O professor de sonhos
FERNANDO DOLABELA: Sim. É possível incentivar os alunos a sonhar e ajudá-los a realizar seus sonhos usando a metodologia do empreendedorismo, a base da metodologia que criei. O empreendedor nada mais é do que alguém que sonha e busca realizar seus sonhos. Simples na definição, difícil na prática.
FD: Porque as pessoas não exercitam e a sociedade não estimula isso. Quer um exemplo? Quando criança, alguém perguntava qual era o seu sonho? Provavelmente não. Nós não perguntamos isso aos outros nem a nós mesmos. Professores, pais, líderes religiosos, políticos, ninguém pergunta. Cada um por uma razão. Mas todos têm a sensação de que sonhar é perigoso, é uma ameaça.
FD: A mãe educa o filho para adequá-lo a um modelo de sucesso. A escola educa para formar pessoas que produzam no sistema já existente, mão-de-obra que não contesta nem é dona de si. E os líderes intuem que uma sociedade que sabe o que quer, que conhece seus sonhos, é líder de si mesma, não se submete a qualquer poder passivamente. A ameaça é justamente esta: quem sonha sabe o que quer, não segue modelos, conquista seu caminho. Como contraponto, ser empreendedor é construir a própria liberdade, ser protagonista da vida.
FD: A metodologia está baseada em dois eixos (duas perguntas básicas) e quatro elementos de suporte. As perguntas são: “Qual é o seu sonho?” e “quais são os caminhos que você pode construir para realizá-lo?”. Em relação à primeira, a criança é provocada a pensar em seu futuro e a verificar se seu desejo é factível. Por exemplo, criar baleias na Lua não parece exeqüível. Em relação à segunda pergunta, o aluno irá formar sua resposta certo de que apenas ele pode formulá-la. Isso é muito bom porque a criança aprende a ser autora das próprias histórias.
FD: São aspectos que ajudarão os alunos a encontrar respostas. Vou listá-los: desenvolver a auto-estima, aumentar a rede de contato para conhecer pessoas que possam auxiliá-los a chegar aonde querem, conhecer a área relacionada a seu sonho e desenvolver a liderança (como uma forma de comunicar o próprio sonho e envolver as pessoas nisso).
FD: Vamos imaginar que o sonho de uma menina de 4 anos seja confeccionar sua boneca. Ela, então, se lembra de que a avó sabe costurar e que a tia sabe pintar. A avó pode ajudá-la a fazer a roupinha da boneca e a tia a pintar o rostinho. Com isso, o aluno aprende que as pessoas são fontes de informação, não só os livros.
BF: Quais são os resultados?
FD: A transformação é incrível e começa pelas professoras, que passam a exercer a profissão com mais amor. Em relação às crianças, eu diria que todas aprendem a conceber o próprio futuro, cientes do que elas são e do que querem. Adquirem nova perspectiva de inserção social, mais participativa, desenvolvem o senso de autonomia e o espírito de solidariedade. Nas aulas, as professoras costumam perguntar para os alunos o que eles desejam para a comunidade na qual vivem e como podem ajudar a melhorar a condição de vida do lugar. As crianças comprovam que é mais fácil se realizar quando se sonha junto. Por fim, elas saem mais preparadas para essa nova sociedade.
BF: Quais são os valores dessa nova sociedade?
FD: A minha geração foi criada para viver num mundo previsível, com baixa tolerância à mudança. Muitas escolas ainda educam para esse mundo que não existe mais. Hoje os valores são a criatividade e a capacidade de trafegar no desconhecido e de lidar com o instável. Na era da velocidade, a mudança constante é a estabilidade. Isso tem tudo a ver com o processo de realizar sonhos, que é sempre um destino desconhecido.
Categoria: Esperança, Motivação, Vencer
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