Guga: Da Bolinha, Um Bolão
É como se estivesse começando, um saque direto na História. Uma alegria por fora de uma dor macia escondida no dorso do atleta. As manobras da raquete não lembravam uma despedida, embora soubéssemos que justamente onde uma rede divide o nosso lado do adversário, uma página estava se fechando, outra se abrindo. Naquele saibro não ficara só um coração desenhado nem as conquistas de um menino despachado, ágil e esguio que fizera com que as torres gêmeas da ponte Hercílio Luz, de Florianópolis, ficassem ao lado torre Eifel, em Paris. Esse triplo pódium nos engalanará para sempre. Não será uma lembrança fugaz. Ao contrário. Agora, na última partida, não nos importava saber se subiria ao contra-ataque ou daria um voleio com a esquerda poderosa. O que merecia ser visto era a síntese de um ser humano que vencera com a bolinha no País da Bola. Guga descobrira o segredo de seus contornos e enleios, seus atalhos e investidas e com ela formou uma dupla incomum no mundo do tênis. E o palco ideal para essa revelação se tornou uma quadra de saibro. A quadra de Roland Garros.
A página que se abriu expõe o primeiro “ace” de nossas saudades. Mas não está em branco, para ser preenchida. Não, amigo. Sem perceber, Guga se tornou um mestre de lições altruísticas, graças a sua simplicidade e a capacidade de lidar com a fama, sem ser vencido por ela. Suas atitudes como atleta e campeão, seu comportamento íntegro como cidadão e “manezinho”, saíram das quadras e alcançaram os corações dos que se miraram no seu estilo descontraído mas, não menos exigente com resultados. Por isso, sua tentativa de resgatar a forma física sufocada pela contusão, reforçou a sua persistência e competência. Ou seja, mesmo sem figurar no ranking ele ali permanece. Não há como tirá-lo. É o lugar onde se estabelecem para sempre os que têm determinação e são capazes de serem heróis de carne e osso, suscetíveis às lágrimas e ao sorriso, os heróis que respeitam sua gente e que sabem construir e servir ao seu povo. Esses heróis estão muito além do que eles próprios imaginam.
Silvio Luzardo
Categoria: Pessoal
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