Trabalho: perspectivas para o terceiro milênio

Carlos Alberto Poleti

Para entendermos o que podemos esperar para os próximos anos e qual o legado que devemos deixar para nossos descendentes, faz-se necessária uma análise dos primórdios do aparecimento da espécie humana e a sua convivência com a atividade que sempre garantiu a sua sobrevivência: o Trabalho.

Etimologicamente a palavra “trabalhar” tem origem no latim vulgar “tripaliare”, cujo significado representa martirizar com o tripaliu (instrumento de tortura utilizado pelos romanos, adaptado de um instrumento originalmente criado para debulhar milho). Por esta origem, já se cria a associação de que devemos ser submetidos à tortura para garantir nossa sobrevivência.

Se considerarmos os ensinamentos bíblicos, na passagem em que Adão e Eva cometem o pecado original e são expulsos do Éden, onde tinham todas as condições de sobrevivência garantidas, recebem como castigo a necessidade de obter estes mesmos recursos através do suor de seu trabalho. Mais uma vez, a imagem de castigo associada ao que devemos fazer para sobreviver.

Ainda com base na história antiga, aprendemos que os povos poderosos subjugavam os mais primitivos, infligindo-os a escravidão para satisfação de suas necessidades. Toda atividade distinta da utilização do intelecto era destinada aos seres inferiores, pois aos poderosos cabia somente idealizar segundo as mensagens divinas por eles recebidas. Assim, apesar de não estar relacionado ao castigo, o trabalho está associado à escravidão que em síntese representa a total supressão de liberdade do ser humano.

Obedecendo à cronologia da evolução social da raça humana podemos estabelecer quatro eras distintas de sua convivência com o trabalho: a luta pela sobrevivência, a escravidão, o trabalho mecânico e a tendência para o futuro com o capital intelectual. Para cada uma destas fases percebemos características bem claras da relação do ser humano com o trabalho.

Na luta pela sobrevivência o homem agia de acordo com sua intuição, usava a descoberta dos recursos que o rodeavam, preocupando-se exclusivamente com a própria sobrevivência e as oportunidades eram exatamente iguais para todos.

Na escravidão o conhecimento era divino, onde a submissão era determinada pelo uso da força, trazendo na essência das relações o belicismo e a disposição para a guerra, estabelecendo-se a primeira divisão de classes: a realeza e a plebe.

Na era do trabalho mecânico (revolução industrial), a contratação do trabalho se faz através dos detentores do capital, onde prevalece a idéia de racionalização pela redução de custos, permitindo as primeiras manifestações da classe trabalhadora em busca da defesa de seus direitos, estabelecendo-se a nova hierarquia social composta pelos capitalistas, burocratas e trabalhadores.

Para o terceiro milênio vislumbramos a era do capital intelectual, com o conhecimento totalmente disseminado e democratizado, colocando o desenvolvimento tecnológico a serviço do homem para a melhoria de sua qualidade de vida, onde desaparece a imagem do trabalho como castigo e surge a atividade profissional como fonte de prazer, permitindo que a sociedade organize-se em um sistema de parceria onde todos tenham a possibilidade de ganhar.

Para que esta visão se torne realidade, algumas mudanças precisam e devem ser feitas, principalmente em nosso [país] País onde a tutela do Estado ainda é marcante nas relações do trabalho, por conta da preservação de uma legislação corporativista e ao mesmo tempo paternalista e inflexível às necessidades modernas. Na verdade nossas leis trabalhistas apenas modificaram a forma de escravatura, com um “pressuposto” de liberdade:

O escravo tinha um “dono” a quem servia com exclusividade em troca da vida na senzala. O empregado tem um “patrão” com quem estabelece um contrato que lhe impõe disponibilidade e fidelidade em troca do salário.

O escravo “obedecia” ao capataz e ao senhor sem possibilidade de escolha. O empregado “cumpre” cláusulas contratuais e regulamentos aos quais deve adaptar-se.

O escravo podia ser “vendido” a qualquer momento, conforme interesse de seu dono. O empregado pode ser “demitido” com ou sem motivo, conforme interesse da empresa. O escravo era “castigado” quando se negava a trabalhar, qualquer que fosse o motivo. O empregado pode ser “punido” pelo empregador, quando esse entende que a tarefa não foi executada a seu contento.

O escravo em certas condições obtinha a “alforria”. O empregado, em certas condições obtém a “aposentadoria” (sic). Os escravos organizaram os “quilombos” para combater a escravidão. Os empregados organizaram os “sindicatos” para reivindicar os seus direitos.

Esta nova visão da relação de trabalho exige uma mudança profunda de ambos protagonistas (organizações e colaboradores), onde o respeito à individualidade, o reconhecimento da importância da participação do ser humano no processo empresarial, a divisão adequada entre todos dos ganhos obtidos, devem estar associados a um entendimento de que a contribuição deve ser fonte de prazer, a uma atitude de busca constante de melhores resultados e autodesenvolvimento intelectual.

Como citado pelo conferencista Waldez Ludwig “o ouro moderno não é material, é mais precioso e existe apenas na cabeça das pessoas. Seu nome é CONHECIMENTO”. E como tal deve ser valorizado na mesma proporção pelas organizações que se valem do conjunto de conhecimentos de seus colaboradores para a geração dos lucros que garantirão a continuidade de sua existência.

Temos que considerar que a mudança nas relações de trabalho imposta pela globalização é inevitável e sem retorno. Os donos do conhecimento serão os novos donos dos meios de produção. O fim do mundo anunciado pelos profetas é o mundo de Adão e Eva e da escravidão. A busca pela informação e atualização a respeito de tudo que nos cerca garante a obtenção do conhecimento diferencial.

A responsabilidade pela garantia do trabalho não é das organizações, é antes de tudo uma obrigação de cada indivíduo. Reclamar e ficar esperando pelo reconhecimento vão somente abalar o moral da equipe e afetar negativamente o resultado, pois o tempo gasto com a reclamação e com a espera se traduz em queda de produtividade; se a produtividade cai, não há reconhecimento. A informação e o conhecimento ganharam destaque, são os bens mais importantes da humanidade, diferentes da soja, do minério de ferro, da eletricidade, do ouro, do dinheiro, porque são resumíveis, dissemináveis, não podem ficar guardados em cofre, são transportáveis à velocidade da luz, desconhecem barreiras, depois de adquiridas não se desgastam e não podem ser trocados, só podem ser compartilhados. O mundo caminha para vender informação e conhecimento.

 

 (Estas observações derivam de palestras proferidas pelo Dr. Waldez Ludwig sobre empregabilidade).

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