Trabalhar demais é mesmo necessário?
Demétrio Luiz Pedro Bom Júnior
Este tema é muito falado e discutido dentro dos assuntos empresariais e de Recursos Humanos. Podemos até dizer que “bom, sobre este tema eu já sei o que vai ser dito”, mas o que procuro trazer aqui é uma reflexão, para realmente respondermos à pergunta de modo conciso e com argumentos válidos.
Para você saber melhor o que irei colocar neste artigo, dividirei o texto para melhor tratar o assunto e desenvolver o tema em dois focos: o da empresa e o da pessoa.
Falando sobre o ponto de vista das empresas, muitos de nós podemos pensar: “mas elas buscam sugar todo o nosso tempo e assim acabamos trabalhando demais”, mas há empresas que também “pegam leve”… vamos ver. Se olharmos de perto algumas empresas, como a AMBEV por exemplo, perceberemos a rotina estafante e a cobrança incansável por resultados dos funcionários, qualquer que seja seu nível hierárquico. Neste tipo de empresa, realmente as pessoas trabalham demais, ficando longe das famílias por semanas, trabalhando sábados e domingos, e ainda fazem cursos oferecidos pela organização, ocupando maior tempo ainda durante a noite. Não é demais? Mas estas empresas alcançam seus resultados e, muitas vezes, têm um excelente índice de competitividade, sendo até líderes em seus setores de atuação.
Mas e o contrário? Existe? Sim, existe. Se pegarmos o exemplo clássico da Microsoft, com setores como o de desenvolvimento de softwares, onde as pessoas trabalham com flexibilidade de horário, com a roupa que quiserem e ainda podem jogar vôlei e basquete durante o expediente de trabalho, ainda assim a empresa consegue excelentes índices de produtividade e mantém a liderança no mercado. E não é somente a Microsoft que consegue isso.
De acordo com a revista Fortune de janeiro de 2003, a Microsoft é apenas a 20a. empresa classificada entre as melhores para se trabalhar nos Estados Unidos, numa lista que revela as 100 melhores, encabeçada pelo segundo ano consecutivo pela empresa Edward Jones, uma corretora de valores, seguida pela Container Store, uma rede de loja de vendas de acessórios domésticos.
A pesquisa feita para levantar tais dados e formar a lista é baseada na satisfação dos funcionários e nas políticas de RH das empresas. No Brasil, um levantamento similar é feito pela revista Exame, que aponta as seguintes 10 melhores empresas para trabalhar: Siemens Metering, McDonald´s, Magazine Luiza, Redecard, Movelar, AES Sul, Marcopolo, Algar, Todeschini e Pão de Açúcar.
Podemos perceber que nestas listas há empresas que exigem grande tempo e dedicação ao trabalho de seus funcionários, ou seja, podemos ficar horas e horas levantando empresas em que as pessoas trabalham demais e outras que possuem políticas voltadas à flexibilidade e há menor exigência do tempo de trabalho. Qual é a melhor? Na verdade, se a empresa alcança seus objetivos de forma eficiente com pessoas satisfeitas com o trabalho, esta empresa pode ser considerada boa para trabalhar, mesmo se o funcionário dedica tempo demais para isso.
Para elucidar melhor esta colocação, vamos ver o lado dos funcionários.
Quando falamos em satisfação do funcionário, isto é muito subjetivo. Vamos supor que eu pergunte: O que é satisfação no trabalho para você? Com certeza, obterei respostas diferentes, sob pontos de vistas diferentes. As experiências de cada um e o seu dia-a-dia no trabalho, assim como a sua formação, expectativa no trabalho, função exercida, ambição pessoal, dentre outros fatores, formam a sua resposta. É claro que uma boa política de RH para selecionar e treinar as pessoas que trabalham ou possam vir a trabalhar na empresa, são fundamentais para determinar o perfil delas, afim de obter pessoas que consigam se adequar ao clima e à cultura organizacional, ficando satisfeitas com a empresa e com aquilo que fazem.
Se nos basearmos novamente no exemplo da AMBEV, mesmo que ela não esteja na lista das 10 melhores empresas para trabalhar no Brasil, podemos perceber que há pessoas que simplesmente adoram trabalhar lá. Por quê? Justamente por adorarem desafios, cobranças e só verem a recompensa financeira (expectativa), mesmo ficando longe da família e perdendo finais de semana, mas são pessoas cujo perfil é o pretendido pela empresa.
Mas, há pessoas que não se encaixam neste perfil e, com certeza, foram demitidas ou saíram por conta própria da organização. Aí, ouviremos declarações negativas sobre a empresa em que trabalhou.
O que vale ressaltar aqui é: o que é melhor para você? Em que perfil eu me encaixo? Estou satisfeito? Devo trabalhar demais para manter meu emprego, já que vivemos numa situação complicada? O desafio está lançado e a resposta só você pode saber ou poderá concluir… depende de você.
Mesmo com tudo isso exposto, gostaria de concluir com um trecho da música “Epitáfio”, dos Titãs, para, talvez, ajudar numa reflexão:
“Devia ter complicado menos. Trabalhado menos. Ter visto o sol se pôr…”. O que desejo é que você seja sempre feliz com as suas decisões.
Categoria: Recursos Humanos
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