As aventuras de um home officer
Rubens Pimentel Neto
Trabalhar em casa. Qualidade de vida. Ficar próximo à família e às crianças. Trabalhar de bermuda. Ter flexibilidade de horário. Colocar a condição física em dia. Diminuir o estresse. Ganhar produtividade. Ter mais privacidade. Entre outras tantas coisas…
Foi assim sonhado por mim e por outros executivos, e é desejado ainda por muitos que sonham com as benesses deste formato de trabalho. Vamos então contar como é a experiência de um home officer novato.
Existem duas maneiras de se tornar um home officer: ou você decide que vai trabalhar neste formato e vai mesmo, ou sua empresa lhe propõe montar um escritório em sua casa. Nesta última, seu chefe faz um discurso bonito, incluindo todas as maravilhas do primeiro parágrafo e te manda não para o olho da rua, mas para casa.
Aí começam as descobertas que eu chamo de “mais que interessantes” e a primeira delas que eu vivi está relacionada com o mesmo pessoal que planeja colocar você trabalhando em casa, ou seja, os presidentes das empresas. Nas reuniões eu contava com muito orgulho que estava trabalhando em casa e comecei a perceber que o pessoal fazia uma cara muito estranha.
Perguntei certo dia a um executivo mais chegado o que estava acontecendo e ele me disse: – Trabalhar em casa é sinônimo de vagabundagem ou que você está desempregado e fazendo um bico. Diga que você trabalha em seu home office.
Eu perguntei, então, qual a real diferença e ele respondeu que nenhuma. Parou, pensou e disse: – É igual. Mas se quiser causar boa impressão, diga a mesma coisa, só que de modo diferente. Entendeu?!
Muito bem. Acertei meu vocabulário e lá fui eu feliz da vida para meu home office, fazer a segunda “descoberta mais que interessante”. Eu jamais tinha me treinado em autodisciplina e as coisas começaram a se complicar de verdade durante a Copa do Mundo – jogo que antes eu não podia assistir, só via os do Brasil, estavam agora disponíveis. Eu estava trabalhando e, na sala ao lado, meu filho assistindo a uma magnífica partida do Irã contra Angola e eu tentando me concentrar, perto das crianças.
As “descobertas mais que interessantes” continuam com as primeiras complicações, referindo-se aos brinquedos tecnológicos. Na corporação, o pessoal de T.I. e Suporte ao Usuário resolvem todos os nossos problemas, entretanto, em regime de home office você deve, se desejar produtividade e rapidez, resolver sozinho seus problemas.
Vai ter que entender bem de tecnologia da informação, incluindo hardware, software, antivírus, redes e todo o mais que se refere aos seus instrumentos de trabalho. No entanto, nada é mais cruel do que a mistura que acontece naturalmente entre o trabalho em home office e os afazeres de casa. Você deverá ser xiita, pois, caso contrário, não vai fazer bem nem uma coisa, nem outra.
Mais do que planejar a mudança, sugiro que você planeje o início, digamos, os primeiros cem dias de independência, e esquematize bem para não virar um alforriado sem direção e perdido. Isto envolve mudanças de paradigmas e modelo mental em você, sua família e amigos.
Estipule horários, use agendas e smartphones para organizar seu dia de trabalho. Seja cruel com os “roubadores” de tempo. Divida seu tempo entre atividades de execução, estudo e bem-estar; o que chamamos de Corpo, Mente e Alma.
Afine seu instrumento principal e ajuste suas atitudes. Se você se comportar como se comportava na corporação, seu destino será fazer uma grande confusão; não há horários, chefes, reuniões chatas e tudo mais que havia lá. No home office é só você, portanto, se organizar. Exija-se entregar mais em menos tempo sempre e você verá. Aí sim, há um enorme aumento de produtividade e satisfação profissional e pessoal.
Ah! Duas coisas muito importantes para finalizar: não se esqueça de educar com firmeza e gentileza sua família, e aí incluo seu pet e sua empregada. E nunca diga, como eu disse, que você trabalha em casa, pois caso contrário, sua turma vai pensar que você virou vagabundo, ficou desempregado e não quer mais nada com a vida.
Categoria: Qualidade
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