Curso de idiomas não é uma commodity
Curso de idiomas não é uma commodity
Paulo P. Sanches
“Vendo 1/20 de van último tipo. Só pode ser utilizada quando todos os 20 proprietários concordarem, somente em alguns meses do ano, em horários pré-determinados e em um único trajeto. Consumo alto. Motor falha de vez em quando. Não tem opcionais. Se quebrar, bater ou for multado, independentemente de quem estiver dirigindo, todos arcam com 1/20 do conserto, da multa e dos pontos acumulados na carteira de motorista. Suaves parcelas de ± R$ 380,00/mês por motorista durante ± 6 - 10 anos. Negócio imperdível. Obs.: só vendo quando houver 20 interessados”.
Você compraria um carro nessas circunstâncias? Um carro talvez não, mas é dessa forma que a maioria das pessoas tem comprado seus cursos de idiomas nos últimos 20 anos: os programas educacionais são padronizados, as aulas são em grupos e tanto os alunos como o professor precisam se adaptar a pacotes didáticos pré-determinados e rígidos, onde há pouca margem para atender às necessidades individuais.
A pergunta é inevitável: com tantas opções no mercado, por que as pessoas continuam fazendo seus cursos da mesma forma há duas décadas? São quatros os fatores:
1) as pessoas estão acostumadas a contratar um curso de idiomas com os mesmos critérios aplicados na compra de uma commodity - um televisor, um carro ou uma geladeira por exemplo;
2) quanto maior for a oferta, mais difícil é pesquisar todas as alternativas;
3) o marketing das escolas tem grande influência no poder de decisão das pessoas; e
4) quanto menor o preço, e não necessariamente melhor, mais atrativo será o curso.
O principal problema é que se já não é tão fácil comparar o custo/benefício e a qualidade entre produtos, é muito mais difícil utilizar esses critérios na prestação de serviços, onde as diferenças não são tão óbvias. No caso de um curso de idiomas há, portanto, todo um trâmite necessário para que todas as boas possibilidades cheguem às pessoas, a fim de que elas realmente escolham bem. A “receita do bolo” é simples: evitar os fatores subjetivos e privilegiar aqueles conceitos que influenciam diretamente o seu desempenho.
Os seguintes critérios podem até influenciar sua compra, mas não são indicadores seguros de que você vai aprender um idioma:
* ATENDIMENTO - Atendimento rápido, individual, com informações precisas e relevantes é fundamental. Fazer uma pesquisa prévia na Internet sempre ajuda.
* MARKETING - Talento para marketing nem sempre coincide com competência acadêmica e eficiência pedagógica. É notável que redes de franquias e grandes grupos têm mais recursos financeiros para divulgar seus produtos do que a escola de bairro, mas isso não necessariamente significa que o curso de uma ou da outra seja mais ou menos eficaz. Evite coisas do tipo “inglês fluente em oito semanas”, “aprenda inglês dormindo” ou “metodologia cientificamente aprovada”. Opiniões devem, necessariamente, ser comprovadas por fatos. Dê preferência a informações objetivas e menos para a “maquiagem”.
* AULAS DEMONSTRATIVAS - Fazer uma aula demonstrativa é como fazer um test drive de um carro. Não há como garantir que ele terá um ótimo desempenho e baixa manutenção apenas dando uma “voltinha no quarteirão”. É praticamente impossível um aluno em potencial avaliar objetivamente o sistema pedagógico e a qualificação do professor em uma única aula e, na maioria dos casos, a decisão pode ficar comprometida por fatores subjetivos: a simpatia do instrutor, a sala de aula, as ilustrações do livro etc. Se mesmo assim você quiser assistir à uma aula demonstrativa, que seja com aquele que será o seu instrutor.
* PARA BUSINESS OU GERAL - É possível focar um curso em uma necessidade específica, para viagem ou negócios por exemplo, mas isso ocorre essencialmente na parcela do vocabulário e das situações que serão abordadas em sala de aula. O importante, portanto, é assimilar o idioma uniformemente, em todos seus aspectos — profissional, pessoal, cultural e social — de forma que você consiga se comunicar com precisão em todas as situações.
Já os critérios abaixo influenciam diretamente seu aprendizado. O peso atribuído a cada um deles leva em consideração as dificuldades enfrentadas pelos alunos brasileiros e podem, é claro, variar conforme casos específicos:
* LOCALIZAÇÃO - Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde se perde muito tempo no trânsito, é cômodo contar com uma escola localizada perto do trabalho ou residência e melhor ainda se ela dispor de estacionamento. Cuidado com as aulas na empresa! É prático e funciona, desde que você não seja interrompido por telefonemas, chefes mal-humorados e secretárias eficientes. Influência no seu desempenho: 5%.
* SALA DE AULA - Uma sala de aula agradável, com cadeiras confortáveis e recursos áudios-visuais estimulam o aprendizado. Recursos multimídia e videocassete são, hoje em dia, praticamente padrão. Mesmo assim, ainda é difícil encontrar escolas que fujam do formato carteira escolar, quadro negro e retroprojetor. Por isso, peça para conhecer uma sala de aula. Influência no seu desempenho: 10%.
* TECNOLOGIA/RECURSOS - Os recursos tecnológicos disponíveis hoje em dia são infinitamente superiores aos que as escolas dispunham há alguns anos. Mas nem por isso os alunos deixaram de aprender um idioma no passado. Tecnologia serve de complemento ao seu curso. É bom contar com recursos como Internet, biblioteca, videoteca circulante etc., mas não são eles que vão garantir o seu aprendizado. Influência no seu desempenho: 15%.
* SUPORTE AO CLIENTE - É importante poder contar com o suporte direto de um coordenador de cursos, cuja função é avaliar seu progresso periodicamente, atender suas solicitações, antecipar suas necessidades, avaliar o programa educacional e verificar se o professor designado para você ou seu grupo é o mais indicado. Influência no seu desempenho: 20%.
* PROFESSORES - De nada adianta tecnologia de ponta, um bom atendimento e um local agradável se os professores não forem qualificados. Um bom professor, e é isso o que realmente faz a diferença, fará bom uso dos recursos disponíveis. Influência no seu desempenho: 50%.
Assim, há todo um trâmite necessário para não errar:
1. Planejar, determinar uma política de treinamento eficiente (no caso do RH), priorizar o investimento e selecionar os melhores fornecedores são prerrogativas para bons resultados.
2. Selecionar escolas de idiomas é uma tarefa difícil. É bom lembrar, entretanto, que serviços são prestados por pessoas e que tecnologia, vídeos e computadores apenas complementam o aprendizado. A qualidade e o atendimento são, na realidade, as pessoas. Quanto mais parceira for a escola, menor será o uso do tempo dos colaboradores na empresa, mais eficiente o controle e maior o retorno do investimento.
3. As empresas acham que economizam nas aulas em grupo, afinal, quanto mais alunos por grupo, menor o custo por aluno. Em compensação, mais alunos por grupo significa maior duração de curso e, consequentemente, menor produtividade. Custo só serve de parâmetro se comparado aos benefícios, à produtividade e proporcionalmente à duração do curso.
4. Você tem de por a “mão na massa”. Enquanto o treinamento de idiomas for decidido com telefonemas para algumas escolas e com a indicação, ao lado, do preço de cada uma delas, pouco vai mudar.
5. Não há milagres. Os resultados são a médio/longo prazos e o sucesso da parceria virá da maturidade do esforço em conjunto.
Não há, infelizmente, um indicador 100% eficaz para identificar se um curso será, ou não, eficaz. Em caso de dúvida, pergunte-se se os serviços têm valor agregado para você. Se a resposta for sim, você estará no caminho certo.
Categoria: Recursos Humanos
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