Texto de Pasquale Cipro Neto
Faz muito tempo que os leitores me pedem uma coluna sobre o emprego dos pronomes “eu” e “mim” em expressões como “entre você e mim/eu”, “entre ela e mim/eu” etc. Os leitores querem saber, por exemplo, se a forma preconizada pela norma padrão é “Está tudo acabado entre eu e ela” ou “Está tudo acabado entre mim e ela”.
A questão é um pouco mais delicada do que talvez pareça. Pelos cânones da língua padrão, o pronome adequado seria “mim”, já que as preposições (e “entre” é uma delas) não costumam reger o pronome reto da primeira pessoa do singular (“eu”), mas o pronome oblíquo tônico (“mim”). Tradução: se na língua padrão se registram formas como “Ela vive muito bem sem mim” (e não “sem eu” _”sem” é preposição), “Ela nunca pensa em mim” (e não “em eu” _”em” é preposição), “Ela faz tudo por mim” (e não “por eu” _”por” é preposição), “Ela gosta de mim’ (e não “de eu” _”de” é preposição), “Ela se refere a mim” (e não “a eu” _”a” é preposição), dever-se-ia dizer “Está tudo acabado entre ela e mim” (ou “entre mim e ela”).
Nos clássicos e nos modernos, não faltam exemplos dessas formas: “Foi um duelo entre mim e a velhice” (Machado de Assis, citado por Celso Cunha e Lindley Cintra); “Por que vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensangüentada do calvário?” (Alexandre Herculano, também citado por Cunha e Cintra); “Entre mim e os mortos há o mar / e os telegramas” (Carlos Drummond de Andrade). No “Dicionário Aurélio”, encontra-se este exemplo: “Entre mim e Paulo vai tudo bem”.
Na linguagem oral brasileira (e em vários registros literários _brasileiros e portugueses), nem de longe se verifica o cumprimento dessa prescrição gramatical. Em “A Nova Gramática do Português Contemporâneo”, Celso Cunha (brasileiro) e Lindley Cintra (português) fazem esta observação: “A tradição gramatical aconselha o emprego das formas oblíquas tônicas depois da preposição ‘entre’. Na linguagem coloquial predomina, porém, a construção com as formas retas, construção que se vai insinuando na linguagem literária”. Em seguida, os dois gramáticos dão estes exemplos: “Entre eu e tu, / Tão profundo é o contrato / Que não pode haver disputa” (José Régio); “Entre eu e minha mãe existe o mar” (Ribeiro Couto).
Em sua “Moderna Gramática Portuguesa”, Evanildo Bechara diz que “a língua exemplar insiste na lição do rigor gramatical, recomendando, nestes casos, o uso dos pronomes oblíquos tônicos”. Em seguida, o eminente professor faz esta ressalva: “Um exemplo como ‘Entre José e mim’ dificilmente sairia hoje da pena de um escritor moderno”. A afirmação de Bechara é comprovada, por exemplo, por estes versos da antológica canção “Muito Romântico”, de Caetano Veloso: “Acho que nada restou pra guardar ou lembrar / do muito ou pouco que houve entre você e eu”.
Bem, agora a palavra é sua, caro leitor. As normas da língua padrão (ou “exemplar”, como diz o querido professor Bechara) recomendam as construções “Está tudo acabado entre mim e ela” (ou “entre ela e mim”), “Nunca houve esse acordo entre você e mim” (ou “entre mim e você”) ou “Não existe respeito entre mim e ele” (ou “entre ele e mim”). Na língua viva, no entanto, o uso efetivo aponta para outro lado.

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