, “Chatô - Rei do Brasil” e “A Ilha”, e recentemente do livro “O Mago”, sobre Paulo Coelho, o escritor brasileiro que já vendeu mais de cem milhões de livros em todo o mundo)
Categoria: Comunicação, Crônicas, Literatura, Motivação
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