Direção defensiva: uma visão distorcida

Depois que tirei minha carta, mais ou menos uns dez anos atrás, ainda sentia muito medo de dirigir. Não tinha carro próprio, e isso me afastava cada vez mais da segurança que todo motorista deve ter ao assumir o volante. Somente uns dois anos depois da tão sonhada carteira de motorista nas mãos é que consegui ter meu primeiro carro e perder o medo de dirigir. Afinal, mesmo com o risco que o trânsito por si só apresenta, ao menos eu me sentia tranqüila por saber que, diante de qualquer incidente, não comprometeria um bem que não era meu.

 

Naquela época (há uns dez anos, como já disse), os problemas do trânsito já era um assunto bastante discutido. E mesmo que, antes disso, eu não soubesse definir exatamente a tão falada “direção defensiva”, eu sabia, no fundo, o que isso significava, pois via amadurecer em mim a importância de “dirigir pelos outros e por mim mesmo”.

 

Creio, aliás, que ensinar o conceito dessa expressão, “direção defensiva”, não é uma função apenas das auto-escolas, dos livrinhos e dos órgãos de trânsito. Direção defensiva  pode ser ensinada desde o berço. Se você não pensar em regras de trânsito, pode entender essa expressão através de outros sinônimos: respeito ao próximo, civilidade, equilíbrio e até mesmo amor à vida. Portanto, todo ser humano que aprende o que é direção defensiva, não precisa necessariamente se tornar um motorista. Todos que realmente aprendem o que é direção defensiva vivem melhor.

 

Não é possível identificar exatamente quem são, o que fazem, quais as metas, sonhos e objetivos dos milhares de motoristas, motociclistas, caminhoneiros e carreteiros que circulam pelas ruas. São muitos – no mínimo 6 milhões, só em São Paulo (que, aliás, nem podem pensar na possibilidade de sair ao mesmo tempo pelas ruas!).

A confusão e a concentração de veículos é um pouco maior em alguns pontos. Um semáforo quebrado pode colaborar – e muito – para piorar ainda mais a situação. E quando um carro quebra, então… é preciso apelar para a paciência que alguns, infelizmente, não tem.

 

Pois é… essa paciência, primordial no dia-a-dia do trânsito de São Paulo e de outras grandes capitais do país, é tão pequena, mas tão pequena, que é capaz até de se perder no próprio bolso. A buzina ensurdecedora tornou-se o grito de alerta dos seres impacientes, aflitos, ansiosos por se livrar deste caos.

 

Aliás, se você não sabe, ouça bem enquanto pode: uma floresta, por exemplo, emite o ruído de cerca de 18dB (decibéis). Imagine só que maravilha seria se, desde o registro da fabricação do primeiro veículo do mundo, em 1886, tivesse se pensado em colocar o som da Floresta Amazônica nos veículos para servir de alerta ao companheiro de estrada, ao invés da conhecida ensurdecedora buzina, que tem cerca de 110 dB! Perdemos, lá trás, a oportunidade de ver hoje nossas “Selvas de Pedra” um pouco mais harmoniosas…

 

Enfrentar congestionamento, ouvindo milhares de buzinas – agudas, estridentes, cheias de efeitos e algumas até com uns palavrões – sonhando com a sensação de paz de uma floresta, mas que pode ser simplesmente do nosso lar. Motoristas, caminhoneiros, carreteiros, kombeiros, se amontoam e se espremem por milhares de vias, torcendo pra conseguir ao menos trocar de marcha; motoqueiros – que eu, particularmente, classifico mais apropriadamente como “baderneiros” - se espremem, se arriscam em manobras perigosas e não pensam duas vezes em chutar o carro, quebrar retrovisores e soltar o verbo para defender, sem razão, um espaço que não é só deles; pessoas, a pé, nos ônibus e no metrô, fazendo parte desta selva, assistem a tudo – mas não de camarote – também a passos lentos.

 

Essa é a minha cidade. Esta pode ser a sua cidade, o seu país. Este é a Modernidade que o Homem conquistou e que não pode parar, mas já parou… no trânsito.

(Renata Leite)

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