Recursos Humanos - Aprenda Com Quem Faz

A experiência de formação dos recursos humanos no Axé - Riccardo Cappi

A - Concepção

O Centro de Formação de Recursos Humanos e Assistência Técnica do Projeto Axé se estrutura formalmente como setor específico da instituição a partir de 1994, após 4 anos de existência do Projeto Axé. É pensado como resposta à exigência de capacitação permanente dos funcionários da instituição assim como de outras instituições, governamentais e não governamentais, visando à melhoria da qualidade do atendimento e da intervenção social, na área da Infância e Juventude em situação de exclusão social.

No limiar do século XXI, é impensável que ações nesta área não sejam fundamentadas nos aportes das ciências sociais, do ponto de vista tanto conceitual quanto metodológico. Isto significa dar toda importância ao momento da capacitação, como acontece em outras áreas de intervenção profissionalizada, visando sempre à possibilidade de articular o conteúdo formativo às práticas. Aliás, se pode dizer que as práticas têm que ser mobilizadas, utilizadas, (re)pensadas durante o momento de formação.

O momento formativo não quer simplesmente repassar conceitos ou metodologias. Para além do “saber” e do “saber fazer”, é importante dedicar um tempo ao “saber ser”. Não se trata aqui de indicar caminhos ou de se colocar como mestres, mas sim de abrir espaços onde se questione e verifique a própria postura, a própria posição ética e política, dado que todo educador põe um ato em si político, transformador da realidade social.

A formação é pensada à luz de princípios éticos e políticos (direitos humanos, cidadania, tolerância, igualdade, solidariedade) e científicos (conteúdos teóricos e metodologia das ciências humanas - sociologia, psicologia, direito, pedagogia, antropologia, economia, etc). Desta forma, se define menos pela transmissão/elaboração de saberes acabados do que pela elaboração de novas perguntas.

A formação possui dimensões diferentes e complementares:

* conhecimento recíproco

* convivência em grupo

* participação e debate

* transmissão de conceitos

* resgate das práticas

* expressão (de forma variada)

* relaxamento e ludicidade

As técnicas adotadas podem adotar formatos variados:

* exposição

* painéis

* levantamento de idéias

* debate

* apresentação de documentos: filmes, textos, pesquisas, obras de arte

* trabalhos de grupo com restituição em plenária

* oficinas de dramatização, artes plásticas, música

* produção coletiva de documentos

* dinâmicas de relaxamento, de (auto)conhecimento e de introdução ao tema

* momentos lúdicos e de criatividade espontânea

* animações e brincadeiras de grupo durante os intervalos, aberturas ou encerramentos

Funcionamento do programa de formação para profissionais do Axé

A programação da formação dos recursos humanos do Axé é feita em base anual. Ela se divide em três áreas diferenciadas e complementares:

1) Formação continuada para profissionais do Axé

Esta formação é de caráter mais teórico, tratando de assuntos de interesse geral. É ministrada para o conjunto dos funcionários da instituição em módulos de 20-40 horas cada um, sendo as turmas de 60 pessoas, no máximo. Durante um ano realizam-se 4-5 módulos. Os docentes têm perfil de tipo acadêmico, pertencendo a áreas diferentes. Os temas propostos para este ano foram:

- Direitos Humanos

- Administração e gerenciamento

- A questão do uso de drogas nas prática educativas

- A educação no Brasil

- O conceito de Análise da prática

- Educação e Trabalho

- Educação e Meio Ambiente

Este tipo de formação acontece durante o horário de trabalho dos funcionários.

2) Formação pontual ou específica realizada a partir de demandas internas

Este tipo de formação destina-se a grupos menores (15-30 pessoas), concentrando-se em aspectos da prática quotidiana dos educadores. As metodologias utilizadas são mais interativas e realiza-se a análise das práticas. Em alguns casos, a formação se realiza a partir da organização de grupos de trabalho. São estes momentos formativos que propiciam a integração dos conhecimentos teóricos e articulação com a vivência profissional. Os encontros são conduzidos por técnicos da instituição, mantendo a possibilidade de utilizar docentes externos.

Os temas tratados são ligados às demandas das unidades educativas e as formas de programação são variáveis, em geral de caráter mensal. Exemplos de temas:

- Normas e Sanções nas unidades

- Processo de alfabetização

- Teatro de bonecos

- Educação e sexualidade

Este tipo acontece também durante o horário de trabalho dos funcionários.

3) Formação organizada por outras instituições

O CF pode facilitar a participação de um funcionário numa formação organizada por outra instituição, a fim de permitir a melhoria de um aspecto do trabalho do profissional ou da unidade.

O CF é responsável pela seleção e a formação inicial dos profissionais que ingressam na instituição. Após um período de capacitação teórica, cuja duração varia de uma a três semanas, os novos funcionários começam a trabalhar com supervisão durante um período de três meses. Só após há contratação permanente.

O Centro de Formação conta igualmente com a possibilidade de fornecer informações atualizadas e documentação (livros, revistas, jornais, etc) através do Sistema de Biblioteca Capitães de Areia.

B - As parcerias

Os parceiros do CF na realização de suas atividades são de três tipos diferentes:

1. Os financiadores

A formação para funcionários do Axé recebe o apoio financeiros de instituições que acreditam neste modelo de desenvolvimento de recursos humanos. Foi o caso do BID, que permitiu a implantação do Centro de Formação durante os primeiros anos de seu funcionamento.

2. Os docentes

Os docentes pertencem, em geral, a instituições que, em certos casos, se constituem como parceiras. Neste sentido, é importante estreitar os laços com a Universidade, com outros Centros de Formação ou com outras organizações para trocar experiências e colaborar na formulação dos programas.

3. Os participantes

Nas atividades de formação para os funcionários do Axé são reservadas vagas para funcionários de instituições parceiras, como é o caso dos órgãos de atendimento da Prefeitura ou do Estado, assim como de outras ongs que trabalham com crianças e adolescentes.

C - A avaliação

A avaliação da formação realiza-se segundo as seguintes modalidades:

1. Avaliação da participação

Esta avaliação realiza-se essencialmente através de controle de freqüência, apreciação da qualidade da participação nos debates ou nas produções, quando solicitadas. Não existe uma avaliação sistemática dos conhecimentos adquiridos durante a formação, partindo da hipótese de que o profissional se compromete com a iniciativa. Prefere-se avaliar as mudanças no desempenho das tarefas no período posterior à formação.

2. Avaliação pelos participantes

Os participantes, após cada momento formativo, preenchem um questionário aberto para expressar-se sobre a qualidade da formação. Os itens avaliados são:

* a pertinência do conteúdo

* a clareza na condução dos trabalhos

* a adequação do tempo dedicado ao tema

* a pertinência da metodologia utilizada

* a qualidade da metodologia

* a possibilidade de participação

* os instrumentos utilizados

* o benefício da formação

* as lacunas que permanecem

A análise das respostas permite avaliar o trabalho do docente, assim como o nível de aceitação dos participantes e suas sugestões.

3. Avaliação coletiva

Esta avaliação realiza-se com os participantes, de forma oral, após cada módulo - e às vezes num momento intermediário - para obter um outro ponto de vista sobre o desempenho. Este momento revela-se de extrema importância para recolher indicações relativas a possíveis mudanças na programação. Permite também perceber o nível de envolvimento dos participantes, assim como o benefício subjetivo. Enfim, o docente ou o coordenador da formação pode partilhar com os participantes a sua própria avaliação do momento formativo.

4. Avaliação de impacto

Este tipo de avaliação realiza-se no conjunto do processo de avaliação das atividades do Axé, assim como nas avaliações individualizadas dos profissionais do Axé. Ela permite perceber em que medida o esforço de formação permitiu melhorar o desempenho individual e institucional. Neste sentido, são importantes os relatos dos responsáveis dos vários setores da instituição, assim como os pareceres dos profissionais.

De maneira indireta, avalia-se o impacto da formação na hora em que se solicita ao pessoal da instituição formular novas propostas de programação.

5. Avaliação externa

É realizada pelos órgãos financiadores ou por consultores externos contratados para analisar o desempenho do Centro de Formação.

D - Os resultados

Até o momento pode-se enumerar, de maneira não exaustiva, alguns resultados alcançados pela experiência de formação desenvolvida no Projeto Axé.

* A proposta de inserir de maneira permanente a formação na prática dos profissionais tem um elevado índice de aceitação. Esta parece constituir um ulterior estímulo para a motivação do profissional. Este resultado não se alcançou desde o primeiro momento, pois a formação podia ser percebida como algo separado e sem utilidade para o desenvolvimento das atividades.

* A formação tem melhorado o desempenho dos profissionais e sobretudo permitido um novo patamar de formulação de questões sobre o trabalho, tanto no sentido técnico quanto na postura ideológica.

* A instauração de uma prática de formação fundamentada na interação entre “formadores” e “formandos” tem propiciado a democratização da reflexão sobre os rumos da atividade institucional.

* Para os profissionais do Axé, a formação significa também a possibilidade de crescimento pessoal e profissional, que em muitos casos corresponde à melhoria da imagem de si e, em outros, constitui um estímulo para iniciar novos percursos formativos a nível pessoal. De qualquer forma, a valorização profissional traz igualmente vantagens do ponto de vista da carreira, tanto dentro quanto fora da instituição.

* O processo de formação tem sofrido transformações durante esses anos, no sentido de procurar formas sempre mais apropriadas de articulação entre prática e análise à luz dos conceitos. Isto nos permite pensar na possibilidade de sistematizar um campo de atividade - a educação de rua por exemplo - por definição complexo.

* A prática do Axé tem suscitado o interesse de outras instituições, contribuindo para a difusão da “cultura da formação permanente” numa área de atuação em que esta existe pouco. Ir além das boas intenções, fundamentando a própria intervenção e procurando ter uma avaliação mais precisa dos resultados alcançados, esta parece ter sido uma das convicções que o trabalho de formação tem difundido.

E - Perspectivas

* O trabalho do CF, apesar das transformações que veio sofrendo durante estes anos, precisa ser desenvolvido no sentido de maior sistematização dos métodos, tanto da formação em si quanto de coleta dos dados relativos à mesma.

* Uma das maiores dificuldades no trabalho formativo consiste na busca permanente da articulação entre teoria e prática. Para isto é necessário o contato permanente dos formadores com as práticas institucionais e com quem trabalha diretamente no campo. Por sua vez este pode e deve se tornar um elemento sempre mais importante do trabalho formativo

* Uma perspectiva é aquela de elaborar um programa de curso de longo prazo, destinado a profissionais, do Axé e de outras instituições, para capacitação de tipo para-universitário na área de intervenção social junto a crianças e adolescentes em situação de exclusão.

* Pretende-se igualmente reforçar a parceria com instituições de tipo universitário para aprofundar o caráter científico do nosso trabalho e, de outro lado, permitir a alimentação da academia com os conteúdos do nosso trabalho.

1 Estrela2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (Artigo sem votos)
Loading ... Loading ...


Deixe um comentario