Desencontros

Ritinha acordou com um gosto amargo na boca. A cabeça doía de maneira muito diferente do comum, era uma dorzinha chata, insistente. Era como se fosse um pressentimento de coisas ruins que deveriam acontecer.
Mas, porque ela estava assim?

Um desânimo, uma vontade de ficar na cama e não levantar. Justo ela que é tão elétrica e despachada. Apesar de ser bem jovem, tinha um emprego invejável, um namorado que parecia mais um “deus grego” que a amava loucamente e com planos de casamento. Já tinha o seu apartamento que pagava com relativa tranqüilidade, e terminaria a sua pós-graduação nesse ano. O que mais ela poderia desejar?
Ritinha era feliz, e sabia ser agradecida, por isso era a melhor amiga dos amigos, conselheira e “ombro amigo” para todas as horas.

Mas, naquele dia, Ritinha estava “maus” e resolveu se vestir da melhor maneira possível e partir para o seu “elevador natural de auto-estima”, que era uma obra bem na esquina da sua casa. Quando ela passava pelas manhãs a “peãozada” assoviava e mandava aqueles “torpedos”:
-Linda!
-Maravilhosa
-Você é a nora que minha mãe sempre pediu!
Isso levanta a moral de qualquer mulher…

Então a Ritinha tomou um belo banho, vestiu um terninho cinza claro, discreto e elegante, mas que não escondia as suas belas formas, uma sandália com um salto muito alto completou o conjunto. Olhando-se no espelho ela sorriu. Estava na hora de “largar a tristeza que não lhe pertencia”.

Ao passar pela obra, e já esperando a chuva de galanteios e assovios, Ritinha nem imaginava que a peãozada estava reunida em uma sala com um dirigente sindical discutindo a greve.
Conclusão, ela passou e não ouviu nada. Ficou arrasada, e preocupada com os seus pensamentos mais sombrios.
-Nossa! Será que eu estou assim tão mal? Nenhum assovio?

Na próxima esquina ela viu a Sílvia, sua melhor amiga saindo de uma loja, foi em sua direção, sem saber que a Sílvia acabara de dilatar a vista, e não estava enxergando nada. Apoiava-se na mãe para poder chegar até o carro onde o pai a esperava. Nem viu a amiga. Alias, não viu nada…
A Ritinha não entendeu nada! Primeiro os peões que não assoviaram, agora a sua melhor amiga finge que não a vê? Meu Deus, que será que eu tenho?
O que mais falta me acontecer?
Apressada e preocupada, vira a esquina e vê o seu namorado do outro lado da rua. Lindo como sempre, Carlos estava atravessando apressado para pegar a sua irmã que não via há mais de 15 anos e que estava na casa da sua tia. Ele não via a hora de apresentar a sua irmã para o seu amor, a Ritinha.
Ritinha do outro lado da rua, estranha o fato do namorado estar ali naquela hora, pois ele trabalha do outro lado da cidade. parou, encostou na parede e ficou observando.
Carlos toca a campainha da casa da tia e espera a sua irmã querida que aparece correndo em sua direção. Puxa! Como ela cresceu, está uma moça e muito bonita!
Abraçou a irmã, beijou, brincou com seus cabelos e saíram abraçados em direção ao seu carro. Do outro lado da rua, a Ritinha sentia as pernas fraquejarem e grossas lágrimas teimavam em sair dos seus olhos.
Meu Deus! Meu namorado está me traindo…e com uma menina linda!
O que falta me acontecer meu Deus! Será castigo?

Ritinha faz um esforço para continuar seu caminho. Precisava chegar ao trabalho. Aquele emprego era toda a sua estabilidade e vida. Seus pensamentos estavam confusos. Sentia-se triste e humilhada. Primeiro a peãozada que sempre fazia festa quando ela passava e hoje nem ligou. Depois a sua melhor amiga que passou por ela e fingiu que não a viu, e para terminar, essa facada: o seu grande amor tinha outra!

Pensando assim, ela chegou, sabe-se lá como, ao seu local de trabalho. Um arrepio passou pelo seu corpo ao cruzar a portaria. Será que vem mais coisa ruim por ai?
Cumprimentou a turma sem muito ânimo e seguiu para a sua mesa. Sobre a mesa um bilhete anotado pela secretária:
- Rita: compareça ao RH com urgência!

Seu mundo começou a girar, a cabeça latejando, os piores pensamentos começam a passar pela sua mente. Ela vai ser despedida. Justo agora que ela pensava em comprar um carro, e pior, estava pagando o apartamento.
As mãos tremiam e suavam. Suas pernas mal obedeciam, e ela seguia para o RH como quem segue para o cadafalso e para a execução…
Parecia que todos podiam ouvir o seu coração, de tão forte que ele batia. Tum…tum. tumtumtumtum….

Chegou no RH e sem conseguir falar nada, sentou-se diante do diretor da área e antes que ele falasse qualquer coisa, desabou num choro sentido, dolorido, angustiado.
O Silveira, diretor do RH ficou emocionado, era a primeira vez que ele via alguém chorar de emoção por uma promoção. Mas a Ritinha merecia, eita moça competente..
Vou esperar ela parar de chorar para contar o aumento especial que ela vai receber…

Gaefke

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