O quanto somos éticos conosco e com os outros?
Todo mundo está em estado de negação a respeito de algo; tente negar isso e veja os amigos fazerem uma lista das coisas que você denega. Para Freud, a negação era uma defesa contra realidades externas que ameaçam o ego, e atualmente muitos psicólogos argumentam que a negação poderia ser uma defesa frente a notícias insuportáveis, como um diagnóstico de câncer, por exemplo.
No vocabulário moderno, dizer que alguém está “em estado de negação” é aplicar uma seqüência brutal de golpes: um soco na barriga por trapacear, beber ou apresentar um mal comportamento, e um sopapo na cabeça pela auto-ilusão covarde ao fingir que isso não é um problema.
Mas estudos recentes de áreas tão diversas como a psicologia e a antropologia sugerem que a capacidade de olhar para o lado oposto, embora seja potencialmente destrutiva, é também criticamente importante para criar e alimentar relacionamentos estreitos. Os artifícios psicológicos usados pelas
pessoas para ignorar problema em processo de agravamento nas suas próprias casas são os mesmos que elas necessitam para conviver com desonestidade e a traição humanas diárias, tanto delas quanto das outras pessoas. E, são essas capacidades altamente evoluídas, segundo sugerem as pesquisas, que proporcionam a base para o mais neutralizador dos pedidos humanos, o perdão.
Nesta visão emergente do problema, os cientistas sociais vêem a negação sob uma
ótica mais ampla - da desatenção benigna, ao reconhecimento passivo, à cegueira
voluntária -, por parte dos casais, grupos sociais e organizações, bem como dos
indivíduos. Alguns cientistas argumentam que ver a negação dessa maneira ajuda
a elucidar quando é de bom termo administrar uma pessoa ou situação pessoal
difícil, ou quando isso ameaça transformar-se em uma espécie de transe
infeccioso e silencioso capaz de fazer pessoas normalmente honestas tornarem-se
hipócritas.
“Quando mais atentamente se examina, mais claramente se observa que a
negação faz parte da difícil barganha que fazemos para sermos criaturas
sociais”, afirma Michael McCullough, psicólogo da Universidade de Miami e
autor do livro “Beyond Revenge: The Evolution of the Forgiveness
Instinct” (”Além da Vingança: A Evolução do Instinto de
Perdão”), que está prestes a ser lançado. “Nós realmente desejamos
ser pessoas moralmente corretas, mas o fato é que cortamos uns atalhos para
obtermos vantagens individuais, e nos apoiamos no espaço que a negação nos
confere para superarmos situações difíceis, para evitarmos as multas por excesso
de velocidade, e perdoarmos os outros por fazerem o mesmo”.
A capacidade de negação parece ter evoluído em parte para compensar a
hipersensibilidade dos primeiros humanos às violações da confiança. Em pequenos
grupos sociais, a identificação de mentirosos e de trapaceiros de duas faces
era uma questão de sobrevivência. Alguns boatos maliciosos poderiam significar
uma perda de status ou até mesmo a expulsão do grupo, o que equivaleria a uma
sentença de morte.
Em uma série de estudos recentes, uma equipe de pesquisadores liderada por
Peter H. Kim, da Universidade do Sul da Califórnia, e por Donald L. Ferrin, da
Universidade de Buffalo, e que agora está na Universidade de Administração de
Cingapura, fez com que grupos de estudantes de negócios avaliassem a confiabilidade
de um candidato a um emprego após serem informados de que o indivíduo cometeu
uma infração em um emprego anterior. Os participantes assistiam a um filme de
uma entrevista de emprego na qual o candidato se defrontava com o problema, e,
ou o negava, ou pedia desculpas.
Quando a infração era descrita como um erro e o candidato pedia desculpas, os
expectadores davam a ele o benefício da dúvida, e afirmavam que encarregariam o
indivíduo das responsabilidades do emprego. Mas se a infração fosse descrita
como uma fraude e a pessoa se desculpasse, a confiança dos avaliadores se
evaporava - e mesmo a prova de que ele não agira de má-fé não restaurava
inteiramente a confiança.
“Concluímos que existe um sistema distorcido de incentivos”, diz Kim.
“Se você é culpado de uma violação baseada na integridade e se desculpa,
isso lhe prejudica mais do que se você é desonesto e nega tal fato”.
O sistema é distorcido exatamente porque as pessoas nas quais confiamos e que
prezamos são imperfeitas, assim como todo mundo, não sendo nem de perto tão
moralmente íntegras ou confiáveis como esperam que os outros sejam. Se a
evidência quanto a isso não fosse suficientemente abundante no cotidiano, ela
despontou com destaque em um recente estudo liderado por Dan Ariely, economista
comportamental do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Ariely e dois colegas, Nina Mazar e On Amir, submeteram 326 estudantes a um
teste de conhecimentos gerais de múltipla escolha, prometendo a eles um
pagamento por cada questão correta. Os estudantes foram instruídos a transferir
as resposta, a fim de que estas fossem oficialmente compiladas, para um
formulário com bolas coloridas para cada uma das questões numeradas. Mas alguns
dos estudantes tiveram a oportunidade de trapacear: eles receberam formulários
de bolas nos quais as questões corretas apareciam, de forma aparentemente
acidental, em cor cinza. Comparados aos outros, modificaram cerca de 20% das
suas respostas, e um estudo de acompanhamento demonstrou que eles não tinham
consciência da magnitude da sua desonestidade.
“Concluímos que pessoas boas podem ser desonestas até aquele nível no qual
a consciência aflora”, diz Ariely, autor do livro “Predictably
Irrational: The Hidden Forces that Shape Our Decisions”
(”Previsivelmente Irracional: As Forças Ocultas que Modelam as Nossas
Decisões”), que deverá ser publicado no ano que vem. “Que
essencialmente somos capazes de enganar um pouco a nossa consciência e
cometermos pequenas transgressões sem acordarmos para o fato. Tudo isso passa
despercebido porque o indivíduo não está prestando muita atenção”.
É um erro subestimar o poder da simples atenção. Os psicólogos descobriram que
as pessoas podem ser intensamente conscientes daquilo no qual prestam atenção,
e notavelmente cegas em relação ao que desprezam. É verdade que na vida real a
negação casual de mal comportamento exige mais do que uma simples ginástica
mental, mas a desatenção é um primeiro ingrediente básico.
O segundo ingrediente, ou segundo nível, é o reconhecimento passivo, quando as
infrações são muito persistentes para passarem despercebidas. As pessoas criam
diversas maneiras de lidar indiretamente com tais problemas. Um franzir de
sobrancelhas, um meio sorriso ou um gesto com a cabeça podem significar ao
mesmo tempo “Eu vi isso” e “Deixarei isso passar”.
Há bons motivos para que o reconhecimento seja passivo: um confronto direto,
com um ente querido ou com o próprio indivíduo, traz o risco de provocar uma
grande ruptura ou uma mudança de vida que poderia ser mais temível do que a
transgressão. E, de forma mais freqüente do que se imagina, um gesto sutil pode
ser uma advertência suficiente para desencadear uma modificação de
comportamento, até mesmo do próprio indivíduo.
Em uma tentativa de calcular exatamente com que freqüência as pessoas fingem
não ver ou punem infrações cometidas dentro dos seus próprios grupos, uma
equipe de antropólogos do Novo México e de Vancouver fez uma simulação de um
jogo para medir graus de cooperação. Nesse jogo, os jogadores decidem se contribuem
para um fundo mútuo de investimento, e podem retirar um parceiro, se
acreditarem que a contribuição deste jogador é muito pequena. Os pesquisadores
descobriram que assim que os jogadores criaram um relacionamento de confiança
baseado em diversas interações - assim que, na verdade, os dois ingressaram no
mesmo grupo -, eles mostraram-se dispostos a desprezar quatro ou cinco
violações seguidas antes de retirar um colega do jogo. Já os desconhecidos
foram eliminados após uma única infração.
Usando um programa de computador, os antropólogos reproduziram a simulação no
decorrer de diversas gerações, na verdade acelerando o registro evolutivo para
essa sociedade de jogadores. E o índice de desprezo às violações se manteve. Ou
seja, esse padrão de comportamento perdoador definiu grupos estáveis que
maximizaram a sobrevivência e a aptidão evolucionária dos indivíduos.
“Existem muitas formas de se pensar a respeito disso”, diz o
principal autor, Daniel J. Hruschka, do Instituto de Santa Fé, um grupo de
pesquisa especializado em sistemas complexos. “Uma delas é imaginar que
você está se mudando e realmente necessita de ajuda, mas o seu amigo não
retorna a sua ligação. Bem, talvez ele esteja fora da cidade, e isso não é, de
jeito nenhum, uma deserção. A capacidade de desprezar as infrações ou de
perdoar é uma maneira de superar as vicissitudes da vida diária”.
Em nenhuma situação as pessoas utilizam mais as suas habilidades para a negação
do que com um cônjuge ou parceiro amoroso. Em uma série de estudos, Sandra Murray,
da Universidade de Buffalo, e John Holmes, da Universidade de Waterloo, em
Ontário, no Canadá, demonstraram que as pessoas freqüentemente idealizam os
seus parceiros, superestimando as suas virtudes e subestimando as suas
fraquezas.
Isso envolve tipicamente uma mistura de negação e trabalho de retoque - por
exemplo, vendo o ciúme como paixão, ou a teimosia como um forte senso de certo
e errado. Mas os estudos revelaram que parceiros que se idealizam mutuamente
dessa forma têm mais probabilidade de ficarem juntos e de afirmarem estar
satisfeitos no relacionamento do que aqueles que não agem dessa maneira.
“A evidência sugere que se você enxerga as outras pessoas dessa forma
idealizada, e as tratas de forma condizente com essa visão, elas também começam
a se enxergar da mesma maneira”, diz Murray. “Isso estimula tais
comportamentos mais positivos”.
Ao se depararem com a deslealdade, as pessoas que não têm disposição de
arriscar uma ruptura distorcem a sua percepção da realidade de forma mais
proposital. Uma forma comum de fazer tal coisa é rotular nítidas infrações
morais de erros, tropeços e lapsos de competência - porque estes são mais
toleráveis, afirma Kim, da Universidade do Sul da Califórnia. “De fato, as
pessoas remodelam a violação ética, passando a vê-la como uma violação de
competência”.
Essa remodelação ativa dos fatos, baseada nas mesmas ferramentas psicológicas
da desatenção e do reconhecimento passivo, é o ponto no qual o reaarranjo do
relacionamento pode começar a se transformar na proposital auto-ilusão do tipo
que assume vida própria. Todos sabem como é isso: você não pode falar a
respeito daquele caso amoroso, e não pode falar sobre não falar sobre ele.
Logo, você não pode falar sobre qualquer assunto remotamente relacionado
àquilo.
E as expectativas sociais não declaradas muitas vezes reforçam a conspiração,
não importa qual seja a sua fonte, afirma Eviatar Zerubavel, sociólogo da
Universidade Rutgers e autor do livro “The Elephant in the Room: Silence
and Denial in Everyday Life”.
“Tato, decoro, polidez, tabu - tudo isso limita aquilo que pode ser dito
nos domínios sociais”, afirma Zerubavel. “Nunca vi tato e tabu
discutido no mesmo contexto, mas um é apenas uma versão mais dura do outro, e
não está claro onde é que as pessoas traçam a linha entre as suas preocupações
particulares e esses limites sociais”.
Em suma, as normas sociais muitas vezes funcionam para reduzir o espaço no qual
uma conspiração do silêncio pode ser rompida: não no trabalho, não em público,
não na mesa de jantar, não aqui. É necessária uma crise externa para romper
essa negação, e ninguém precisa de um estudo psicológico para saber como isso
termina.
Fonte: The New York Times
Alberto Ruggiero
Categoria: Recursos Humanos
Enviar por email
Imprimir este Post
