Uma Estrada De Duas Mãos

Colocar valor em seu trabalho ou aceitar um elogio pelo seu desempenho. Fácil? Nem tanto. Pequenas demonstrações de afeto, de generosidade e de reconhecimento passam pelo exercício de dois verbos: dar e receber. Para começar, receba este texto. Ele é dedicado a você.


Carla Aranha

Dar e receber é uma via de mão dupla. A afirmação parece óbvia, mas a verdade é que nos esquecemos dela a todo instante. E isso acontece nas pequenas coisas. Sabe aquele amigo que sempre tem um ombro para as pessoas? Há quanto tempo você não liga para ele? E qual foi a última vez que disse a alguém especial o quanto gosta dele? São pequenas gentilezas que andam em baixa atualmente. Receber também entra para o quesito das dificuldades diárias: é complicado estabelecer um preço pelo seu trabalho - para os que são autônomos - ou aceitar um elogio e um agradecimento. Afinal, por que nós, brasileiros, que nos consideramos hospitaleiros e afetuosos, temos dificuldade, aqui ou ali, com as relações de troca?
Conseguir exercitar o dar e o receber é a essência da convivência. “A reciprocidade nas relações, em que eu faço e você retribui de alguma maneira, foi um elemento que estruturou a sociedade, portanto é algo fundamental para o homem”, diz a antropóloga Livia Barbosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nas sociedades antigas, existiam até rituais para enfatizar a importância de saber dar. Alguns deles sobreviveram em lugares como as ilhas Trobiand, na Nova Guiné. Ali, todo ano, um grupo de nativos sai de barco, sem levar mantimentos e roupas, para passar alguns dias na casa de conhecidos que moram em ilhas mais distantes. Eles chegam sem avisar e quem os recebe deve oferecer não só comida, cama e roupas mas também carinho e afeto. Ao ir embora, os hóspedes ainda ganham objetos de grande valor sentimental, como braceletes e colares que pertenceram a pessoas queridas da comunidade. No ano seguinte, quem deu recebe.

SERÁ QUE EU MEREÇO ISSO?

Receber vem do latim recipere, que originalmente tinha o sentido de “tomar algo que por direito pertence a outro”. “Se eu dei, tenho que receber”, diz o filósofo Jean Bar toli. Não há mal nisso. As relações são feitas de troca. “Você ama e quer ser amado, dá e quer receber. É simples”, diz o psicólogo social Bernardo Jablonski. Mas, se por vezes é difícil dar, receber também pode ser uma arte que nem todos dominam.
A dificuldade em ouvir algo bom a seu respeito ou ganhar uma coisa valiosa pode esconder a baixa auto-estima porque a pessoa não acredita ser merecedora disso. Mas, atenção, a dificuldade em ser elogiado pode esconder, por vezes, um certo grau de arrogância – funciona assim para o elogiado: quem elogia não está a sua altura. Desse jogo ainda não se pode descartar o medo de ter, afinal, que retribuir.
Mas não há como negar: o exercício do receber é necessário. Olhar para dentro de si pode ser uma das maneiras de enxergar qualidades perceptíveis aos outros. É algo para ser feito diariamente, que começa com alguns questionamentos. Não custa se perguntar o motivo de enrubescer e ficar sem palavras quando ouve um elogio. Se alguém disse que você está bonito ou que a sua companhia é agradável, por que acreditar? Não custa lembrar também que, quanto mais você aceita receber, mais terá a dar. “É assim que se formam os ciclos do bem, que fazem a todos mais felizes”, diz a monja Coen, da Comunidade Zen Budista, de São Paulo.

A MEDIDA DAS COISAS

Se existe um dado que caracteriza a sociedade desde a Revolução Industrial, é a mania de mensurar tudo. Inclui-se aí a tendência que temos de querer colocar na balança até o afeto. O quanto o outro me dá e em qual medida eu retribuo. Essa é a questão. Lembre-se das frases ‘Você não está me dando atenção suficiente’ e ‘Será que você me dá o tanto de amor que recebe?’. Bom, a primeira coisa a saber é que estamos numa tremenda armadilha. Não existe um medidor de sentimento, prazer, amor que sirva como referência do que eu recebo e dou em troca.
É um erro comum oferecer gestos de generosidade calculando qual será a contrapartida. “A espontaneidade revela o amor e o cuidado que você tem pelo outro. Não dá para forçar e enquadrar a emoção”, diz o psicólogo Bernardo Jablonski. Se a relação é desequilibrada, pelo menos diante de seu olhar vale a pena se perguntar por que não está havendo reciprocidade – sim, porque é inegável que todos queremos receber amor. Mas não é necessário medir cada ato ou colocar o outro contra a parede para saber quem está sendo mais ou menos amoroso. “O caminho para o equilíbrio entre dar e receber está dentro de você, e é só olhando para si, com respeito e paciência, que surgirão as respostas”, ensina a monja Coen.
Só é possível dar o que se tem – o amor não brota por si só. Ele precisa de um solo fértil, o que nem sempre acontece: alguns recebem muito cuidado e calor na infância, quando se formam a personalidade e os sentimentos, e outros, nem tanto. Ou seja, antes de impor medidas, perceba que só é possível entregar o que se tem. “Alguns de nós têm dificuldade de amar, o que compromete a capacidade de se doar”, explica a psicoterapeuta Teresa Creusa de Góes Monteiro, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sobre isso, a monja Coen complementa: “Se precisamos ser lembrados de fazer alguma coisa é porque esse não é um comportamento tão espontâneo”.
É claro que tudo pode ser transformado e cultivado. E é possível, sim, mudar o panorama do desamor porque ninguém está condenado a se sentir devedor para o resto da vida. A psicanálise é uma das técnicas criadas para possibilitar uma revisão do passado e, com base nela, criar as bases para uma nova vida. “A terapia certamente é um dos caminhos para aprender a dar e, assim, ter uma existência mais satisfatória”, diz a psicoterapeuta Teresa Monteiro.

“Se queres receber, deves primeiro dar: eis o início da inteligência”
Pensamento Taoista

UMA QUESTÃO DE BIOLOGIA

Dar e receber algo em troca é também uma questão fisiológica. Um recente estudo do brasileiro Jorge Moll, pesquisador do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, ratifica isso. Seu trabalho demonstrou que o ato de fazer o bem ativa uma região do cérebro conhecida como sistema de recompensa. Isso significa que, para o organismo, doar horas de nosso tempo para uma instituição, por exemplo, provoca o mesmo efeito que receber um elogio sincero ou um carinho da pessoa amada. E, diante disso, esperamos sempre que o outro retribua. “Além do mais, a área cerebral envolvida na formação dos laços afetivos também participa desse processo. Criamos vínculos com quem ajudamos”, diz Moll. O pesquisador conta ainda que o movimento de dar e receber é a base de um sentimento bem humano: o amor. E a sensação de felicidade vinda disso é uma natural conseqüência, que, aliás, garante a nossa sobrevivência.

Como dar o presente certo

• Tente escolher algo que o seu presenteado gostaria de ganhar e não algo que tenha a ver com seus gostos. Ele não se interessa por culinária? Não dê um acessório para a cozinha, por mais bacana que seja.
• Vale observar o momento de vida do outro. Se há uma viagem sendo programada, presenteie com algo que possa ser útil. Ele vai fazer uma trilha? A sugestão é uma bermuda de tecido de secagem rápida.
• Se você não conhece bem o presenteado, pergunte para amigos em comum do que ela gosta. Vale saber que flores ou um vinho sempre agradam.
• Procure avaliar o jeito de ser do outro. É alguém extrovertido ou reservado? Gosta de sair à noite ou adora praia? O presente certo tem muito a ver com o estilo de vida.
• E, finalmente, embale com carinho e escreva um cartão com palavras delicadas. Gentileza e demonstrações de afeto são o melhor de tudo.

A METÁFORA DA GENEROSIDADE

Há muito tempo, mais de 2 mil anos atrás, o verbo dar – que vem do latim dare – começou a ser utilizado como metáfora para os atos de generosidade. Foram os antigos romanos que criaram expressões como “dar a mão a alguém” (dare manum alicui) e “dar as costas” (dare terga), segundo o etimologista Deonisio da Silva, vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

“Ninguém admite aquilo a que não se entrega. Para se entregar ao amor, você deve ser vulnerável a ele”
Felice Leonardo Buscaglia, professor e escritor ítalo-americano

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