A semente brotou?
“Aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros”. Gandhi
Após ler um artigo na internet intitulado “Ética e técnica? Dialogando com Marx, Spengler, Jünger, Heidegger e Jonas*“ escrito por Franz Josef Brüseke**, fui levado à reflexão sobre o nosso atual momento e as tendências que construímos. Não é difícil esbarrar em questionamentos metafísicos ao me perguntar se o Capitalismo não estaria enfim sendo modificado pela semente a qual carrega. A tal semente da destruição ao qual os críticos tantos falam, brotou e tomou forma de uma frondosa árvore?
Chegamos num ponto em que a natureza resente-se e interfere nos modelos econômicos, políticos e sociais. Não dá mais pra fechar os olhos.
Inspirado pelo texto de Brüseke, ouso dizer que nada é tão normal quanto à degradação. Alguns poderão já estar à procura das pedras para me alvejar, mas suspendam o fogo e respirem profundamente três vezes. O que direi agora, poderá ser entendido pelas mais diversas referências de cultura e valores. Os engenheiros têm a curva normal; os hindus têm Shiva, que com sua dança cósmica leva à destruição o universo que marca o fim de um dia de Brahman; os espiritualistas vêem como a opção que fazemos em detrimento da dor e não do amor; os cristãos verão como a punição necessária para a redenção e eu vejo, concordo e admito que se trata da Roda da Fortuna em ação. Uns momentos estamos em cima fazendo esforço para não descer e em outros estamos embaixo empregando todas as nossas forças para subir.
A humanidade viveu seus momentos “de glória” a partir do conhecimento da natureza, das suas leis, da descrição da “realidade”, em detrimento do conhecimento e da experiência. Bem, a formula de sucesso parece esgotada. Estamos para viver o verão mais quente de toda a história. As calotas estão derretendo em ritmo alucinante e nós consumimos pela primeira vez com receio. Consumimos os recursos com receio, não só os naturais, mas também os nossos próprios recursos pessoais e interpessoais. Nunca antes o ser humano virou-se tanto pra si, para o espaço desconhecido que é o seu ser. O utilitarismo está em xeque em detrimento da falta de tato que tivemos com o planeta e com nós mesmos. Consumimos desenfreadamente tudo e a todos; consumimos a nós mesmos no ambiente de trabalho; consumimos padrões de realização oferecidos pela economia e agora, o ser humano defronta-se com sua crise de auto-realização. Estamos esgotados, perdidos, confusos, sem saúde, estressados, desanimados e com o tesão alimentado por pílulas… As relações puras só são encontradas em abundância no interior, como um fóssil vivo ao qual assistimos pela janela da nossa tv em documentários que nos emocionam e que por vezes tornam-se a semente para a transformação que virá em seguida. Porque vivo assim?
Alguns de vocês já devem ter se perguntado também a essa altura deste artigo: e o que isso tem a ver com gestão?
Tudo cara-pálida, tudo. Esta última semana recebi uma singela e grandiosa mensagem que fecha com chave de ouro essa reflexão:
AUTOBIOGRAFIA EM CINCO CAPÍTULOS
1) Ando pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Eu caio
Estou perdido… Sem esperança. Não é culpa minha.
Levo uma eternidade para encontrar a saída.
2) Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada
Mas finjo não vê-lo. Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar. Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.
3) Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Vejo que ele ali está
Ainda assim caio… É um hábito. Meus olhos se abrem. Sei onde estou
É minha culpa. Saio imediatamente.
4) Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
5) Ando por outra rua.
Está no livro “O livro tibetano do viver e do morrer” de Sogyal Rinpoche
Ainda confuso? Questione-se em que capítulo você se encontra dentro desta autobiografia. Agora olhe a humanidade e o atual estado da sociedade, em que capítulo ela se encontra?
Os cinco capítulos desta autobiografia (a minha, a sua e de toda sociedade), nada mais é que a curva normal dos engenheiros, a dança de shiva. É o processo de transformação e mudança pelo qual todos passamos. Não importa se você é cético, ateu, agiota, pervertido ou que saiba falar a língua do Pê, os processos de ascensão e degradação são cíclicos e denotam evolução; cada um acontecendo ao mesmo tempo, em ritmos e períodos diferentes, mas todos encaixados entre si. Somos um sistema interdependente, a autopoiesis***. As relações que temos com nós mesmos nas facetas de nossas vidas e com os outros, o ambiente em que estamos inseridos, moldam o contexto sistêmico que entendemos como realidade.
“Caramba, ainda estou confuso!?.
Ok, ok… Entenda da seguinte forma: se você cai no buraco, a princípio pode ser por falta de conhecimento, mas quando cai repetidas vezes, é por qual razão que continua a cair? Porque não muda?
Se você é gestor e lamenta suas dificuldades, é por falta de conhecimento? Talvez esteja querendo jogar as pedras no seu diploma obtido em Harvard, mas fique calmo, pois não vai ajudar nada na sua crise. Preste atenção, você está no buraco, reconheça isso e tome ATITUDE.
Atitude é o que falta para que cada um de nós transformemos a nossa realidade ao nosso redor. Essa consciência se propaga como ondas num lago quando atiramos uma pedra.
Tome atitude! Dê o próximo passo!
Vá para o quinto capítulo da sua autobiografia (a sociedade agradece!) pois o seu conhecimento por si só (entenda isso na proporção individual e coletiva) não é mais suficiente.
Precisamos de atitude para mudar nossa realidade por trás da gravata, por trás da mesa, por trás dos portões da nossa empresa, por trás das notícias dos jornais.
*Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2005000200003&script=sci_arttext&tlng=pt
** Franz Josef Brüseke, dr.phil. pela Universidade de Münster, Alemanha; leciona sociologia na Universidade Federal de Santa Catarina; publicou na Alemanha os livros: Blätter von Unten (em co-autoria com Grosse-Oetringhaus, Offenbach: Verlag 2000, 1981) e Chaos und Ordnung im Prozess der Industrialisierung (Hamburg/Münster: LIT, 1991). Em língua portuguesa publicou: A Lógica da Decadência (Belém: CEJUP, 1996) e A Técnica e os Riscos da Modernidade (Florianópolis: EDUFSC, 2001), além de vários artigos, em revistas especializadas, sobre a técnica moderna e suas relações com a sociedade contemporânea. Atualmente coordena o Núcleo de Pesquisa: Sociedade, Ciência e Técnica, na UFSC. Homepage: www.socitec.pro.br bruseke@brturbo.com.br
*** autopoiesis: autocriação, o que define a essência dos sistemas vivos, segundo Humberto Maturana e Francisco Varela.
Jason Sagara
Categoria: Motivação
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