Apagão do emprego
Hegel Botinha
Tal como o pensador Diógenes, que na antiguidade saía às ruas da Grécia com uma lanterna na mão dizendo “Procuro o homem”, empresas de alto nível, 2.400 anos depois, se vêem na mesma situação. Elas buscam o profissional, não qualquer um, não o que esteja disponível, mas aquele que tornará possível continuar competitivo e bem sucedido num mercado implacável.
No final de janeiro, o Ministério do Trabalho informou que, em 2007, um milhão de postos de trabalho do SINE (Sistema Nacional de Emprego) não foram preenchidos por falta de gente com qualificação profissional. Esse é o mais baixo índice de recolocação profissional pelo sistema público desde 2000.
O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) calcula a reserva de mão-de-obra no Brasil em 9,1 milhões de profissionais. Desse total de pessoas que procuram um emprego, apenas 18,3% têm qualificação. Por que é tão difícil encontrar o trabalhador capacitado?
Uma das explicações é que o investimento público no ensino técnico não acompanha o crescimento da economia. O valor destinado ao Programa de Desenvolvimento da Educação Profissional e Tecnológica, no Orçamento Geral da União, apesar de crescer em valores brutos, vem caindo de 0,08% do PIB em 2004 para 0,05% do PIB em 2007.
Como reflexo, dos cerca de 3.000 estabelecimentos de ensino técnico médio identificados num estudo do Ipea de 2006, somente 800 são de gestão pública e respondem 295 mil matrículas anuais. As demais vagas são em instituições particulares, conseqüentemente, pagas. O que leva a um problema circular para o desempregado: ele não consegue renda, pois não está qualificado, nem consegue se qualificar porque não tem renda.
Um papel essencial e louvável na tentativa de resolver esse problema está no “Sistema S” (SENAI, Senac, SENAT, SENAR entre outros), que oferece 7,9 milhões de matrículas anuais para cursos técnicos, a partir de financiamento das próprias empresas. Não é por filantropia que indústria, comércio e serviços investem na capacitação técnica com mais abrangência do que o sistema público.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) detecta que 56% das empresas brasileiras têm problemas por falta de mão-de-obra qualificada. Os setores que mais sofrem desse mal, numa coincidência preocupante, também são alguns dos que mais têm se destacado no crescimento da economia, como o alcooleiro (76% têm dificuldades de encontrar novos profissionais capacitados), vestuário (75%), equipamentos de transporte e indústria extrativa (71%), bem como máquinas e equipamentos (70%).
A falta desse profissional afeta diretamente a busca de eficiência e redução de desperdício pelas empresas, os esforços pela melhoria de qualidade, a aquisição de novas tecnologias e o desenvolvimento de novos produtos. Em suma, prejudicam o seu desempenho no momento crucial da expansão e da concorrência.
As vendas industriais cresceram no final do ano 6,8% em relação a 2006; a utilização da capacidade instalada beira 83% do setor, crescendo 1,6 pontos percentuais em relação ao ano anterior. A produção de veículos atingiu níveis recordes. Até novembro, as vendas do comércio expandiram 9,9% sobre o mesmo período de 2006 – o melhor resultado desde o início da série histórica apurada pelo IBGE. A inflação oficial ficou dentro da meta, os juros caíram e a projeção de alta do PIB em torno de 5% não se mostrou otimista.
As empresas brasileiras terminaram 2007 saudáveis, dispostas a investir e com índice de confiança em ascensão. No início de 2008, a economia norte-americana trouxe de volta a desconfiança para o mercado de ações, o elevado índice de acidentes nas festas de final de ano lembraram o caos que é a malha viária nacional e a falta de chuvas e de gás reacendeu o alerta para um novo racionamento energético.
Ante a ameaça de tantos apagões, os condutores da política econômica brasileira devem atentar que o progresso vem da mão do homem e não postergar mais uma vez os investimentos tão necessários em qualificação profissional. Sem isso, não haverá lanterna de Diógenes que encontre o homem capaz de fazer a economia e o país crescerem no meio do apagão do emprego.
rh.com.br
Categoria: Recursos Humanos
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