Não é o fim do mundo, ainda
Riscos existem, de fato, mas com um pouco de bom senso, é possível que a Terra sobreviva. Por isso, nada de assustar as crianças, afinal, o futuro está nas mãos delas
As manchetes catastróficas, algumas até apocalípticas, sobreo aquecimento global e suas conseqüências, última moda nos meios de comunicação, provocam reações diferentes nos adultos e nas crianças e adolescentes. O estresse causado por essas informações é idêntico para todo mundo, de acordo com a psicopedagoga Irene Maluf, conselheira vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Mas quanto mais novo é o ser humano, menos recursos internos ele tem para distinguir o que é realidade e o que é fantasia.
“O problema é a hiperexposição da criança a essas cenas, pois elas fazem com que sofram inutilmente. É necessário que os adultos estejam alertas, para não deixar que isso cresça e se torne realmente uma grande angústia que pode vir a ocupar a cabeça de seus filhos, prejudicando, inclusive, o desenvolvimento e o aproveitamento escolar”, aconselha Irene. Segundo ela, a sensação de impotência pode ocasionar dois comportamentos diferentes: em um, a agressividade defensiva, que são os ataques de raiva; no outro, a criança se embute, ou seja, ela volta-se para si e pode ficar dessensibilizada com o que ocorre fora. “Ela não se vê como parte desse mundo que está morrendo.”
Até os 3 anos, a criança tem aquisições muito básicas sobre o mundo que a cerca. “A exploração dela é sensoriomotora. É uma época de desenvolvimento de uma consciência básica com a família. Ela não se preocupa porque está protegida. Embora tenha certa representação mental do mundo, tem uma autonomia mínima, pois depende muito dos outros. O seu pensamento é mágico”, observa a psicopedagoga. Como percebe a alteração emocional do adulto, ela começa a ficar angustiada, caso ele se deixe levar por essas notícias e passe a comentá-las com freqüência.
Por volta dos 5 ou 6 anos, começa a ter o princípio de reversibilidade; ela sabe que existe morte, mas ainda a associa com sono, perda de consciência, viagem. “Ela não fica aflita, por exemplo, ao assistir a morte de uma baleia, pensa que estão nascendo outras”, diz. Nessas circunstâncias, o adulto deve explicar as condições reais do que está ocorrendo, mostrar os limites da realidade. “Caso o adulto faça disso uma verdadeira apoteose, ou seja, vivencie essa coisa de fim de mundo, cai no outro extremo, o daquelas famílias que negam que isso exista, que não criam a criança no mundo real. É preciso prepará-la, dizer que os cientistas e os governos estão fazendo o possível para minimizar essas conseqüências, não exatamente iguais às dos programas de televisão”, salienta.
“Embora tenha certa representação mental do mundo, tem uma autonomia mínima, pois depende muito dos outros. O seu pensamento é mágico.” (Irene)
Entre 8 e 9 anos, já consegue diferenciar fantasia e realidade, uma vez que o pensamento mágico começa a sumir. Ela se empenha em campanhas em prol dos animais; acha um absurdo deixá-los morrer, porque eles deveriam falecer de velhice. “A criança acredita que a sua participação irá reverter em algo. Caso ela seja bem orientada pela escola e pela família, terá uma consciência social em relação ao meio ambiente”, afirma.
Segundo Irene, não se pode dizer que as crianças de hoje precisem menos dos pais. “O ser humano é o mesmo. Apesar de muitas saberem mexer no computador, continuam a ser uma criança frágil, carente de colo para saber que o seu gato morreu.” No entanto, se elas se tornam patrulhadoras do comportamento dos pais, está ocorrendo uma inversão de valores, pois são eles quem devem ser os cuidadores. “Muitos atribuem à escola a formação da criança sob o ponto de vista ético, mas isso não pode ocorrer, pois o pai e a mãe são as pessoas que a criança mais ama, respeita e confia. São com eles que ela conta em situações de risco ou dificuldades”, ressalta.
“Quando eles são mais velhos, começam a ter outro tipo de interesse e pensam ‘ah, em algum momento alguém vai fazer algo que reverterá essa situação´.” (Maria Emília)
Reação pró-ativa
Maria Emília de Faria Cavalcanti Vieira, professora de Ciências do Ensino Médio, do Colégio Santo Américo, e responsável por um projeto de educação e gestão ambiental da escola paulistana, comenta que as informações e imagens sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global têm assustado os alunos. “No ano passado, exibi parte do documentário ‘Uma Verdade Inconveniente’, protagonizado por Al Gore, que apresenta situações bastante críticas. Num primeiro impacto, acharam ameaçador; depois, quando discutimos o filme, perceberam que muitas dessas mudanças podem ser revertidas desde que as atitudes das pessoas mudem.”
A professora entende que os estudantes têm uma reação pró-ativa em relação à mudança de comportamento, como diminuir o gasto com papel ou água. “A mãe de um dos alunos revelou que o filho estava um verdadeiro chato em casa, pois fechava as torneiras, reclamava do gasto da água para lavar a calçada e o carro.” A educação ambiental nessa faixa etária é importante, segundo ela, porque consegue fazer eco. “Quando eles são mais velhos, começam a ter outro tipo de interesse e pensam ‘ah, em algum momento alguém vai fazer algo que reverterá essa situação’.”
Nas séries anteriores da escola, são desenvolvidas também atividades extracurriculares e são adotados livros paradidáticos que abordam a temática. Maria Emília informa que na pré-escola, por exemplo, são realizados trabalhos que enfocam o reaproveitamento de materiais. “As crianças participam de gincanas, ocasiões em que trazem um determinado número de latinhas. Elas são trocadas por algum tipo de material e, por meio dessa atividade lúdica, ficam sabendo quanto custa o quilo delas, e que esse material pode ser reaproveitado.”
Professora de Ciências do Ensino Fundamental, do Colégio Santa Maria, também de São Paulo, Márcia Almirall observa que a atual geração de alunos vive um momento atípico. “É uma situação nova não só para eles como para toda a população. Eles ouvem rádio e assistem a notícias e documentários pela tevê. Acabam tendo uma curiosidade maior em relação ao assunto e têm acesso a conceitos científicos, as causas e os efeitos, mas tudo isso ocasiona impacto. Eles ficam impressionados, e muitas vezes perguntam se o ser o humano vai acabar com o mundo.”
No Santa Maria, a temática permeia todas as séries, da educação infantil ao ensino médio. Cada série tem um projeto próprio que abarca questões sociais e ambientais. “A linha pedagógica do colégio é sociointeracionista; o conhecimento e a educação não se dá no individual, mas no coletivo”, diz a professora. Segundo ela, fora dos muros da escola, os alunos vêem o assunto de forma temerária, tanto que um aluno chorou ao dizer que a água de sua casa havia acabado. “Ele achou que não tinha mais água no planeta. Infelizmente, a questão é tratada de maneira alarmista ou sensacionalista. Claro que tomamos cuidado para dizer que existe um processo de reversão, e que todos os cidadãos podem ajudar.”
Márcia afirma que, nesse aspecto, as crianças são mais receptivas porque incorporam algumas práticas que os adultos não têm, como economia de água e de energia, e uma série de outras posturas. “Existe uma interferência maior das crianças nessa nova consciência ambiental. Acho que elas acabam conseguindo mobilizar mais a família do que os próprios pais. Elas têm uma capacidade grande para interferir no mundo sendo criança, como terão daqui a algum tempo quando se tornarem adultas”, acredita.
O colégio Santa Maria adota algumas medidas, como a não utilização de materiais descartáveis, copos plásticos, por exemplo; em todas as salas de aula há uma caixa para o descarte de papéis. Também realiza coleta seletiva, e o resíduo de jardinagem recolhido vai para a composteira; depois de processado, retorna ao jardim. “São pequenas atitudes que têm um sentido muito forte. Mostramos aos estudantes que existem alternativas. Podemos desfrutar de tecnologia, de conforto e ao mesmo tempo colaborar para que as coisas não percam o rumo”, conclui a professora. (M.A.)
fonte(revista Kalunga Julho 08)
Categoria: Meio Ambiente
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