Nós nos acostumamos a falar da individualidade da pessoa, da natureza própria de cada qual; enfim, de apenas, um eu, mas, na verdade, coexistem em nós dois eu’s: aquele que é a verdadeira essência, do qual não temos consciência e o eu racional, que torna possível a consciência, a inteligência no sentido mais comum do termo.
O eu de que não temos consciência é chamado, na terminologia freudiana, de inconsciente; a nosso ver, de maneira imprópria, pois nada há mais ciente de tudo que essa entidade.
Nós costumamos englobar na vida psíquica tudo aquilo que não é corporal, mas existem a vida psíquica que ocorre abaixo do nível da consciência e a vida psíquica relacionada às funções cognitivas, ao intelecto. No longo processo da evolução, as funções que constituem o intelecto surgiram como um instrumento para coadjuvar na preservação da espécie.
A civilização ocidental, cujas bases estão nas instituições da Roma antiga, na tradição judaico-cristã e na filosofia grega, sempre valorizou o intelecto, o lado racional, como se fôssemos guiados apenas por essa faculdade intelectual e lingüística que distingue o ser humano dos outros animais.
Essa concepção do ser humano, com a valorização da razão, tem origem na doutrina do filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.), a qual se caracteriza pela diversidade dos conhecimentos e sistematiza os saberes de seu tempo e passa através de toda a história da filosofia até nossos dias, tendo sido adotada pela ciência moderna, conforme indica a denominação da espécie humana, em latim: Homo sapiens, “homem inteligente”. Lembramos que homo vem de humus, “terra”, “barro” e que, na Bíblia, encontramos, por exemplo, Jó, 10.9: “Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás tornar em pó”.
A verdadeira essência do ser humano é sua parte não racional, a parte que realmente cuida da preservação da espécie, sendo a razão uma faculdade surgida no longo curso da evolução. De sua faculdade de razão, o ser humano desenvolveu a linguagem conceitual que tornou possível maior desenvolvimento da inteligência e criatividade. Assim, temos: o ser humano fala porque é inteligente e é inteligente porque fala.
O eu não racional está relacionado aos significados de maneira direta, sem a intermediação da linguagem conceitual, que é uma lenta invenção coletiva.
Na trajetória da influência de Aristóteles sobre a civilização ocidental, temos de levar em conta o tomismo, a saber, o conjunto de doutrinas teológicas e filosóficas do pensador italiano santo Tomás de Aquino (1225 – 1274) e nas quais se destaca a busca de uma harmonia entre o racionalismo aristotélico e a tradição revelada no cristianismo. A palavra tomismo vem de Tomás.
Para que algo aconteça plenamente é preciso que os dois eu’s estejam de acordo um com o outro; é preciso que haja harmonia entre eles. Se somente o racional aceitar as razões, o resultado não está garantido e, por outro lado, se o eu não racional aceitar o que se quer, a probabilidade de ocorrência do resultado é bem maior. Viver bem é harmonizar os conflitos entre os dois eu’s.
Quando há conflito entre os dois eu’s, mesmo que o racional leve vantagem, não ficamos seres plenos, daí a necessidade de procurarmos o autoconhecimento.
Como existem dois eu’s , há duas maneiras de existir, duas grandes formas de inteligência, que nós chamamos de inteligência do ser (a grande inteligência) e inteligência racional, que podemos chamar de noética, e, conseqüentemente, duas formas de comunicação, duas grandes formas de aprender: uma que usa o discernimento, o raciocínio lógico, o bom senso e a outra que é captada pelos significados. Em se tratando de palavras, o eu racional lida com a denotação e o eu não racional, também com as conotações.
As estruturas físicas que tornam possível a inteligência do ser (Em latim intelligencia ensis (Pronúncia /inteli gén cia en sis/) são as que compõem o que se convencionou chamar de sistema límbico, isto é, sistema que forma um anel na borda (limbo = borda) do tronco cerebral.
As estruturas físicas que tornam possível a inteligência racional são as que compõem o chamado neocórtex (isocortex, segundo o naturalista germânico, Karl Vogt (1817-1895), também chamado neopálio ): estrutura neuronal que consiste numa massa cinzenta.
Pelas funções do intelecto, temos o verbo aprender propriamente dito, mas não existe um verbo para indicar o aprender por processos não racionais; por isso, estamos propondo o neologismo aquisitar , formado pelo prefixo latino ad , “para”, com a idéia de acréscimo e do supino quaesitum (na pronúncia tradicional /qüe zi rum/) do verbo quaerere (Na pronúncia tradicional / qué rere/) “buscar”, procurar”. Assim, o verbo aquisitar (formado por semelhança com requisitar ) indica “adquirir conhecimento por contágio mental, por comunicação abaixo do nível da consciência, por imitação (que é uma forma de contágio mental)”.
TEMAS PARA REFLEXÃO
• escolástico. “Relativo à escolástica: pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa da conciliação entre um ideal de racionalidade, corporificado especialmente na tradição grega do platonismo e aristotelismo , e a experiência de contato direto com a verdade revelada, tal como a concebe a fé cristã”. (Dicionário Honaiss).
• PLATONISMO. Relativo a Platão, filósofo grego (428 a. C.- 348 ou 347 a. C.), que foi discípulo de Sócrates (cerca de 470 a. C. – 399 a. C.) e preceptor de Aristóteles (384 – 322 a. C.)
• CARTESIANO. Relativo ao filósofo francês René Descartes (em latim: Cartesius ) (Pronúncia: /car té zius/) (1596-1650).
• EU”s. Fizemos o plural com apóstrofo s para destacar a importância de cada entidade.
• NOÉTICO. O adjetivo noético vem do grego noesis , “entendimento”, de noein , “perceber”, por sua vez, derivado do substantivo nous , “mente”. Usa-se para indicar “relativo ao intelecto”. Confira paranóia (do grego para , “além de” e nous, “mente”.
Professor Luiz Machado, Ph.D.
Cientista Fundador da Cidade do Cérebro
Mentor da Emotologia

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