Vamos estar captando?

Suzana Guimarães

Juro que vou gritar a próxima vez que ouvir alguém formular uma frase deste jeito. “Vamos estar enviando,” “vamos estar planejando,” as aplicações não têm fim. Não sou a primeira nem a última pessoa no país a notar o neologismo, e não faço idéia de como ele surgiu. Acho que os usuários acreditam tornar seu ‘texto’ mais sofisticado com a união do infinitivo com o gerúndio, dando sentido de tempo decorrido em uma ação que, na verdade, acontece de uma só vez, e pronto. Vamos captar. Vamos enviar. Vamos planejar. O idioma pátrio, pobre filho sem defesa, mereceu uma coluna de Elio Gaspari a este respeito no ano passado. A vontade que tive, ao ler, foi soltar o jornal e gritar. Desta vez de alegria.

Algumas coisas, como este vício de linguagem, se instalam entre nós sem que saibamos de onde veio, com insinuante sex-appeal baseado, na maior parte das vezes, no fato de que todos estão usando e/ou fazendo. Quando eu era criança, repetia a gíria dos anos 70 e achava ‘o maior barato.’ Nem sabia o que estava dizendo - por pura sorte não disse palavrão, cheia de moral, tentando bancar a bacana.

Com captação de recursos ocorre quase a mesma coisa. O conceito ainda é relativamente novo, servindo a uma série de áreas, como a captação para a área cultural, esportiva, etc. Já ouvi, em meados dos anos 90, o termo “arrecadação de fundos,” uma outra versão para o técnico norte-americano fundraising, uma profissão estabelecida há mais de 30 anos, exercida pelo fundraiser, que consiste em angariar dinheiro para organizações sem fins lucrativos. O salário de um fundraiser em Manhattan poderia variar de 28 a 60 mil dólares por ano em organizações pequenas e médias. Nas grandes, verdadeiramente milionárias, poderia chegar a três dígitos. Mas isto já é outra história.

Captação de recursos é um processo, uma atividade de uma organização, tão fundamental quanto é para a Coca-Cola vender refrigerante. Se parar, a empresa pára. As organizações sem fins lucrativos – aqui cabem as ONGs, institutos, fundações, associações, etc – precisam apreender os métodos desta técnica e aplicá-los no dia a dia, ou seja: precisam viver captação, pelo menos oito horas por dia, ou viver em pânico, ter o telefone cortado, atrasar os salários. Captação de recursos, sim, é algo que se desenvolve ao longo do tempo. Sempre, infindável.

Tenho observado que muitas organizações vivem de projetos. Esperam o edital do poder público (leia-se governamental), de alguma fundação ou órgão financiador nacional ou internacional e arregaçam as mangas, fazendo de tudo para que a entidade se ajuste ao projeto. Preparam o projeto e cruzam os dedos. Enquanto isso, um grande evento na cidade reúne cinco mil pessoas, justamente o público que mais tem a ver com o trabalho da entidade. Alguém pensou em fazer uma ação no evento? Provavelmente não.

Este negócio de captar recursos é tão sério que, nos cursos relacionados ao Terceiro Setor nos Estados Unidos, é chamado de Fundraising and Development. Desenvolvimento entra na equação porque a captação apóia – é fundamental – para o desenvolvimento da entidade. Mas também porque, dentro do setor de desenvolvimento, entra o sub-setor captação de recursos. Imagine uma torta com várias fatias cortadas: a torta é o desenvolvimento, uma fatia será a captação.

Portanto, quando pensar em captação de recursos, pense em planejamento – planeje 70% do tempo e execute 30%, dizem os sábios japoneses – pense nos seus públicos, no calendário anual, na equipe fixa, nos voluntários. Nos doadores do passado, nos que doaram para uma entidade semelhante, no conselho fiscal, deliberativo, consultivo, ou qualquer outro que você tenha. Veja a entidade como um todo (a torta) e pense como vai desenvolver-se. Feito isto, as estratégias de captação de recursos começam a ficar mais claras. 

Escreva o que você pensou, esboce um planejamento: eu garanto, é indolor. Um planejamento mal redigido ou montado é muito melhor que nenhum planejamento. Assim você estará entrando no mundo da captação de recursos, e começando a perceber que se trata de um processo diário, que demanda sempre antenas bem ligadas. Um processo que se desenvolve ao longo do tempo. Você e sua organização vão estar captando recursos. 

Suzana Guimarães
suzana@359online.com

Jornalista. Mestre em Terceiro Setor pela New School University (NY). Consultora em Terceiro Setor e Responsabilidade Social. Editora da revista Conexão Social.

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