Clichê

Engana-se quem pensa que o clichê – isto é, o chavão, a frase prêt-à-porter – é percebido por todo mundo como um inimigo da boa comunicação e da inteligência coletiva. Muita gente, longe de fugir deles e tentar na medida do possível manter o discurso com algum fio, persegue chavões alegremente.

– A festa tá bombando, hein?

– Pois é, arrebentando a boca do balão.

– Melhor é que a coisa toda tem responsabilidade social. Sabia que o didjei está doando o cachê para um leprosário?

– Esse cara é tudo de bom. Demorou.

Não é só na linguagem informal. O fascínio que o clichê exerce é igualmente forte, se não for mais, no discurso dito sério. De que outra forma explicar que expressões que viraram modismos, verdadeiros fetiches como “inclusão social”, “vontade política”, “agregar valor”, “política consensuada”, “agenda positiva”, “herança maldita” etc. – como explicar que essas coisas continuem freqüentando com a cara mais lavada do mundo tantos discursos em plenário, tantos pronunciamentos na TV, tantos artigos de jornal, como se fossem motivos de orgulho e não de embaraço para quem as usa?

Ao gosto do falante por expressar o que já foi expressado, casado com o gosto do ouvinte por ouvir o que ouviu zilhões de vezes, junta-se o fato de que a percepção do que seja clichê varia de pessoa para pessoa, segundo as referências de cada uma. Chegamos assim à conclusão de que é uma tarefa dura denunciar o que têm de oco as frases feitas. De um lado – para usar um clichezão de sucesso nos últimos anos – é “enxugar gelo”. Do outro, expõe o caçador de chavões a uma acusação de esnobismo intelectual. Acusação injusta, diga-se. Tentar remover da linguagem o entulho dos bordões de programa humorístico é o contrário de elitismo, é apostar na democratização do saber – acreditar que qualquer mensagem pode ser posta ao alcance da maioria das pessoas, desde que formulada com a maior clareza possível. Sem mistificação, sem aquilo que se poderia chamar de populismo lingüístico.

A propagação oba-oba dos clichês, que na linguagem familiar não pode causar mal nenhum – “a não ser a mim mesmo”, como diria Cazuza –, no discurso do homem público é um desastre. O governo Lula não inventou o clichê, é bom que fique claro. Inventou parte dos que estão citados ali em cima, mas fez isso para substituir velhos, velhíssimos outros clichês. Alguns deles com idade de sobra para estarem presentes na antologia feita por Gustave Flaubert do que ele chamava de idées reçues, isto é, idéias aceitas, admitidas, convencionais - prontas. O que levanta a dúvida: um país avança quando permanece exatamente o mesmo na estrutura, mas troca de clichês, de mitologia?

Claro que seria quixotesco levar às últimas conseqüências o combate às idées reçues de Flaubert. Isso pela razão simples de que a própria estrutura do pensamento, a linguagem, é convencional: se radicalizarmos demais na exigência de originalidade acabaremos mudos. Felizmente, um pouco de bom senso deixa clara a diferença entre uma taxa de redundância mínima, abaixo da qual a comunicação é impossível, e a redundância apoteótica do clichê. “Pode entrar, o cachorro é manso”, diz alguém no primeiro caso. “O cachorro é o melhor amigo do homem”, responde um adepto do segundo – frase que está no “Dicionário de Idéias Prontas” de um mestre da ironia que passou anos a escrevê-lo e nunca o terminou. O meio livro que ele fez só foi publicado postumamente, em 1911. O tema era vasto demais para um escritor tão escrupuloso quando Gustave Flaubert.

Na tentativa de jogar luz sobre a curiosa reação violenta de alguns leitores à amena nota anterior, sobre lugares-comuns, reproduzo um trecho de minha crônica “O clichê triunfante”, publicada aqui em NoMínimo em maio de 2004 e, mais tarde, em meu livro “What língua is esta?” (Ediouro, 2005). Se não for esta toda a explicação, será, acredito, pelo menos parte dela.

Sérgio Rodrigues

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