O Terror da Entrevista…
(e como vencê-lo)
As estratégias para você dar um show na conversa cara a cara e conquistar a grande chance de sua carreira
O s holofotes estão sobre você. Seu coração dispara. As mãos tremem. A garganta seca. A memória entra em curto-circuito. Do outro lado da mesa, o todo-poderoso: o entrevistador, que disseca você de cima a baixo, do sapato ao corte de cabelo. E logo em seguida dispara as primeiras bombas:
- O que você pode fazer por esta empresa? Por que deveríamos contratá-lo?
- Onde você se vê em cinco anos?
- Agora me diga: está faltando luz de manhã. Você sabe que tem 12 meias pretas e 8 azuis. Quantas meias precisa tirar da gaveta para ter um par perfeito?
Calma. A entrevista de emprego não precisa ser um pesadelo, nem uma sessão de tortura. A entrevista é, sim, o momento mais importante e decisivo no processo de contratação. Para conseguir uma posição em qualquer empresa deste planeta, você terá de enfrentar pelo menos uma entrevista. Hoje em dia, um candidato passa, em média, por três ao pleitear um cargo. Essa é, portanto, a hora de convencer seu interlocutor de que você é a pessoa certa para a vaga, de que é perfeito para o papel. É a grande oportunidade de mostrar que seus valores e planos têm tudo a ver com os valores e metas da empresa. E mais: é o momento precioso e talvez único de você conhecer melhor a companhia na qual pretende passar os próximos anos de sua vida. “O choque entre a cultura da empresa e a do profissional é o principal motivo de mais de 90% das contratações malsucedidas”, afirma Gladys Zrncevich, consultora da Korn/Ferry, uma das maiores empresas de headhunting do mundo. Portanto, se você não quer ser o personagem principal de uma contratação fracassada, tem de entender que a entrevista é a hora de vender seu peixe. É também a oportunidade de avaliar a empresa e checar se realmente aquele é o lugar certo para você crescer como profissional.
Por ser uma via de mão dupla, uma boa entrevista não depende somente de sua alta performance. Depende também da atuação do entrevistador.
Eis o primeiro problema: o mercado está repleto de entrevistadores despreparados para avaliar candidatos. A maioria deles tira conclusões precipitadas sobre seus entrevistados. “Conheci um executivo que decidia se ia contratar o candidato pela intensidade e duração do aperto de mão logo no início da entrevista”, afirma Neusa Lopes, que há 18 anos atua na área de recursos humanos e hoje está no RH da Tecnol, fabricante de armação para óculos, de Campinas, interior de São Paulo. Segundo o especialista em recursos humanos Paul Taffinder, sócio da consultoria Accenture (antiga Andersen Consulting), a maioria dos executivos decide se aprova ou não o candidato nos primeiros 2 minutos de conversa e depois passa o resto do tempo tentando se convencer da decisão inicial. Sem falar no fato de que pouquíssimos entrevistadores estão realmente preocupados em apresentar a empresa ao candidato. “Não basta o profissional ser brilhante e competente, é preciso haver afinidade de valores”, afirma o consultor e headhunter Luiz Carlos Cabrera.
De acordo com dados da Society for Industrial and Organizational Psychologists, entidade americana de psicólogos ligados ao trabalho, as entrevistas têm apenas 65% de eficiência no julgamento das competências e da capacidade de liderança dos candidatos. É justamente por isso que quase todo mundo tem uma história surreal para contar sobre o assunto. Paulo Pedroso da Silva (nome fictício) é um deles. O jovem paulistano saiu de uma entrevista de emprego sem a calça.
A razão do disparate? Durante a conversa com o diretor de um grande banco de investimento, o entrevistador quis comprar a calça de Silva pelo preço do terno completo - 500 reais. Era um bom negócio. Silva, sabendo que estava sendo avaliado, topou o negócio. Recebeu o dinheiro e entregou a calça ao diretor do banco. No fim da conversa, o diretor do banco disse que venderia a calça de volta — só que por 600 reais. “Não aceitei.” Resultado da história: João pediu para usar o telefone. Ligou para um amigo e recebeu uma calça no escritório. A outra peça ficou com o diretor. Silva passou na seleção, mas teve de se desdobrar para administrar a situação.
Sejamos realistas: ninguém está livre desse tipo de situação. Portanto, não resta outra possibilidade a não ser se preparar para tudo, inclusive para enfrentar as surpresas. Será que você está pronto? Infelizmente, as empresas também acham que a maioria dos candidatos não está. O principal problema: chegar para a entrevista com o script pronto, decoradinho. As pessoas ensaiam horas e horas na frente do espelho. Preparam um discurso cheio de adjetivos e acreditam que vão arrasar. “Parece que todo mundo segue a mesma receita. Há uma preocupação excessiva com roupa, gestos e respostas. No final, tudo é muito igual e artificial”, afirma Alfredo Ribeiro, gerente de recursos humanos da HP.
O fato é que há também um forte descompasso entre o que as empresas esperam dos candidatos e o que eles apresentam nas entrevistas. Cláudio Neszlinger, diretor de RH da Microsoft, lembra de uma história que mostra bem esse descompasso. Numa determinada dinâmica de grupo que conduziu com candidatos a trainees, o assunto era esportes. A maioria dos participantes dizia que praticava esportes e se esforçava em lançar argumentos interessantes sobre o assunto. De repente, um participante pediu a palavra. Disse que estava perdido no meio do grupo porque tinha preguiça de fazer exercício, mesmo sabendo da importância do esporte para a saúde. Preferia sair do trabalho e ir tomar um chope com os amigos. “Me impressionaram a atitude e honestidade do candidato”, afirma. O recém-formado foi aprovado.
Lição Fundamental: não queira ser na entrevista o que você não é de fato. “No segundo, terceiro ou quarto dia de trabalho, a máscara cai”, afirma Ricardo Rocco, da empresa de headhunting Russell Reynolds. E o pior: depois de alguns meses você pode perceber que não tem nada a ver com a empresa. E aí suas chances de crescimento profissional são mínimas. Você simplesmente trava sua carreira.
E Mais: não invente respostas quando você não sabe o que dizer. Recentemente, uma candidata a uma vaga numa empresa de Internet foi questionada durante o teste escrito de conhecimentos gerais sobre quem era Harry Potter. A resposta? “Harry Potter é um compositor inglês, que formou dupla com Colle, da famosa dupla Colle e Potter”, disse a profissional. Veja o absurdo. Harry Potter é o personagem principal - um jovem estudante de bruxaria - de uma série literária voltada para o público infanto-juvenil. Nada a ver com o compositor americano Cole Porter. Numa dessas escorregadas, o candidato perde a vaga na hora. Era melhor ter assumido que não sabia a resposta.
Não há segredo nem fórmula milagrosa para ser bem-sucedido numa entrevista. As empresas esperam apenas que você revele o melhor de si, de maneira transparente e honesta. E, é claro, sempre usando o bom senso. Para conseguir essa combinação de espontaneidade e argumentação bem fundamentada, é preciso fazer a lição de casa, se preparar muito. A seguir, apresentamos um roteiro que irá ajudá-lo nessa empreitada.
Antes
Faça uma pesquisa completa sobre a empresa. Há quanto tempo ela está no mercado, quais os produtos, a reputação entre os concorrentes. Ela é lucrativa? Levante todos os números possíveis — faturamento, lucro, previsão de crescimento. Saiba quais são os valores e a missão da organização. Para isso, não poupe tempo ou recursos. Use todas as fontes de informação disponíveis. Os melhores dados geralmente vêm de pessoas que conhecem os detalhes da companhia: funcionários, ex-funcionários e clientes.
Revise e estude cuidadosamente seu curriculo. Esteja pronto para explicar cada movimento e conquista que realizou ao longo da carreira. Use números e exemplos.
Há vários tipos de entrevistas. A mais comum é aquela em que você senta frente a frente com o entrevistador e discute suas competências. Fala sobre os fatos ocorridos em sua carreira para justificar sua capacidade de assumir a nova posição. Nesse caso, há exigências típicas que variam de acordo com o tipo de empresa. Se você estiver pleiteando uma vaga numa empresa do setor financeiro, por exemplo, esteja preparado para fazer cálculos e resolver problemas que envolvem raciocínio. Se for para a área de consultoria, certamente o entrevistador lhe apresentará casos de empresas. Ou seja, um dilema empresarial ao qual você deve apresentar uma solução inteligente. Para empresas de varejo, esteja preparado para falar sobre produtos, estratégia de vendas e importância do consumidor.
Independentemente do setor, há ainda as entrevistas que testam seu grau de estresse. Nesse caso, mais do que ouvir, o recrutador vai testar sua reação diante de situações-limite. Normalmente, ele já começa disparando observações sarcásticas e até agressivas. Uma consultora de RH do interior de São Paulo, que preferiu não se identificar, lembra que num determinado processo de recrutamento que conduziu chegava para o candidato e dizia: “Como o senhor tem coragem de vir a uma entrevista de emprego com uma roupa tão inadequada, de mau gosto”. Normalmente, os entrevistados faziam uma cara de espanto, sem entender o que acontecia. “Fazia essa pergunta para ver qual era a reação do candidato”, afirma ela. “Na verdade, como funcionária da empresa, sabia que o futuro chefe do candidato tinha a mania de fazer esses comentários com subordinados, e precisava de alguém que suportasse bem esse tipo de situação.” Se acontecer algo parecido com você, não se desespere. Mantenha a calma.
Se sua entrevista for durante o almoço, as orientações são as mesmas. Só que há um item a mais em julgamento: seus hábitos sociais. Para evitar escorregões, não peça pratos difíceis de comer nem o mais caro do menu e evite bebidas alcoólicas.
Para conter despesas, muitas empresas estão optando por entrevistas por telefone nas primeiras etapas do processo. Você também precisa estar preparado para isso. Reserve uma sala tranqüila para receber a ligação. Escreva antecipadamente alguns pontos importantes que gostaria de discutir e mantenha as anotações em mãos durante a conversa. Lembre-se de que o seu objetivo é conseguir agendar a entrevista pessoalmente.
Dalen Jacomino
Categoria: Recursos Humanos
Imprimir este Post
