Nasci cercada de fadas

Por: Ana Lucia de Mattos Santa Isabel
Nasci há 54 anos, a dezessete de agosto de 1954, cercada de anjos e fadas. Minha mãe era uma menina. Dezessete anos. Geny se chama. Ainda é uma menina. Nasci na casa de meus avós paternos, em cama e quarto de muitas histórias. Janela voltada para o nascente. Me ajudaram a chegar as avós, Inah e Nati; minha tia-avó Guiomar, chamada Guima , responsável por meu nome. E mais outras mulheres de infinita sabedoria e bondade.
Tive até mãe de leite. De nome Geny também, tia de meu pai. Nobre estirpe do coração.
Lá fora, todos os sons. Pássaros, galinhas, galinholas, vento nas ramas dos imemoriais pés de carambola. Sempre estiveram lá. Devem ter nascido com o mundo.
Lá fora, todas as luzes da manhã que nascia. Um assombro.
Os primeiros meses forma vividos nesta casa. Sobrado antigo de marcas e histórias em cada parede e móvel. A sombra da caramboleira maior cuidava meu sono de bebê. Arrumadinha em macios panos, deitadinha em bacia . É provável que alguma fada das árvores me sussurrasse histórias. Nas fotos que tenho minha cara é de deleites.
Meu pai levou-nos pro Rio. Lá cresci, aprendiz de viver. Tive mestres capazes e generosos. Se não aprendi as lições necessárias, o fato deve-se a minha consumada, enorme, quase irrevogável ignorância.
Na minha infância, faziam-se bolos, doces em casa. Roupas também. Hoje, acordei lembrando de um bolo inesquecível feito em aniversário, não sei se de sete ou oito anos. Foi feito por minha mãe e minha avó. Era um bolo redondo, representava um jardim. A grama era feita de coco pintadinho de anilina verde. O ponto alto deste bolo era um pocinho de chocolate , com baldinho feito de papel de cigarro. Junto ao poço, uma bonequinha de plástico, com roupinha linda, feita à mão por vovó. Muitas vezes, me refugio naquele bolo.
Não sei se neste aniversário ou em outro, pois as memórias teimam em misturar-se, ganhei destas duas encantadas criaturas um casaquinho de lã verde com gola de veludo azul. Sempre fui muito friorenta. Mesmo no Rio, sentia frio. O casaquinho era tão quentinho, macio, protetor. Sentia-me bela nele. Mais que isto, sabia-me protegida nele. Proteção imorredoura de amor.
Achava que todas as meninas da rua queriam a sorte de tê-lo. Mas elas não tinham um casaco como o meu. Não tinham uma avó como a minha. Não tinham uma mãe como a minha. Não eram parentes de fadas.
Minha mãe chora quando desencavo estas lembranças. Eu também. Choro bom, agradecido. Minha Avó Inah, não sei, anda por longes lugares, mas acho que sorri e me abençoa como sempre fez.
Nasci cercada de fadas. Ensinaram-me a bondade, a inocência primordial. Dotes estes muito necessários em meu ofício.
Beijos comemorativos, Aninha, fada peregrina
Categoria: Amor, Esperança, Felicidade, Sonhos
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