Comunicação combina com democracia
Patrícia Bispo
Quem está atento às constantes mudanças do mundo corporativo sabe que desenvolver uma política de comunicação interna eficaz pode significar o caminho para o sucesso organizacional. No entanto, existem empresas que ainda não despertaram para essa realidade e preferem centralizar o poder. “No Brasil, a maioria dos gestores empresariais são analfabetos em comunicação e administração”. Essa forte afirmação foi feita pelo diretor executivo da Aberj (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial), Paulo Nassar, durante entrevista exclusiva concedida ao RH.COM.BR. Para ele, esse quadro só mudará quando os gestores assumirem uma visão qualitativa de vida, em detrimento às linhas mecanicistas que abortam a criatividade. Nassar também menciona como as organizações devem trabalhar as ferramentas de comunicação trazidas pela tecnologia. Confira!
RH.COM.BR - Hoje, as empresas que desejam ser competitivas, deparam-se com uma realidade: elas precisam investir na elaboração de programas de comunicação interna. Que práticas o Sr. destacaria como sendo mais indicadas para o universo corporativo?
Paulo Nassar - No Brasil, a maioria dos gestores empresariais são analfabetos em comunicação e em administração. E a intersecção entre esses dois campos é onde se define o que chamamos atualmente de comunicação organizacional. Então, o relacionamento excelente com o público interno depende do conhecimento das formas como cada modelo de gestão molda os, ou é moldado, seus processos de informação e comunicação. Modelos de gestão voltados para a produtividade máxima geralmente têm uma comunicação interna pífia. Modelos com ênfase na hierárquia, no poder, também valorizam pouco a comunicação, principalmente a interna. Isso porque o processo de comunicação, principalmente de questões complexas, demanda tempo e relacionamento.
RH -Em que os gestores brasileiros precisam mudar para reverter essa situação?
Nassar - A democracia no âmbito das empresas brasileiras é uma pedra preciosa rara. Ela depende do modelo administrativo de cada empresa. Também depende dos sistemas político, cultural e psicológico de cada empresa. Os gestores empresariais foram formados dentro de escolas e de uma cultura que só valorizam os aspectos quantitativos da vida: números, resultados, percentagens, metas. Enquanto os gestores não assumirem uma visão mais qualitativa da vida, que valoriza os acertos mas também os erros, que entenda que a realidade não é uma engrenagem mecânica que transita entre o preto e o branco, as práticas de comunicação interna continuarão sendo uma extensão de uma visão mecanicista que aborta a criatividade, a espontaneidade e o surgimento de práticas não prescritas nos manuais.
RH - Qual o melhor caminho para uma organização solucionar conflitos de comunicação interna?
Nassar - Assumir que o conflito, a divergência, a pluralidade, o diverso, os inúmeros pontos-de-vista são parte do processo comunicacional. Atualmente, o conflito é visto como uma anomalia, como uma doença. A boa comunicação interna é aquela que admite a rebeldia.
RH - O Sr. costuma afirmar que antes de lançar um programa de comunicação interna, é fundamental que a empresa conheça o perfil do seu público. Que ferramentas podem ser usadas para se conhecer os colaboradores?
Nassar - Conhecer os públicos organizacionais é o ponto zero de qualquer planejamento comunicacional excelente. “Quais são os públicos estratégicos da minha organização?” é a pergunta mãe. Quando se fala em público interno, é preciso conhecer a forma como esse público atualmente se educa, estrutura a sua família, comunica-se, mora. O público interno precisa ser visto como sujeito e não como objeto, como algo passivo, simples receptor de informações importantes para a gestão.
RH - Há quem defenda que para se alcançar uma comunicação interna eficaz, é preciso que seja realizada uma democratização da gestão. O Sr. concorda?
Nassar - Sem a democratização da gestão não há comunicação interna excelente. Existem sim as empresas ditadoras, de gestores que apenas ditam ordens de serviços, coisas a serem cumpridas.
RH - Nesse momento, qual o perfil do profissional de comunicação interna que as empresas procuram?
Nassar - As empresas buscam um profissional que seja alfabetizado em mais de uma área de conhecimento. É cada vez mais comum, encontrarmos na gestão da comunicação interna profissionais com formação em comunicação e administração, comunicação e marketing, comunicação e psicologia, comunicação e antropologia, entre outras dobradinhas.
RH - Nos útlimos anos, a Intranet ganhou espaço no dia-a-dia organizacional e se tornou uma forte ferramenta no processo de comunicação interna. Esse recurso é bem utilizado ou as empresas ainda precisam aprender a aproveitá-lo melhor?
Nassar - A Intranet é uma mídia rica em possibilidades alavancadas pela convergência de texto, imagem e som. Tudo isso em um ambiente de interatividade, conveniência e velocidade. As empresas não usam ainda a Intranet em todo o seu potencial. Isso por ser uma mídia nova e que apenas agora começa a entrar no budget e no planejamento de comunicação das organizações. Esses limites serão superados num piscar de olhos. Fora das empresas as pessoas estão comunicando-se, cada vez mais, de forma on-line, veloz, conveniente e interativa. É só olhar as formas pelas quais os jovens estão se comunicando: os ICQs, blogs, celulares, sites, games. Amanhã esta gente toda estará dentro das empresas convivendo com formas mais lentas, passivas de comunicação. Esse é o desafio tecnológico e cultural que as formas tradicionais de comunicação, os jornais, revistas e murais, terão que enfrentar se quiserem sobreviver no mundo corporativo.
RH - A presença da tecnologia tem deixado algumas empresas preocupadas com o uso inadequado de ferramentas como a Internet e o correio eletrônico. De que forma as organizações devem enfrentar essa questão?
Nassar - Com profissionalismo e o respeito à privacidade do público interno. Profissionalismo porque o público interno convive o tempo inteiro com outras comunicações geradas por fontes que não são só as empresas: a mídia de massa, a mídia segmentada de massa, tv a cabo, por exemplo, as formas fragmentadas de comunicação, as mídias comunitárias, sindical. Se a comunicação empresarial não for profissional, ela não conseguirá ser competitiva. Será apenas dinheiro e tempo jogado no lixo.
RH - Dentro do processo de comunicação interna, qual o papel e a importância do profissional de RH?
Nassar - O profissional de RH deve ser, cada vez mais, um especialista em comunicação e com as suas interfaces no campo das Ciências Humanas como a psicologia organizacional, ciências sociais, antropologia. O fundamental é que o profissional de RH administre as pessoas da organização de frente para o que está acontecendo na sociedade e no ambiente das empresas.
Categoria: Comunicação
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