Os Jovens E O Interesse Pelo Saber

Algumas Reflexões Sobre A Relação Professor-Aluno No Ensino Superior

Daniela Mendes Piloni

RESUMO

Na situação escolar, o processo de aprendizagem vai além do conteúdo ministrado em sala. Seu objetivo é estabelecer hábitos, estruturas mentais necessárias à apreensão do conhecimento e à vida social do educando. Conseqüentemente, a Educação não tem apenas a finalidade de delimitar se um conteúdo aprendido será lembrado meses mais tarde, mas, até que ponto aquilo que foi aprendido ajudará o aluno a resolver problemas novos e a enfrentar situações diferentes daquelas encontradas comumente em sala de aula. Esta pesquisa investiga se a relação do jovem estudante com o professor interfere na democratização do saber, dialogando com pesquisas que colocam a relação intergeracional, como crucial para o sucesso ou o fracasso da empreitada educativa em qualquer nível de ensino, levando em conta FREUD (1914). A primeira fase da pesquisa compreendeu levantamento e estudo bibliográfico sobre a temática. Na etapa empírica optou-se por entrevistar alunos dos cursos de licenciatura da UFMT, considerando que os mesmos lidam com a problemática em foco, na condição de aluno e futuramente de professores. Serão ouvidos ainda, conforme o encaminhamento das entrevistas com os alunos, os professores desses cursos.  Preliminarmente a pesquisa aponta a necessidade dos educadores levarem em consideração, além dos procedimentos didático-metodológicos, a relevância, tantas vezes definidora da relação professor-aluno para o sucesso da empreitada educativa. Compreender o universo juvenil, destacando o interesse pelo saber, através dos processos psicossociais intergeracionais, permite mostrar como mostra CARRANO, que o jovem só é jovem na “relação com”.

 

Este artigo baseia-se na minha atual pesquisa de mestrado em educação, onde estou procurando investigar se a relação do jovem estudante com o professor interfere na democratização do saber, dialogando com pesquisas que colocam a relação pedagógica como crucial para o sucesso ou o fracasso da empreitada educativa no ensino, em geral, e no superior, em particular. Vale ressaltar que este não é um trabalho conclusivo, apenas algumas considerações preliminares e que ainda teremos pela frente todo um processo de análise e pesquisa. Mas gostaria de estar compartilhando algumas reflexões que despertaram meu interesse pela problemática.

Como objeto de pesquisa temos a Relação Professor- Aluno e o interesse dos jovens universitários pelo saber. Serão sujeitos os estudantes dos oitos cursos de Licenciatura da UFMT (Matemática, Química, Física, Pedagogia, Letras, Geografia, Filosofia e História), cursando o último ano de graduação. E o problema  a ser trabalhado é: Há interferência da relação professor-aluno no interesse do jovem universitário pelo saber?

Como hipóteses temos duas. A primeira é que o modo como se estabelece a relação professor-aluno influencia no interesse do jovem pelo saber. E como segunda hipótese que a maneira como é estabelecida a relação professor-aluno implica em possível desinteresse do jovem universitário no saber.             Os procedimentos metodológicos utilizados serão seqüencialmente: Levantamento bibliográfico; Estudo bibliográfico; Contato com possíveis sujeitos; Definição de sujeitos; Elaboração de questionário com questões abertas e/ou entrevistas; Aplicação do questionário e/ou entrevistas; Análise dos dados; Discussão dos resultados e elaboração da versão final da dissertação.

Ainda como finalidade deste projeto podemos inserir a compreensão do universo juvenil, na tentativa de elencar fatores que permeiam a relação do jovem em relação a este professor, fomentando subsídios para ampliar a prática que propicie a construção de um conhecimento democrático e contribuição do professor no processo de desmistificação da ineficiência do ensino nos dias atuais. Entendendo que, na situação escolar, o processo de busca pelo saber vai além do conteúdo ministrado em sala. Seu objetivo é estabelecer hábitos, estruturas mentais necessárias à apreensão do conhecimento e à vida social do educando. Conseqüentemente, a Educação não tem apenas a finalidade de delimitar se um conteúdo aprendido será lembrado meses mais tarde, mas, até que ponto aquilo que foi aprendido ajudará o aluno a resolver problemas novos e a enfrentar situações diferentes daquelas encontradas comumente em sala de aula.

É interessante observar considerações levantadas por Sposito (2001) sobre o tema juventude, onde a autora reflete que os estudos referentes aos jovens praticamente desaparecem do interesse das Ciências Humanas, no Brasil, nos anos 60: (…) após os “Anos Rebeldes”, se tornam invisíveis, não só enquanto atores, mas como tema capaz de suscitar o interesse e reflexão teórica. Inicialmente reintroduzido pela mídia, o jovem reaparece como sujeito de investigação nas Ciências Sociais, no final da década de 80, aqui no Brasil (…)”.

A autora continua sua análise colocando que este silêncio quanto aos estudos na área da juventude, ainda é maior no campo educacional. Na década de 70 duas grandes orientações marcaram a reflexão sobre a Educação, que de certa maneira, contribuíram para o esvanecimento nessa temática. “De um lado, a ênfase nos processos sociais de natureza estrutural, que explicariam a exclusão observada no sistema educativo (…) a categoria classe social e a reprodução das desigualdades sociais passam a servir de pano de fundo para análise da escola. De outro, uma ênfase na análise do processo educativo, a partir dos recortes da Ciência Política, privilegiando o Estado” (SPOSITO, 2001). Na década de 80 teremos duas importantes vertentes que irão contribuir para o ressurgimento dos estudos a cerca da juventude. A primeira pode ser entendida como a descoberta do espaço escolar, entendido como modalidade de múltiplas relações, apropriações e redefinições estatais e das determinações estruturais (EZPELETA e ROCKWELL, 1985 apud SPOSITO, 2001).

A segunda vertente evidencia uma orientação que busca resgatar o ponto de vista dos sujeitos, pensados a partir de sua capacidade de produzir orientações e ações de natureza coletiva. (SPOSITO, 1994, 1993; CAMPOS, 1985 e 1991; AVANCINE, 1990: CUNHA CAMPOS, 1989; BOMFIM, 1991; GHANEM JR, 1992; CARVALHO, 1991; VIANNA, 1992; FUCH, 1972 apud SPOSITO 2001). Fazendo então a análise desta retrospectiva histórica a cerca da temática juventude na reflexão educativa, Sposito conclui que é possivelmente através do encontro dessas duas últimas orientações acima esboçadas que ocorre o seu ressurgimento.

Neste projeto temos o propósito de ouvir este jovem, percebendo sua concepção sobre a sua motivação e interesse pelo saber, procurando evidenciar os mecanismos que podem facilitar ou dificultar a construção do conhecimento. Levando em consideração o contexto escolar, social e familiar da juventude, procurando contextualizar as idéias e ideais do mesmo.           Concordo com Carrano (2003), quando ele coloca que “Em geral, a juventude só aparece como problema pelo diagnóstico de que ela, enquanto categoria que incorpora um grupo etário, é potencialmente conflitiva.” (Pág. 12).

Além dos conflitos expressos no meio social e familiar destes jovens (não como uma generalização, mas como uma hipótese dentro das estatísticas da mídia na atualidade), vamos nos deparar com uma segunda questão causadora de ansiedade tanto como a primeira, a questão da percepção do senso comum da juventude atual – àquela que não tem limites. Ao deparar com esta realidade, surge a necessidade de se realizar uma investigação das necessidades dos jovens, bem como dos professores para que estes possam ser proporcionadores de um auxílio e como conseqüência deste entendimento, atender as expectativas do jovem frente sua vida e suas escolhas, não como um mero espectador - objeto, mas como sujeito do processo. Na dinâmica da sala de aula há um senso de que cabe ao professor ensinar a pensar, a ter autonomia. Esse mecanismo, não há com negar, gera efervescência. Quando imperam os mecanismos disciplinares que impõem a homogeneização e a submissão, a reação tende a explodir. E os modelos a que o jovem está exposto podem ser um dos fatores que fazem com que essa reação venha carregada de agressividade e falta de limites.

Ferreira (1995) cita alguns autores como Knobel (1981) e Erikson (1976), explicando que o jovem passa por um período de crise e conflitos emocionais próprios da juventude (a construção da identidade e do processo de autonomia), o que já dificulta o processo das relações à ele interligadas e das facilidades que a própria miséria cultural, social e econômica permeia o mundo vivido pela maioria dos jovens envolvidos na construção da nossa atualidade política, social e educacional. Nessa perspectiva, os professores podem trabalhar com a juventude não apenas para lidar com os conflitos próprios da relação geracional, mas, acima de tudo, para ampliar as possibilidades educativas da ação pedagógica.  A partir destes aspectos é que se é possível vislumbrar uma fundamentação a partir da psicologia, fazendo um paralelo com a educação dentro de um contexto social e político; a fim de se conseguir uma compreensão do espaço de escolha de condutas, dos grupos de amigos e das atividades de lazer que os mesmos vivenciam.     

Esses levantamentos podem nos levar a perceber como as crenças, os valores e as concepções se formam nos indivíduos, a partir de suas relações com a realidade. Isso implica, portanto, entender não somente a percepção objetiva, mas o papel da subjetividade, o que explica as razões pelas quais as pessoas têm percepções diferentes de um mesmo fenômeno.

Ferreira (1995) apud Sbranger (1970), coloca que a experiência da realidade não é a mesma para todos os indivíduos, mas depende de sua hierarquia de valores, do estágio de desenvolvimento em que se encontram, do seu desenvolvimento emocional e das experiências passadas. Depende, até mesmo, da estrutura de personalidade. Portanto, para o autor só é possível ao professor atuar com eficiência junto aos jovens, se tentar compreender, não só a situação em que o jovem se encontra, mas o próprio jovem.

Temos que considerar o pressuposto citado por Alberto Melucci (1997) apud Carrano (2003): “Ser jovem não é tanto um destino, mas implica na escolha de transformar e dirigir a existência.” É interessante destacar que essa pesquisa não tem o propósito de questionar os processos didáticos metodológicos utilizados pelos professores, mas sim perceber como que as relações que se estabelecem entre o professor e o aluno pode aumentar ou diminuir seu interesse pelo saber.

A partir dessa perspectiva temos uma belíssima produção de Freud que trabalha esta questão aqui abordada. Freud (1914) em seu texto Algumas reflexões sobre a psicologia do Escolar, levanta a questão sobre a importância da relação professor aluno, questionando se o que exerce maior influência  para o educando é a disciplina estudada (conteúdo) ou a personalidade do professor: “(…) é difícil dizer se o que teve mais influência sobre nós e teve importância maior foi nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres. É verdade, no mínimo, que esta segunda preocupação constituía uma corrente oculta e constante em todos nós, e, para muitos, os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores. Alguns detiveram-se a meio caminho dessa estrada, e para uns poucos – porque não admitir outros tantos? – ela foi por causa disso definitivamente bloqueada” (Freud, 1914, v. XIII, p 286). Este artigo foi produzido pelo autor em decorrência do qüinquagésimo aniversário do Liceu onde estudou, e tem uma reflexão relevante para esta pesquisa. É curioso como Freud percebe que após muitos anos de sua saída da escola, ainda permanece estabelecida a maneira como construiu seus vínculos com os professores: “Será possível que os homens que costumavam representar para nós protótipos de adultos, sejam realmente tão pouco mais velhos que nós?”(Idem).

Embora Freud não tenha efetuado formulações diretas sobre a educação, uma análise de sua obra nos remete algumas vezes à palavra “educação”. A contribuição da Psicanálise mostra que as atitudes emocionais dos indivíduos para com outras pessoas que tem muita importância no âmbito emocional influenciam sobremaneira comportamentos posteriores. O que pode ser analogamente comparado com a relação existente entre professor e aluno. Ao deparar com esta colocação, podemos ter como possibilidade realizar uma investigação nos cursos de licenciaturas, procurando perceber o contexto e a influência das relações constituídas na vinculação professor-aluno. A escolha pelos cursos de licenciatura deu-se pelo fato de que os jovens estudantes serão também futuros profissionais da educação, e possivelmente estarão sujeitos as mesmas questões proporcionas pela relação professor-aluno.

Erik Erikson (1968), reflete que os agentes formadores vêm deixando aos meios de comunicação de massa a tarefa de mediadores da educação: “fascinados e absorvidos num mundo de invenções mecânicas e de poder de compra”, escapam à “formidável questão do novo significado das gerações num universo tecnológico”. E esta questão posta há tantos anos pelo autor ainda nos parece atual. Talvez porque se tratando desta relação entre educadores e educandos teremos sempre pontos a serem analisados.

Morgado (2002), considera que no ensino universitário, as formas dissimuladas de exercício abusivo da autoridade que seduzem o jovem estudante tem sua eficácia na negação sistemática de afetos originários inconscientes que concorrem para estruturar a relação pedagógica. Discute a sutil dimensão dos vínculos e movimentos afetivos que unem professor e aluno, na análise da relação pedagógica: “sempre me perguntei se, nesse movimento, não estaria sujeita a abusar de minha autoridade pedagógica, extrapolar os seus limites e atingir as raias do autoritarismo”. Continua sua colocação explicitando seu objeto de pesquisa: “interessava-me compreender o que caracteriza o abuso da autoridade pedagógica, na relação com o conhecimento e com o aluno, e qual seria a maneira de o docente evitar incorrer em tal abuso”.

Necessário se faz ressaltar a contribuição dos aspectos dos fenômenos pedagógicos destacados por Morgado (2002): a concepção de autoridade docente e a concepção de conhecimento.  Buscando fazer emergir aspetos que possam vincular a autoridade pedagógica e a sua possível relação com o saber do jovem-aluno.

A partir de conceitos e contribuições da Psicanálise, Morgado (2002) coloca que o contexto pedagógico contribui para que ocorra uma predisposição do aluno à transferência, definindo previamente quem ocupará o papel da autoridade e quem irá se submeter relembrando a relação original (entre pais e filhos). Na sala de aula o aluno revive este momento, transferindo para o professor todo amor e hostilidade dos quais anteriormente teve que abrir mão. Com isso o campo transferencial na relação pedagógica acaba trazendo duas conseqüências,  a reedição da relação original (inaugurando a relação) e por outro lado, essa mesma base psicológica pode dificultar a concretização dos objetivos: não ver o professor real. Para que a relação que irá ser estabelecida de certo, é preciso que no primeiro momento, onde ocorre a reedição da relação original haja a superação, transformando a sensualidade e hostilidade em curiosidade. Curiosidade que estará sendo canalizada para aquisição de conhecimento. Para a autora, uma das medidas que se pode ter é investir na formação do professor, para que o mesmo tenha consciência do que e como faz. O professor para cumprir seu papel enquanto tal, precisa considerar os sentimentos transferenciais, sem corresponder  à eles. Insistindo na tarefa de ensinar, canalizando as energias fixadas do aluno para atividade intelectual. O professor efetiva sua autoridade pedagógica quando rompe a dominação que a autoridade original exerce sobre ele e o aluno, sendo que a única maneira de fazê-lo é não atender a sedução de ocupar contratransferencialmente seu lugar.

É preciso esclarecer que a sedução na relação pedagógica não se deve ao campo transferencial e sim à maneira como esse campo se estrutura e se mantém. O ponto ideal, segundo a autora, é quando o professor aceita a transferência, mas não reage à ela, pondo o conhecimento como legitimador da autoridade pedagógica.

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Publicado em 03/09/2004 11:56:00

 

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