Fênix


Vivo criando metas para mim mesmo. Foi assim quando resolvi me dedicar ao
projeto de ser escritor. Até então eu era jornalista, tinha um ótimo emprego
e grandes chances na carreira. Mas meu sonho era escrever romances, teatro,
novelas! O projeto era adiado continuamente, à espera de uma situação ideal.
Sou de família humilde. Cresci com medo de ficar sem dinheiro. De ter de
economizar no litro de leite, como ocorreu na minha adolescência! Queria
armazenar uma poupança para me garantir. Comprar um apartamento. Tudo antes
de me dedicar a meu sonho! O tempo passava. Nunca juntava a quantia ideal.
Meu pai aconselhava:
- Tome cuidado. Tenha um emprego fixo.
Certa noite, eu trabalhava até mais tarde. A redação estava uma loucura, com
mudanças de última hora. De repente, eu parei. Olhei para todo mundo no
vaivém. E disse a mim mesmo:
- Se eu dedicasse todo esse esforço a meu projeto pessoal, ia acabar dando
certo!
Terminei o trabalho de madrugada. Fui dormir. No dia seguinte fingi que
estava doente. Fiquei em casa pensando. No outro pedi demissão. Tive vários
empregos depois, porque a necessidade bateu à porta inúmeras vezes. Mas meu
projeto de ser escritor tornou-se o principal. Deixava de ir a festas. No
fim de semana, me trancava escrevendo. Confesso: ao reler muitos daqueles
primeiros textos, me envergonho. Eram muito ruins! Ainda bem que não
procurei ninguém para avaliar meu talento! Teria desistido! Tanto que,
atualmente, se me perguntam o que é preciso para ser escritor, respondo:
- Teimosia! De todos os meus amigos que pretendiam escrever, nunca fui o
melhor. Só o mais teimoso!
Ainda encontro antigos amigos falando de seus projetos, sempre adiados!
Tenho orgulho de viver como escritor. Não acho melhor ou pior do que médico,
advogado, jornalista, comerciante, corretor de imóveis, agricultor ou
feirante. É melhor para mim, por ser o que eu mais desejava!
Em outros projetos não tive tanta persistência, como perder a barriga. Entra
ano, sai ano, e prometo fazer exercícios. Não chafurdar em bolos de
chocolate. Ultimamente até perdi alguns quilos, aterrorizado pelo veredicto
de um médico:
- Seu tipo de barriga é o pior. Leva a uma série de problemas: hipertensão,
diabetes… Tem de sumir com ela!
Ah, que luta árdua!
Agora, na passagem do ano, a gente se enche de boas intenções. Promete isso,
promete aquilo. Toma resoluções que depois serão guardadas numa caixinha,
até o próximo réveillon. Talvez fosse melhor se concentrar em poucos
objetivos. E tentar cumpri-los ao máximo! Outro dia, ouvi a seguinte frase
em um filme: “Quem não luta por suas metas vive à base de acidentes”. Achei
o máximo. A vida acaba se resolvendo em função de golpes de mais ou menos
sorte, de acontecimentos fortuitos. E a pessoa reclama:
- Nada dá certo!
Lembro da lenda de Fênix, o pássaro que queima, mas ressurge das próprias
cinzas. Muitas vezes eu tive de abandonar coisas de que gostava para seguir
meu caminho. E continuo assim. Sempre surgem novos projetos, novas histórias
pessoais. Todos nós temos algo de Fênix. É possível se consumir nas próprias
cinzas para criar uma nova vida! E nem é tão terrível como a imagem possa
parecer. A Fênix retorna como Fênix, com sua identidade preservada e as asas
estalando de novas. É assim que eu vejo a passagem do ano: um momento
simbólico em que a gente pensa em metas, projetos, em tudo o que quer mudar!
Pode ser mais fácil ou difícil. Mas também é a chance de renascer e, como a
Fênix, empreender longos vôos!

Walcyr Carrasco

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