Porta aberta

(por Alexandre Pelegi)

Você deixa a porta de sua casa aberta. Foi um descuido. Você sabe que pela rua onde mora passam pessoas de toda espécie – desonestos de várias gradações, como também gente de boa índole, em que a honestidade é regra básica de conduta. Se a primeira pessoa que passar for do tipo das que agem de má-fé, sua casa será no mínimo assaltada. No caso oposto, uma pessoa de boa índole trancará a porta para você e ainda dará um jeito de avisá-lo.

No primeiro caso talvez você se considere um azarado. No segundo caso, alguém de muita sorte.

Um matemático diria que podemos olhar esta situação pelo ângulo rigorosamente estatístico. As chances de uma das duas situações ocorrer dependerá de uma série de variáveis e a sorte nada terá a ver com isso, tampouco seu oposto, o azar.

A grande verdade está num simples e comezinho fato: você deixou a droga da porta aberta, gesto que por si convida ao roubo e à invasão. Qualquer explicação posterior, convenhamos, não passa de desculpa esfarrapada para um erro que você cometeu.

Tem gente que deixa a porta aberta, tem sua casa invadida e depois se queixa do governo, que não investe o suficiente em segurança pública. Tem gente que usa a conseqüência ruim de seu gesto para reforçar a descrença na humanidade. Mas nada disso aconteceria se você tivesse se lembrado de fechar o raio da porta, não é mesmo? Ou se não tivesse votado de olhos fechados, ou se interferisse mais na qualidade da educação que é oferecida a seu filho…

Um monge budista diria que uma das causas de tantos sofrimentos humanos está justamente em não se reconhecer nos próprios atos. Ou, trocando em miúdos, sofremos pelas conseqüências daquilo que fazemos, e apesar disso preferimos culpar a sorte a mudar a forma como vivemos.  Eduardo Galeano já dizia: a culpa do crime nunca é do punhal. Nem da porta aberta…

Tenho visto muita gente que se recusa a admitir seus erros. Gente que prefere manter-se descuidado e omisso. Para eles, os erros dos outros são os grandes culpados pelos males do mundo. Para essa postura, há um nome bem conhecido: egoísmo. Cuidado com gente assim. Elas fazem mal a você e ao país.

fonte: www.primeiroprograma.com.br

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